Capítulo 92
HENRIQUE
Não consigo retirar este sorriso parvo do rosto enquanto volto para casa. Durante estes dez dias não consegui sorrir, andava sempre de cara trancada e sei que agi mal com algumas pessoas que não mereciam, contudo não vou desculpar-me por estar mal. Estar sem a Alice foi como passar uma estadia no inferno e voltar à terra assim que ela sorriu para mim e disse que me amava.
Ao entrar em casa, o corpo extasiado da minha mãe corre até mim.
- Henrique o Daniel acabou de ligar... - ainda não consegui entender qual é a necessidade que estes dois têm de se comunicar pelo telefone fixo quando vivem literalmente colados um ao outro. - Já estão bem!? - A sua expressão radiante faz-me sentir vontade de brincar um pouco com ela.
- Eu e o Daniel? - troço. - Nah, nós nunca nos vamos dar bem.
- Não parvo! Tu e a Alice...
- Sim mãe, já está tudo resolvido finalmente! - sorrio e ela suspira aliviada felicitando-me com um abraço extremamente apertado.
- Quem é que está bem? - ouvi a voz da Anica perguntar.
Assim que levantei um pouco o rosto, por cima do ombro da minha mãe, de modo a conseguir observar quem se juntou a nós no hall de entrada, vi a figura da loira oxigenada embrulhada num robe de banho com uma toalha na cabeça. Nesse momento veio-me à cabeça a voz da Alice a tratá-la por esta alcunha que eu acho que lhe assenta na perfeição.
- O teu primo e a Alice. Finalmente entenderam-se! - revelou a minha mãe soltando-se do meu abraço e esboçando um enorme sorriso de felicidade.
- Ah, a sério!? - Consigo sentir a ironia ser libertada por cara poro do seu corpo à medida que expressa aquelas palavras acompanhadas de um olhar de desprezo.
Torço silenciosamente para que não faça nenhum comentário sobre o que aconteceu hoje mais cedo. Um dos momentos mais constrangedores da minha vida.
Passei o tempo todo a imaginar a Alice em cima de mim. Não era o toque da Anica que eu sentia, mas sim o da Alice, pelo menos era isso que eu pensava sempre que entrava e saia do seu corpo, sempre que ela beijava o meu pescoço e percorria o meu corpo com a língua era a da Alice que eu sentia. Mas ela não me agarrava os cabelos, não me arranhava as costas, não me mordia o pescoço no fim de plantar um beijo molhado nele.
Demorei poucos minutos a vir-me, não por ter sido bom, mas sim porque não precisei de me preocupar com quem o estava a fazer. Gritei o nome da Alice enquanto derramava o líquido quente no preservativo, era a ela que eu queria, nunca foi a Anica.
Foi um erro, um erro horrível que me pode custar o meu relacionamento e eu não posso perdê-la novamente. Portanto, é bom que a Anica mantenha aquela boca calada e não me arranje mais problemas.
- Que bom que se revolveram priminho, parece que já não precisas mais de mim! - insinuou dirigindo-se ao seu quarto.
Revirei os olhos e encolhi os ombros deixando a minha mãe com um beijo no rosto e indo para o meu quarto.
No fim de tomar um duche e vestir uns boxers pretos com uma t-shirt de pijama, sentei-me na secretária para ver alguns episódios da séria que a Alice me falou esta tarde. Acabei por perceber que uma das personagens principais é uma cópia da Alice, não tão bonita como ela claro, mas tem bastantes semelhanças, como o facto de ser extremamente preocupada com o oceano e com a vida marinha. Já eu sou totalmente o oposto do John B, contudo, não precisei de ir aos Outer Banks da Carolina do Norte para encontrar a minha Sarah Cameron.
Olho várias vezes pela janela do meu quarto na esperança de a ver, contudo, as luzes continuam desligadas e nem um sinal dela.
De repente, o meu telemóvel toca:
"Olha para cima!"
Num ato voluntário ergo o olhar até ao terraço de sua casa e ela está ela. Com um sorriso acena-me e eu retribuo o gesto.
Nunca pensei que isto pudesse vir a acontecer. Apaixonar-me de novo, mas desta vez por uma pessoa com bom coração, e conseguir fazer todas estas coisas românticas que só parecem existir nos filmes melosos que a Alice gosta de ver. Talvez esses filmes tenham o seu toque de verdade por entre todas as outras cenas que à partida parecem impossíveis.
