Capítulo 93
ALICE
Acordei num pulo esta manhã, penso que não dormi sequer três horas. O despertador marca as sete e meia da manhã, contudo não toca. Claro, hoje é sábado, dia de jogo.
Levantei-me da cama e corri para a casa de banho, preciso de tomar um duche. No telemóvel as músicas da Lana del Rey voltam a tocar, como sempre, mas desta vez não consigo prestar-lhes a devida atenção. Desliguei a água do chuveiro e corri para o quarto.
Os dias têm ficado cada vez mais frios, portanto decidi optar por uma camisola preta com o decote em V que comprei na Zara e umas calças de ganga claras. Sequei o cabelo com o secador fazendo com que ficasse ondulado e passei um pouco de maquilhagem da Inês para esconder as marcas de uma noite mal dormida.
Felizmente é fim de semana e a Rosa não vem trabalhar, caso contrário não me deixaria sair de casa sem que antes lhe fizesse o relatório completo de para onde ia e com quem ia.
Calcei as minhas botas até à coxa pretas, peguei nas chaves de casa e saí.
Fico feliz por a casa do Henrique ser praticamente colada à minha. Subi as escadas do alpendre e bati à porta.
- Quem é? - ouvi a voz esganiçada da Anica perguntar atrás da porta segundos depois de ter batido.
- Sou eu a Alice.
Mal a porta de abre, dou de caras com a prima do Henrique vestida apenas com roupa interior preta e um robe de seda branco. Não conseguindo conter a minha expressão de desagrado opto por lhe perguntar:
- A...
- Não o Henrique ainda não acordou querida. Saí do quarto dele agora mesmo e ele estava a dormir que nem um anjo.
- Oh, a sério!? - perguntei com um tom sínico, sem acreditar em um palavra do que ela acaba de dizer. - Mas sabes querida, eu não vim cá para falar com o Henrique. Por isso, escusas de tentar meter veneno sim?. A Melany está!?
- Alice és tu?
Entrei e segui na direção de onde veio o som da voz da mãe do meu namorado, sendo seguida pela árvore de natal despida.
- Anica querida vai te vestir, ainda aparece por aí o Henrique ou o tio Jorge e vê-te assim nessas figuras.
- Sim tia, eu já vou. - respondeu calmamente. Esta miúda consegue ser mesmo falsa.
- Então Alice, o Henrique ainda não deve ter acordado, mas se quiseres podes ir lá acima chamá-lo.
- Na verdade, eu queria falar consigo Melany.
- Comigo!? - pousou a chávena de café em cima da bancada da cozinha e aproximou-se de mim fazendo-me sinal para me sentar na cadeira alta. - Queres comer alguma coisa? Já tomaste o pequeno almoço?
- Aceito uma chávena de café.
As férias de Natal chegaram e os dias aqui em Lisboa ficaram ainda mais cinzentos.
- Mana já sabes o que vais dar ao pai no Natal? - pergunta-me a Inês enquanto nos preparamos para ir ao Colombo comprar os presentes.
- Não sei bem... pensei comprar-lhe uma máquina fotográfica nova.
- Mas ele comprou a dele no ano passado Alice.
- Sim, eu sei. Eu queria comprar-lhe uma Polaroid. No outro dia ao jantar ele comentou que gostava de voltar a ter uma dessas, porque o fazia relembrar a infância. Sei lá, acho que poderia ser uma boa prenda.
- Boa prenda!? É a melhor prenda, aposto que ele vai adorar. Mas agora é que não sei mesmo o que lhe dar... - reclamou baixando os braços em tom de derrota.
- Calma, havemos de pensar em alguma coisa boa! - incentivei.
Vesti as calças de ganga e sobrepu-las à camisola de gola alta cinzenta da Pull and Bear, que comprei nos saldos de Natal com um desconto incrível. Coloquei um cinto preto e calcei as minhas botas até à coxa pretas. Por incrível que pareça, a Inês está exatamente vestida como eu, tal como quando eramos pequenas, com a exceção da camisola que apenas difere na cor, sendo a dela preta.
Quando chegamos ao shopping deparamo-nos com uma multidão de gente.
- Parece que todos tiveram a ideia de vir fazer as compras de Natal hoje... - disse a Inês irritada.
- Tens razão, isto mais parece o final de ano em Nova York.
- Pronto, vamos começar pela loja das fotografias e depois seguimos para os outros presentes!
A senhora da loja onde compramos a máquina fotográfica era bastante simpática. Eu e a Inês acordamos que a prenda seria das duas e, juntamente com a câmara, compramos também uma caixa de cartuxos para que possamos logo tirar fotografias na noite de Natal.
- Próxima paragem!? - perguntou a Inês.
- Podemos ir comprar aquela camisola que queres dar ao Vasco.
- Ótimo!
As pessoas apressadas a correr de loja em loja fazem-me lembrar formigas num formigueiro. Pessoalmente não gosto nada de estar em ambientes cheios de gente. Este stress deixa-me exausta e completamente atordoada.
De repente, enquanto procurávamos a loja onde a Inês quer ir, um rapaz alto, moreno, de cabelo pelos ombros apareceu à nossa frente. Será ele?
Vi-o olhar para a Inês, parecia perdido, triste. Fomo-nos aproximando dele à medida que ele também vinha na nossa direção. A cada passo dado fico com mais certezas de que é mesmo o Enzo.
