Capítulo 96
HENRIQUE
A Inês não tardou muito a chegar e o jantar foi servido logo após termos descido para lhe abrir a porta. Assim que nos sentamos todos à mesa, foi possível perceber o desconforto dos meus pais. Não é muito fácil esquecer o dia em que a Inês se fez passar pela irmã só para conseguir dormir comigo. Contudo, a Anica parece alheia a tudo o que se passa à sua volta, debicando um pouco da sua salada sem sequer abrir a boca para dizer algo desnecessário.
- Então Inês, como está a correr a escola? - perguntou a minha mãe numa tentativa de quebrar o gelo.
- Bem. - respondeu ela.
Bem? Nada de enaltecer o curso de artes que está a tirar, nada de dizer que o que faz é incrível e que um dia poderá vir a fazer uma novela, ou, quem sabe, um filme famoso.
Toquei no braço da Alice e com uma expressão de dúvida perguntei silenciosamente o que se passava com ela.
Compreendo que não tenha gostado de ver o pai enrolado com a melhor amiga da sua falecida mãe, mas da outra vez que isso aconteceu ela não ficou triste, mas sim furiosa.
Alice olhou para mim com um olhar que dizia "depois falamos" e eu assenti com a cabeça e continuei a comer o delicioso frango assado que a minha mãe preparou.
No fim da sobremesa o Vasco ligou para a Inês. Não me lembro da última vez que a vi assim tão triste, aliás, penso que isso nunca sequer aconteceu.
- Vou para casa dele. - ouvi-a dizer à Alice que com um olhar doce concordou com a cabeça. - Ele vem buscar-me daqui a pouco.
Não se passaram nem dez minutos desde que a chamada foi desligada e a buzina do carro do Vasco soou lá fora.
Já no meu quarto, enquanto a Alice vestia uma sweater minha eu perguntei de forma a esclarecer todas as dúvidas que tenho:
- O quê que se passa com a tua irmã?
- Como assim o que se passa com a minha irmã!? Tu já sabes o que aconteceu! - disse num tom aborrecido.
- Sim, mas ela não ficou assim da última vez que vocês descobriram. Se bem me lembro fugiu para a casa do ex-namorado e fez uma birra descomunal para voltar.
- Sim Henrique, mas a diferença, é que agora ela não se lembra de porcaria nenhuma! E aconteceu tudo no mesmo dia...
- Tudo!? Mas tudo o quê?
Ouvi-a contar-me sobre o Enzo ter aparecido no shopping enquanto elas faziam as compras de Natal, mas sobre a minha cabeça pairavam algumas perguntas relacionadas com o rapaz. Nunca percebi bem o motivo pelo qual ele nunca foi ver a Inês ao hospital, o motivo pelo qual eles se separaram de repente.
- Descobri que no dia em que ela foi ter com ele, horas antes do acidente... ela disse-lhe que sempre foi apaixonada por ti e que... - não ouvi mais nada a partir daqui.
Eu sabia que a Inês era um pouco doida da cabeça e sabia também que ela já tinha tido algum tipo de interesse em mim, mas daí a enganar o namorado durante todo aquele tempo, fazendo-o acreditar numa relação que para ela não passava de uma farsa.
- Henrique estás a ouvir-me?
- Anh? Sim, sim ouvi. E se queres que seja sincero em relação a isso, a tua irmã é completamente louca! - exclamei encaminhando-me para a cama.
- A sério!? Depois de eu te dizer que ela está neste estado por não se conseguir lembrar de merda nenhuma tu ainda reages assim!? - vociferou atirando uma almofada para o chão. - Não percebes que ela não tem culpa do acidente que teve? Não percebes que ela está a sofrer caramba!? - lágrimas corriam pelo seu rosto à medida que ela gritava estas palavras. - És assim tão insensível a esse ponto?
- Então e tu anh? E eu? Que tivemos de levar com a merda dos filmes dela... tivemos de nos separar por causa dela... Isso não conta? - perguntei indignado. Não consigo achar normal que ela continue a defender tudo o que a irmã fez só por causa da merda do acidente que, se não acontecesse, as coisas continuariam iguais ou piores até.