Fiquei a vê-la pintar durante algum tempo até que uma mão cobriu o seu ombro. Um sentimento de raiva envolve todo o meu corpo e num impulso dou um murro na mesa.
O Tiago senta-se ao lado dela e começam uma conversa. Tento convencer-me a mim mesmo de que é só uma conversa de circunstância e de que não se vai passar mais nada para além disso mesmo, porém, não consigo tirar da cabeça a ideia de que algo mais pode acontecer assim que eu deixar de os ver.
Sei que não posso agir como um namorado ciumento ou como um animal e ir a correr até casa da Alice para partir a boca ao meu primo, mas era isso que me apetecia fazer neste preciso momento. Não Henrique, não pode estragar o que acabaste de reconstruir.
Peguei no telemóvel, que caiu ao chão depois do murro que dei na secretária e digitei uma mensagem para a minha namorada dizendo:
"Talvez seja melhor ires deitar-te, já é tarde e tu precisas de descansar!"
Enviado.
Fi-lo por uma questão de preocupação, não por estar com ciúmes. Bom talvez tenha um pingo de ciúmes pelo meio, mas o principal motivo foi mesmo a preocupação. Não foi?
Via pegar no telemóvel e ler a mensagem, no final, olhou para mim com um ar de reprovação. Não percebo porque agiu assim, mas, espero bem que ela faça o que eu lhe disse e que saia do pé daquele tanso do meu primo.
Desligo o computador à meia noite e meia. Felizmente a Alice foi deitar-se quando eu lhe pedi e o Tiago deixou o terraço ao mesmo tempo que ela, espero é que tenham seguido para quartos separados e, de preferência, sem qualquer tipo de caricias de boa noite.
Levanto-me e vou em direção à cama para me deitar quando batem à porta:
- Sim?
- Então Henrique... - iniciou a Anica ao entrar no quarto. - ... não foi suficiente o que te dei hoje? Precisaste de ir logo a correr ter com aquele pãozinho sem sal da Alice?
- Epah Anica, sinceramente não estou com paciência para aturar as tuas merdas! Sabes perfeitamente que eu não quero nada contigo! - exclamo enquanto abro a cama e me sento nela. - Aliás, tudo o que aconteceu hoje foi um erro e não vai voltar a acontecer!
- Pensei que gostavas de cometer erros comigo... - insinuou e sentou-se aos pés da minha cama, inclinando um pouco o seu peito para que eu pudesse ver o grande decote do seu sutiã de renda preta.
- Pensaste mal! - vociferei. - Agora baza daqui que eu quero dormir. - Apontei para a porta de modo a que ela perceba e saia do meu quarto rapidamente.
- Tu é que perdes priminho! - exclamou levantando-se lentamente. - Fica lá com a tua namoradinha do infantário... quando me quiseres, já não me vais ter.
- Enganas-te Anica! Para além do facto de que eu nunca te irei querer, eu sei que tu vais estar sempre na minha mão. Ah, e basta eu estalar os dedos para te ter aqui ajoelhada à minha frente a chupar-me o pau. O teu problema é que eu não te quero não é... priminha!? - Depois da afirmação que eu acabei de fazer a Anica virou costas e saiu disparada do quarto, fechando a porta com força.
Talvez não devesse ter dito o que acabei de dizer, mas sei que não foi nenhuma mentira e esta gaja tem de aprender a colocar-se no lugar dela, que de certeza não é em cima de mim.
Desde que a conheci, penso que por volta dos meus dez anos, a Anica sempre teve alguma queda por mim. Por isso, e desde que a puberdade chegou e a condecorou com um excelente corpo, posso afirmar que também me sentia bastante atraído por ela, contudo, a atração física não vale de nada quando a pessoa é totalmente oca e fútil por dentro. A Anica é tudo aquilo que eu odeio numa rapariga e eu nunca, mas mesmo nunca mais serei capaz de me relacionar com alguém assim, principalmente depois de encontrar a rapariga que espero ser o amor da minha vida.
ALICE
Passaram-se alguns dias desde que voltei para a escola. Sinto que finalmente a minha vida voltou ao normal e eu não me importo nada de estar de volta à velha rotina diária das aulas, aliás, prefiro mil vezes isso a ter de ficar fechada em casa, sentada na minha cama, o dia todo.
O Tiago voltou para o Algarve no domingo passado, e por muito que eu gostasse da sua companhia, ele começou a ser demasiado aborrecido e estava sempre a interromper os meus momentos com o Henrique fazendo com que o meu namorado ficasse furioso. Não o culpo, pois, até eu própria estava a começar a ficar irritada com a situação. Contudo, fiquei bastante orgulhosa com o Henrique por se ter controlado, e eu sei o quanto isso lhe custa, e não ter causado nenhuma situação menos boa com o primo.
