Capítulo 97

ALICE

Levantei-me cedo esta manhã, manhã de Natal. Quando era pequena adorava esta quadra, era sem dúvida a minha favorita, contudo, depois da morte da minha mãe as coisas mudaram bastante, já não se ouviam os cânticos de Natal, não se comiam bolachas de chocolate com canela, e para montar o pinheiro era preciso que eu e a Inês insistíssemos bastante.

Desde que a minha mãe partiu começamos a passá-lo na casa do Tiago e eu até não me importava, porém, se soubesse o que sei hoje provavelmente ter-me-ia importado.

Mas este ano será diferente dos restantes, sem mãe, sem pai e o pior, sem irmã, mas, por outro lado, não consigo ficar completamente triste, pois vou celebrar a época mais bonita do ano ao lado da pessoa que eu amo.

Fui até à cozinha onde Melany já estava com um avental vermelho com uma rena no meio a preparar bolachas de chocolate, as mesmas que a minha mãe fazia e que a Tânia também fazia.

- Bom dia querida!

- Bom dia. - respondi sentindo o delicioso cheiro que vinha do forno. - Vim ver se precisava de ajuda.

- Humm... - olhou à volta para a grande cozinha. - Sim. Podes ajudar-me a preparar a mesa para logo à noite. Seremos dez!

- Dez!? - perguntei curiosa.

Não faço ideia de quem poderá vir passar cá o Natal. Será que os pais da Anica vêm? Não consigo imaginar qual será a reação deles ao saber que a filha está grávida, mas espero que não seja como a dela.

Melany limitou-se a sorrir e deu-me instruções de onde estavam as decorações de mesa. Sempre vi este tipo de coisas em filmes e adoro a ideia de casa cheia no Natal, apesar de nunca ter celebrado com muita gente.

Ouvi a porta do quarto da Anica se abrir e corri até lá.

- Bom dia, então como estás? - perguntei à porta.

- Mais ou menos, estou um bocado enjoada mas estive a ler e é normal, são os enjoos matinais.

- Pois... Vais contar-lhe?

- Vou. Passei a noite toda acordada a pensar nisto e se ele não quiser eu vou ficar com o bebé na mesma. Li também algumas coisas sobre o aborto, mas não consigo pensar sequer em fazê-lo.

- Eu acho que estás a ser muito corajosa, mesmo!

- Não sei se se pode chamar coragem a isto Alice... mas pronto, também já não vale a pena continuar a pensar no mesmo. Vou ter agora com ele, marcamos de nos encontrar perto do Jardim Zoológico.

- Vais ver que vai correr tudo bem! - disse fazendo figas com os dedos.

Ela sorriu com um ar abatido e saiu de casa.

Acabei por ajudar Melany com o resto dos doces de Natal até que ouvi os passos de alguém a descerem as escadas.

- Bom dia meu amor! - exclamou Jorge abraçando a mulher e deixando-lhe um beijo no rosto enquanto retirava um pouco da massa do bolo de chocolate com o dedo e o levava à boca.

- Guloso! - disse ela rindo.

Um dia gostava que a minha relação com o Henrique fosse assim como a deles, saudável e sem todo o tipo de problemas pelos quais nós já tivemos de passar. Mas não sei se vamos conseguir chegar a esse ponto. Não sei se algum dia teremos uma casa só nossa, não sei se seremos capazes de aguentar uma relação assim... à distância.

Senti umas mãos envolverem-me pela cintura e uma cabeça apoiou-se no meu ombro quebrando a minha linha de pensamentos negativos.

- Bom dia meu amor! - repetiu o meu namorado imitando o pai.

Por um lado não quero que estes momentos acabem, mas por outro... Londres queria-o a ele, ele quer-me a mim e eu só quero que ele seja feliz.

- Bom dia Henrique. - sorri e dei-lhe um beijo nos lábios que ainda estavam frios e sabiam a pasta de dentes.

Depois do almoço eu e o Henrique fomos até ao jardim que ficava no meio de algumas casas do condomínio, o jardim no qual começamos a falar sem que eu o achasse um verdadeiro convencido.

- Porquê que quiseste vir para aqui? - perguntou-me.

- Porque... porque - porque vou morrer de saudades tuas quando te fores embora - então porque é um sítio especial para nós e assim podemos namorar um bocadinho sem ninguém nos ver.

- Amor o meu quarto também é bastante discreto e sinceramente mais confortável. - disse rindo-se. Provavelmente acha que sou uma parva neste momento.

- Okay, mas eu já estou farta de estar fechada em tua casa... e também já não vínhamos cá há muito tempo.

- Esta bem, por mim desde que esteja contigo eu estou bem, até podias levar-me para o meio do deserto que eu não me importava.

O problema é que daqui a uns dias vais deixar de estar comigo meu amor.

Pensei dar-lhe já o presente, mas não achei justo sendo que a Melany me ajudou a organizar tudo, a ideia inicial de surpreender todos mantém-se.

Já eram cinco e meia da tarde quando voltamos para casa. Ao chegar à porta, algumas vozes familiares são possíveis de ouvir. Entramos silenciosamente e no canto do hall de entrada estão quatro malas de viagem.

Olhei para o Henrique que também me olhou ao mesmo tempo.

- Ah boa filho, já chegaram! - exclamou Melany num gritinho. - Vá venham até à sala ver quem está cá!

Estas vozes são-me demasiado familiares, isto não pode estar a acontecer.

Na sala estavam sentados no grande sofá branco Tiago, Afonso, David e Jorge enquanto Tânia permanecia em pé junto da mesa de jantar.

- Como assim!? - perguntou o Henrique paralisado ao chão enquanto eu lhe apertava a mão com força e segurava as lágrimas.

- O quê filho?