- Tu não consegues mesmo compreender...
- Não, se queres saber não, não consigo compreender como podes tentar abafar situações que te magoaram tanto. E que se não fosse o acidente iam...
- Não te atrevas a acabar essa frase! - vociferou e eu calei-me.
A esta altura já todos devem ter ouvido os nossos gritos no andar de baixo.
- Eu não vim para aqui para me chatear contigo. - sussurrou sentando-se na cama um pouco mais calma. - Já estou farta de problemas e a última pessoa com a qual quero ter um és tu.
Aproximei-me dela e encostei a sua cabeça no meu peito enquanto lhe fazia festas no cabelo.
- Eu sei, desculpa. - sussurrei ao seu ouvido.
ALICE
Falta apenas um dia para a véspera de Natal e continuo sem notícias do meu pai. Fui lá a casa esta manhã para fazer a minha mala e trazer algumas coisas de que preciso, mas não estava ninguém, nem mesmo a Rosa.
Liguei para a Inês para saber como está, e ela atendeu num segundo contando-me todos os pormenores de como é viver com o Mr. Allen. No início ele não reagiu muito bem, mas tendo em conta que o Vasco se mudará em breve para um apartamento mais pequeno no centro da cidade e convidou a Inês para ir viver com ele, o homem de cabelos acinzentados e um tanto ao quanto rude acabou por aceitar. A chamada foi desligada assim que ela me disse que passaria pela casa do Henrique antes do jantar para me entregar os presentes que comprou para mim.
São neste preciso momento seis e meia da tarde, a Inês deve estar quase a chegar. De repente, oiço um choro abafado vindo da casa de banho do rés do chão. Corro até lá para ver o que se passa e qual não é o meu espanto quando vejo a Anica ajoelhada em frente à sanita.
- Está tudo bem? - perguntei aflita.
Ela abanou com a cabeça afirmativamente. Mas, no segundo a seguir começou a vomitar.
- Comeste alguma coisa que te fez mal?
- Não, agora sai daqui!
Não acatei o seu pedido e sinceramente não sei porque não o fiz. Ao invés disso, aproximei-me dela e segurei nos seus longos cabelos loiros oxigenado enquanto ela continuava a deitar cá para fora o que não comeu ao almoço. Se bem me lembro, ela passou o tempo todo a olhar para a salada de atum que a Melany lhe preparou mas deixou-a intacta.
Assim que terminou descarregou o autoclismo e sentou-se no tampo da sanita enquanto eu permaneci de joelhos à sua frente.
- Tá já acabou, já podes ir embora! - disse ela com desdém.
- Tu és mesmo insuportável! Sabes que mais, vou chamar a tua tia e ela que te ature.
- Não! - exclamou desesperada agarrando a minha mão. Fiquei um pouco confusa mas voltei a ajoelhar-me. - Não podes contar isto a ninguém Alice.
- Isto o quê? Qual é o mal de...
- O meu período está atrasado. - interrompeu-me.
Olhei para ela boquiaberta e senti o meu coração acelerar.
- Mas isso quer dizer que tu podes...
- Sim Alice, descobriste a pólvora... - revirou os olhos.
- Mas e agora o quê que vais fazer!? - perguntei ignorando o seu mau feitio. - Tu já fizeste o teste?
- Não, óbvio que não! Tenho medo de o fazer e dar positivo... eu não posso ser mãe agora Alice, não posso! - lágrimas corriam pelos seus olhos e as suas mãos puxavam os fios de cabelo loiro pela raiz. - Eu não sei, isto só pode ser um pesadelo.
- Sabes quem é o pai?
- Claro que sei estúpida! Achas que sou o quê!? - uma oferecida pensei. - E para de falar como se eu estivesse mesmo grávida!
- Mas o mais provável é que estejas...
Ela baixou a cabeça e começou a bater na barriga com força.
-Para com isso Anica! Não é assim que vais resolver a situação. - agarrei-lhe as mãos.
