Capítulo 98
ALICE
Os gritos ecoavam pela casa, sendo provavelmente possíveis de ouvir do outro lado da rua. Mergulhei a minha cabeça sobre os joelhos e pedi a Deus para que os medicamentos fizessem efeito e me salvassem de uma ataque esta noite.
- Vamos lá para cima. - sussurrou o Henrique por entre os gritos ao meu ouvido.
- Não, não posso deixar a minha irmã aqui sozinha. - expliquei. Ele concordou acenando com a cabeça.
Mais ou menos meia hora depois a casa estava quase vazia. Na sala restávamos apenas eu, o meu namorado, juntamente com os seus pais, a Anica, a Inês e o Vasco, que ainda a tentava acalmar.
- Como é que é possível... que cara de pau! - gritou a Inês virando-se contra o Vasco.
- Tem calma, já passou! Eles já foram embora e tu devias estar em Cascais agora. - disse ele.
- Sim, eu sei, tens razão... mas tipo...
- Inês já chega querida... não vale a pena gritarmos mais... - pediu Melany enquanto se aproximava dela com um copo de água com açúcar nas mãos.
A minha irmã pegou no copo de imediato e bebeu-o num só gole.
- Peço imensa desculpa. - disse eu levantando-me ainda limpando as lágrimas do rosto.
- Tu não tens de pedir desculpas meu amor, a culpa não é tua... - respondeu-me Melany.
- Mas se nós tivéssemos dito há mais tempo... se os tivéssemos desmascarado logo da primeira vez, a noite de Natal não estaria arruinada.
O Henrique afagava o fundo das minhas costas, mas nem isso conseguia acalmar o meu choro.
- E quem é que disse que a noite de Natal está arruinada!? - indagou a mãe do meu namorado mostrando um pequeno sorriso. Um sorriso acolhedor que consegue aquecer um pouco o meu coração.
Olhei para ela sem conseguir esconder a minha expressão de confusão.
- Ainda temos de abrir as prendas! - exclamou piscando-me um olho.
Quando olhei para o enorme relógio da sala vi que já eram onze e trinta, o que quer dizer que falta apenas meia hora para a entrega dos presentes.
- Inês temos de ir caso contrário não chegamos a tempo e depois o meu pai... bom tu já sabes. - Explicou o Vasco atrapalhado. Só agora consegui reparar que está vestido com uma camisa azul clara e umas calças bege, peças de roupa nada habituais no guarda roupa monocromático do namorado da minha irmã.
- Sim, sim tens razão! Nós temos de ir! - afirmou a Inês pegando na sua bolsa e dirigindo-se à porta juntamente com o namorado. - Feliz Natal mana.
- Feliz Natal. - repeti abraçando-a com força.
Enquanto ajudo a Melany a arrumar a mesa, fico a pensar para onde terão ido o Tiago e o Afonso. Espero que tenham seguido o pai mal ele saiu a correr batendo a porta com força. A Tânia saiu pouco tempo depois e o meu extremoso pai foi atrás dela como um bravo cavaleiro andante pronto para defender a sua amada.
Se algum dia alguém me pedir que conte a minha história, muito provavelmente, este será um facto que irei esconder.
- Bem meninos e meninas, penso que já está na hora de abrir os presentes! - exclamou Melany tentando parecer entusiasmada.
- Esperem, antes disso! - interrompeu Anica levantando-se do sofá num segundo e permanecendo em pé junto à lareira acesa.
- O que se passa Anica!? - perguntou o pai do Henrique curioso.
- Eu... eu gostava de vos contar uma novidade...
- Novidade!? - indagou o Henrique. - Estás grávida! - gozou ele rindo-se.
- Cala-te Henrique, deixa a tua prima falar! - vociferou Melany.
Observei a Anica que me retribuía o olhar, consigo sentir o seu coração bater cada vez com mais força à medida que as palavras tentam sair pela sua boca, mas sem sucesso.
- Eu... é que eu...
- O que se passa Anica? Estás a deixar-me preocupada filha! - disse Jorge.
- Eu peço desculpa, é que eu...
- Tu queres ver que ela está mesmo grávida! - troçou Henrique novamente.
- Cala-te! - sussurrei no seu ouvido irritada.
- Sim, estou...
As faces dos seus tios empalideceram e o riso do meu namorado sessou num segundo. Ainda não sei qual a resposta do António, se aceita ou não o bebé que está para vir, mas estou contente pela Anica ter tido coragem para contar aos tios a novidade.
Olhei para Melany que se levantava na direção da sobrinha dando-lhe um abraço apertado.
- Muito parabéns querida! Mas que boa notícia!
- Boa notícia!? - exclamaram em coro os homens da casa.
- Claro que é uma boa notícia. - respondi sorrindo. - Vamos ter um bebé na família.
- Mas vocês endoideceram!? - esbravejou o Henrique. - Ela tem dezanove anos! Dezanove!
- E eu tinha dezoito quando tu nasceste! - exclamou Melany. - O que importa a idade Henrique!? Vives em que século?
- Num século em que é bastante comum ver raparigas como ela serem mãe solteiras! - explodiu.