- Vocês as duas estão chateada há anos...

- É verdade, estávamos chateadas há imenso tempo, tempo demais aliás, mas graças à Alice resolvemos os nossos problemas e decidimos que seria ótimo passarmos o Natal todos juntos como uma verdadeira família.

- Graças a mim!? - perguntei estupefacta. Como é que depois de tudo o que aquela mulher fez ainda tem coragem de aparecer no meu Natal com o marido e os filhos.

- Sim querida. Eu queria que o teu Natal fosse parecido com os outros, por isso pensei que se conversasse com a minha irmã talvez a conseguisse convencer a vir cá passar o Natal, assim não seria algo muito diferente dos teus Natais no Algarve. - disse radiante e extremamente orgulhosa da sua ideia.

Olhei para a Tânia e via baixar a cabeça. Não consigo compreender o quão dissimulada esta pessoa possa ser.

Acabei por me sentar no colo do Henrique que não tirava os olhos de mim. Perguntou-me várias vezes se estava bem, ao que eu sempre respondi que sim apesar de ambos sabermos que não era completamente verdade.

Ouvimos todas as conversas serem postas em dia, o Afonso começou a trabalhar num hotel perto da praia da Rocha e o Tiago já sabia que curso queria tirar quando fosse para a faculdade.

Fiquei feliz por não me terem mencionado na conversa por uma única vez até que a campainha toca. Contei novamente as pessoas que estavam na sala e de facto só estávamos nove.

- Deve ser o nosso último convidado. - disse Melany levantando-se para abrir a porta.

A cereja no topo do bolo tinha acabado de entrar com uma garrafa de vinho nas mãos e dois presentes.

- Vejam se não é o Daniel! - exclamou David com saudades do amigo que por acaso tem um caso com a sua mulher. - Bons olhos te vejam!

- Boa noite. - disse ao entrar na sala de estar.

Olhei para o meu pai desconfortável e em seguida voltei o meu olhar para a Tânia que estava sentada ao lado do marido e dos filhos. Nenhum dos dois conseguiu disfarçar o constrangimento da situação, talvez pelo medo de que eu dissesse alguma coisa, contudo, eu não sei se tenho coragem de estragar a noite de Natal.

Passado uma hora o jantar já estava pronto e servido na mesa. À cabeceira estava Jorge com Melany a seu lado seguida pelo Henrique, por mim e pela Anica que já parecia mais animada. Estou ansiosa por saber qual foi a resposta do António. Do outro lado tínhamos o David, Tânia, Tiago, que ficou à minha frente, e Afonso e na outra cabeceira estava o meu pai. Melany já tinha tudo esquematizado na sua cabeça.

- Bem, bom apetite a todos! - disse Jorge servindo-se.

Assim que coloco a primeira garfada de bacalhau com natas à boca a campainha soa novamente.

- Mas quem será agora!? - indagou Henrique chateado. Será mais alguma surpresa inesperada?

- Não sei, vai lá ver querido. - respondeu Melany.

E assim ele fez. Levantou-se rapidamente e foi até à porta.

- Então o que se passa?

- Nada, esqueci-me de trazer algumas prendas e aproveitei agora para as trazer antes da... pai!?

Vi a cara da minha irmã empalidecer rapidamente à medida que as prendas lhe caiam das mãos.

- Mas o que é que se passa aqui!? Está tudo doido? Alice como é que és capaz de estar aqui!? - gritava ela desesperada.

O Vasco, que tinha ficado à porta, acabou por entrar também para acalmar a namorada.

- Inês tem calma, hoje não. - supliquei.

- Calma, mas como é que me podes pedir para ter calma quando estes dois estão aqui sentados à mesa como se nada fosse!?

Tanto Tânia como o meu pai expressavam o pânico. Não havia nada a fazer, a Inês iria contar tudo, e, por muito que eu não tivesse coragem para o fazer invejava quem a tivesse.

- Inês não estou a perceber nada! - exclamava a mãe do Henrique preocupada com toda aquela gritaria na noite de Natal.

- Ótimo, então eu passo a explicar! - começou firmemente.

- Inês filha não faças isso! - implorou o meu pai levantando-se num pulo da cadeira branca.

Toda a mesa de jantar estava perplexa e confusa, tirando claro Tânia e o meu pai. O olhar de Tiago e de Afonso percorria toda a sala, desde uma Inês enfurecida até um Daniel em pânico.

O silêncio quebrou-se assim que o Afonso perguntou novamente:

- Mas afinal o que é que se passa Inês!?

- Inês... - disse Tânia.

David olhava para a mulher e lágrimas começaram a rolar pelo seu rosto, acredito que uma ideia do pior já lhe tinha passado pela cabeça. Não é assim tão difícil de perceber.

- Fala Inês! - ordenou ele.

- O meu pai... eles os dois... - soluçava ela. - o meu pai e a Tânia têm um caso.

A mãe do Tiago deixou cair a cabeça sobre as mãos e o meu pai deixou-se ficar em pé, o seu corpo estava petrificado e não saía nem uma palavra de sua boca, confirmando assim a história.

Naquele momento parece que tudo se passava em câmara lenta. Senti os braços do Henrique envolverem-me enquanto uma discussão se gerava rapidamente. Vi David dar um murro ao meu pai, Melany discutia com a irmã gémea e o nome da minha mãe era colocado em vários argumentos. Vi o Tiago e o Afonso sentados na cadeira sem dizerem uma palavra, não valia a pena. Anica continuava colada no telemóvel, não era um assunto que lhe dissesse respeito.

Inês contou toda a verdade, e eu só acenava afirmativamente com a cabeça. Não consigo falar. Senti que isto já tinha acontecido antes, como um déjà-vu e sentei-me no sofá.

A noite de Natal estava arruinada. 

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