Em relação ao Filipe, tem sido tudo bastante estranho. Assim que voltei para as aulas ele nunca mais se aproximou de mim, mal me fala e, até mesmo, quando tendo algum tipo de contacto visual com ele, ele baixa a cara ou vira o olhar para outro lado. Não sei o que se passa. Será que fiz algo de errado? Será que tem a ver com o beijo que lhe dei? Terei sido mal interpretada e aquilo que o Henrique pensa é mesmo verdade? Não deve ser... Mas e se for? Tenho de conseguir falar com ele para descobrir.
Hoje é sexta feira, e eu estou mortinha por chegar a casa e deitar-me na cama a ver a nova temporada da minha série favorita. Amanhã o Henrique tem jogo de futebol, mas não foi convocado para titular por causa do que aconteceu no último jogo, como já seria de esperar.
Oiço o Mr. Allen debitar a matéria até o toque da campainha suar, mas nos últimos minutos da aula, só conseguia pensar no que seria se algo voltasse a acontecer e eu e o Henrique nos separássemos novamente.
- Ahahahahah, então Alice morreste!? - troçou a Mafalda enquanto se mantinha em pé ao lado da minha secretária.
- O quê que queres!? - vociferei.
- Olha olha, Ahahahah, calma lá fofinha. Só te queria avisar que já tocou e já podes arrumar as tuas tralhas e ir embora. - disse num tom de repulsa e foi em direção à porta. - Credo parecia uma múmia a olhar para o caderno. Aquela rapariga não é boa da cabeça, oiçam o que eu vos digo! - afirmou para o grupo de amigas.
Arrumei as minhas coisas rapidamente e fui até ao corredor onde já tinha o meu namorado à minha espera.
- Então? Demoraste. Já estás pronta!? - perguntou.
- Sim. Desculpa. - respondi, elevando-me em bicos de pés e deixando-lhe um beijo na boca. - Vamos?
- Sim!
- Espera, a Anica? - indaguei sem querer saber realmente a resposta.
-Disse que ia com o António. Não perguntes onde, porque eu também não sei e, sinceramente, não quero saber! - rimo-nos em conjunto por termos pensado o mesmo e seguimos pelo corredor de mãos dadas.
É bom andar assim pela escola, não pelo facto de as pessoas estarem constantemente a olhar para nós, pois o Henrique é bastante conhecido e tudo o que ele faz passa a ser notícia aqui. O que eu gosto mesmo é do facto de que ele não tem vergonha de andar comigo de mãos dadas, aliás, parece que ele tem mesmo orgulho nisso, de me mostrar, de fazer com que eu sinta que ele não se importa de ser visto comigo, com uma rapariga mais nova.
Entramos no carro e nem mesmo o volume da música conseguiu abstrair-me dos meus pensamentos. O facto de ele ter jogo amanhã, fez-me pensar na proposta de Londres e de como ele queria muito ir. A culpa foi minha, ele não vai seguir o seu sonho porque eu estraguei tudo ao beijar o Filipe. Se eu não tivesse dado ouvidos às provocações da Anica e tivesse falado com ele em vez de disparatar e ter colocado uma pessoa inocente ao barulho nada disto tinha acontecido e provavelmente ele estaria a esta hora a assinar os papeis para ir para Inglaterra.
- Está tudo bem babe? - perguntou colocando a mão na minha perna. Adoro quando ele o faz, mas neste momento não consigo responder-lhe com a verdade.
- Sim, estou só um pouco cansada.
- Cansada? Mas tens a certeza de que estás mesmo bem!?
- Sim Henrique calma! - exclamei. - Ainda me estou a adaptar aos medicamentos e infelizmente eles dão um pouco de sonolência.
- Ah bom. Então vá, podes sair, já chegamos!
Olhei pela janela e vi a minha casa. Não me tinha apercebido de que já estávamos no condomínio, acho que não prestei atenção ao caminho sequer.
- Obrigada amor.
- Vai descansar princesa! Até amanhã.
- Até amanhã. - deixei-o com um beijo nos lábios e saí do carro.
Depois de jantar e tomar um banho voltei para o quarto. O assunto de Londres não me sai da cabeça, sinto que tenho de fazer alguma coisa em relação a isso, só não sei o que fazer, mas não vou desistir até encontrar uma solução.