- Mãe solteira!? - vociferou Anica visivelmente enraivecida. - Mas quem é que tu pensas que eu sou!?
- Ahhh , não queiras entrar por aí priminha...
- Para tua informação querido primo, eu sei quem é o pai do meu filho. E ao contrário de ti, ele aceitou este bebé e vai ser um pai presente!
Os seus olhos brilhavam por causa das lágrimas que estavam prestes a cair pelo seu rosto claro.
No meu peito o meu coração pula de alegria, não posso acreditar que aquele rapaz, que gostava de andar com várias raparigas agora vais ser pai e vai cuidar do seu filho.
Olhei para o Henrique que se manteve calado durante o discurso do seu pai.
- ... cuida bem de ti e do teu bebé! Ah e depois não te esqueças de trazer o teu namorado cá a casa para o conhecermos!
- Ahm... vocês já o conhecem.
- Conhecemos? - perguntou Melany curiosa.
- O pai do meu bebé é o António, o amigo do Henrique...
O meu namorado arregalou os olhos e repetiu lentamente:
- O António, estamos a falar do mesmo António que eu estou a pensar!?
- Sim, esse mesmo.
- Nah, isto é uma piada de certeza, ahahaha, ele nunca aceitaria ter um filho com esta idade! Aquele gajo só quer sair e comer miúdas...
- Se calhar mudou de ideias quando soube que ia ser pai... tu não farias o mesmo se fosse contigo!? - perguntei, fazendo com que ele e o seu pai se entalassem com a taça de champagne.
- Eu... anh... quer dizer, eu tomo as devidas precauções, e tu sabes!
- Não importa! - interrompeu Melany. - O que interessa agora é que a Anica está feliz e vai presentar-nos com um lindo bebé para o próximo ano!
No meio de abraços e beijos, de felicitações e pedidos de desculpa por parte do Henrique, Anica disse:
- Bem, vamos abrir as prendas!? Eu posso começar. Tia esta é para si.
Melany pegou na caixa da Michael Kors e sorriu, lá dentro estava uma linda mala coral com uns pormenores dourados.
- Muito obrigada minha querida, mas não era preciso teres gastado tanto dinheiro comigo!
- Seguinte, uhmmm, deixa cá ver. - dizia enquanto procurava o próximo presente. - Aqui está, esta é para o tio.
Jorge abriu a saca com todo o cuidado e de lá retirou um livro que ele queria ler há imenso tempo.
- Era mesmo isto que eu queria, como é que te lembraste!?
Ela sorriu e encolheu os ombros.
- Nem eu me lembrei de melhor, estás a ganhar uns pontos. - disse o Henrique.
- Vá cala-te e abre lá isto!
- Uhmmm, não sei não, ainda tem uma bomba aí dentro...
- Epah abre lá!
Dentro de uma saca vermelha estava uma caixa de ténis da Nike, os mesmos que ele tinha pedido aos pais no mês passado.
- Obrigada Anica, era mesmo isto!
- É, eu sei. - disse ela sorrindo e olhando para mim. - Por último, a prenda que eu nunca pensei comprar, mas a que mais valor tem para mim! Alice, esta é para ti.
Toda a sala ficou perplexa ao ouvir as palavras de Anica. A nossa amizade era sem dúvida alguma a última coisa que eles esperavam e sinceramente eu também não acreditava até há dois dias atrás.
Peguei na pequena caixa branca e abria cuidadosamente retirando o laço de fita vermelho. Lá dentro tinha uma chupeta de prata com uma inscrição: "Alice, aceitas ser a minha madrinha?"
Lágrimas de alegria rolaram pelo meu rosto.
- Sim, é claro que aceito seu a tua madrinha feijãosinho. - respondi para a barriga de Anica.
Todos bateram palmas enquanto eu e agora a futura mãe do meu afilhado ou afilhada nos abraçávamos.
- Vais ser a melhor mamã para o teu bebé. - sussurrei no seu ouvido.
- E tu a melhor madrinha!
A troca de prendas continuou, recebi um lindo vestido vermelho dos pais do Henrique, vestido esse que foi logo alvo de olhares menos próprios por parte do meu namorado.
- Logo quero ver-te só com ele posto. E ai de ti que vistas cuecas! - ordenou baixinho mordiscando-me o lóbulo enquanto os outros continuavam a abrir os seus presentes.
- Bem, acho que agora é a minha vez de oferecer-te o meu presente. - disse ao Henrique.
- E eu estou muito curioso para ver o que é!
Peguei na caixa onde coloquei o bilhete de avião, juntamente com os papeis da transferência para Londres e coloquei no seu colo. O meu coração apertado gritava de saudades, mesmo sabendo que ele ainda estava comigo mas, que no início do próximo ano já não estará.
- O que será isto!? Parece leve.
- Abre. - pediu Melany entusiasmada. Ela parece feliz com a partida do filho, e eu compreendo que assim o seja, pois ele está a seguir o seu sonho, mas não consigo deixar de pensar que não o verei durante muito tempo...
- Mas isto é... - iniciou ele interrompendo os meus pensamentos.
- Isso é a tua viagem e transferência de escola para Londres! - exclamei mentalizando-me.
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