- Olá Inês... - saudou a medo.
- Hum... Olá?
O Enzo lançou-me um olhar perdido.
Infelizmente a Inês não foi capaz de recuperar todas as memórias que tinha. Para ela, os últimos anos não passam de um borrão de tinta cravada numa folha de papel branco e a sua relação com o Enzo está totalmente coberta por esse borrão.
- Desculpa, nós conhecemo-nos? - perguntou-lhe a Inês. Penso que estão ambos confusos.
- Alice! - exclamou num pedido de ajuda.
- Olá Enzo. Eu não sei bem como dizer isto mas... - a Inês olhava para mim totalmente perdida. - Depois do acidente... ela perdeu grande parte das suas memórias... e como tu desapareceste sem uma explicação...
- Isso quer dizer que ela não se lembra de mim!? - indagou com lágrimas nos olhos.
- Desculpem eu não estou mesmo a perceber nada. - iniciou a minha irmã. - É suposto eu saber quem tu és? É que se é por favor diz-me.
Ponderei deixá-los a conversar enquanto fazia as minhas compras de Natal, mas a Inês não me deixou sair do seu lado. Fomos até à zona de refeições e lá nos sentamos.
- Tu foste meu namorado!? - exclamou num grito.
- Sim, namoramos durante algum tempo, mas tu não gostava de mim, tu queria estar com o Henrique... - diz ainda um pouco perdido, talvez pelo facto de ela não se lembrar de nada.
- Henrique!? O teu Henrique!? - perguntou-me a Inês estupefacta. Assenti com a cabeça.
Não sei se alguma vez pensei que esta conversa algum dia iria chegar, mas, não consigo sentir-me feliz por estar a acontecer. Depois de todos os esforços que fizemos para que ela ficasse bem não é justo ele chegar e fazê-la relembrar-se de tudo, ou pelo menos tentar fazê-lo. A Inês não precisava de ser confrontada com tudo isto. Todos os nossos problemas fazem parte do passado. Agora que estava tudo a correr bem, porquê este reencontro inesperado?
- Tu não te lembras mesmo de nada, pois não!?
- Não, já te disse que não caramba! - Vociferou. - Mas espera... há uma coisa que eu não percebo. Onde é que tu estavas quando eu tive o acidente? Porquê que não vieste ver-me ao hospital? Ou a minha casa?
- No dia do acidente, depois de teres discutido com a tua irmã, vieste ter comigo à pastelaria da minha tia. Vinhas totalmente perdida, só dizias que a querias matar, que ela te tinha roubado a pessoa que amavas. Dizias que ela ia pagar por tudo o que te fez. Estavas completamente possuída Inês. - tanto eu como a minha irmã ouvíamos a história com atenção sem interrupções. - Eu não sabia o que fazer, tu estavas a assustar os clientes e eu só pensei em retirar-te da sala principal. Lá fora, tu só falavas no Henrique e de como o amavas, eu fiquei paralisado, não sabia o que pensar, o que te dizer. A única coisa que eu queria fazer era sair dali e nunca mais te ver à minha frente... foi o que eu fiz. Gritei contigo, chamei-te de todos os nomes e mais alguns, disse que te odiava por tudo aquilo que me estavas a fazer passar. Depois disso tu saíste a correr e eu não soube mais nada de ti.
- Eu tentei ligar-te. - interrompi. Preciso de defender a minha irmã. Por muitos erros que ela tenha cometido, ela continua a ser minha irmã.
- Sim, eu sei. Recusei todas as chamadas da Alice porque queria esquecer-te, queria que desaparecesses dos meus pensamentos de uma vez por todas, mas nunca consegui.
- Desculpa, eu não sei mesmo o que dizer... - disse a Inês.
- Eu percebo. Quando soube do acidente já era tarde de mais, foi aquele vosso amigo o Tiago e o irmão que me contaram. Eu só queria que ficasse tudo bem entre nós...
- Como é que podes dizer isso depois de tudo o que eu te fiz!? - vociferou a Inês. - Eu fui uma cabra contigo, enganei-te e ainda por cima disse-te que gostava do namorado da minha irmã, a ti que eras meu namorado... sem escrúpulos, sem piedade. Oh meu Deus! Alice desculpa! - implorou.
Eu já a desculpei. No momento em que a vi deitada naquela cama de hospital desculpei todos os erros que cometeu para comigo.
- Apesar de tudo o que me fizeste eu nunca fui capaz de te esquecer, nunca fui capaz de parar de pensar em ti... Mas claro que não posso chegar aqui, contar-te tudo isto e pedir-te para que mudes toda a tua vida por um estranho... Só quero que saibas que independentemente de tudo, podes contar comigo para o que precisares.
O Enzo despediu-se de nós assim que a conversa terminou e deixou o número de telemóvel dele à minha irmã.
Depois de tudo não fui capaz de abrir a boca, não sabia o que lhe dizer. Perguntei-lhe apenas se queria ir embora, mas ela negou com a cabeça e acabamos por comprar os presentes de Natal na mesma.
- O que vais comprar para o Henrique?
- Eu não sei... Gostava que fosse algo especial, mas não consigo lembrar-me de nada.
De repente o meu telemóvel toca:
"Melany".