- Então é como Alice!? Vá, diz lá, já que és tão esperta.
- Se calhar fazendo um teste de gravidez! - vociferei.
- Não sei se tenho coragem. E se der positivo!?
- Se der positivo, vais com calma falar com o pai do bebé e veem o que é melhor para os dois.
- Ele nunca vai aceitar...
Consegui convencer a Anica a vir comigo à farmácia e comprar um teste de gravidez. O seu estado de ansiedade começa a ser transmitido também para mim.
- É agora. - disse ela com a pequena caixa azul na mão.
- Vai lá. Boa sorte!
Não sei se esta também é considerada como uma das alturas em que não se deve dizer "boa sorte", mas a realidade é que minutos depois, ela sai da casa de banho da farmácia com o rosto vermelho e os olhos marejados.
- Estou grávida. - disse confirmando as minhas suspeitas.
- Tem calma Anica, vai tudo resolver-se.
- Como é que se vai resolver Alice!? Eu tenho dezanove anos, a última coisa que eu quero agora é ter um bebé agarrado a mim e um monte de fraldas sujas para mudar.
Devias ter pensado nisso antes, pensava eu até me aperceber de que não estava a ser totalmente justa com a situação. Já estudei sobre a gravidez na adolescência e sei que, muitas vezes, os métodos contracetivos não são eficazes a cem porcento, portanto, não a posso julgar sem saber o que aconteceu realmente.
- Ele não vai aceitar. - murmurava ela insistentemente enquanto regressávamos a casa.
Se a curiosidade matasse eu já estaria morta e enterrada. Gostava mesmo de saber quem é o rapaz, mas para ela estar tão preocupada não deve ser um bom pretendente ao papel de pai.
Ao chegar à porta Anica diz olhando-me fixamente e apertando a minha mão:
- Tu não podes contar isto a ninguém Alice, a ninguém mesmo! Nem ao Henrique!
- Eu não conto. - prometi várias vezes até ela finalmente abrir a porta.
Adentramos a casa quando o Henrique sai da cozinha. Tem vestido umas calças de fato de treino cinzentas e uma T-shirt da Pull and Bear preta. O seu olhar passa de mim para a Anica e da Anica para mim rapidamente com uma expressão confusa.
- Vocês as duas!? Juntas?
- Ahm... - iniciou a sua prima a medo.
- Foi uma coincidência - continuei, inventando uma desculpa para o facto de estarmos juntas. - eu saí para ir a casa outra vez e, por acaso, quando estava a chegar à porta ela também estava.
Senti a sua respiração acalmar à medida que o Henrique ia acreditando na nossa mentira. Não o devia fazer, eu sei, e detesto, mas eu prometi que não contaria, e pior do que mentir é mesmo quebrar uma promessa, ainda por cima uma como esta.
- A Inês veio cá. - disse-me o meu namorado quando fomos para a sala.
- A sério!? - olhei para o relógio grande da sala, que marcava dezassete e trinta, e suspirei. Não consegui estar com a minha irmã antes do Natal e tudo porque estive com uma das pessoas que mais detesto, ou pelo menos detestava até este final de tarde.
Não conversamos muito, mas o facto de ela estar nesta situação delicada fez-me sentir um pouco de pena e, sei que se ela não fosse tão parva como é, provavelmente poderíamos vir a ser grandes amigas.
Ao jantar olhei para a Anica, que ainda tinha o seu prato com legumes intacto à frente, e sorri de forma a reconfortá-la um pouco, ao que ela retribuiu. Não posso negar o meu choque inicial àquele gesto de bondade súbita por parte da rapariga loira sentada à minha frente, mas fico contente que tenha reagido assim.
Assim que terminei de comer fui à casa de banho para lavar as mãos e retirar o cheiro forte do camarão.
- Alice. - ouvi-a chamar do lado de fora.
Abri a porta e saí.
- O que se passa?
- O pai do meu bebé é o... - olhou para o chão durante uns segundos e quando ganhou coragem recomeçou. - O pai do meu bebé é o António.
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