Capítulo 91

HENRIQUE

Tê-la de novo nos meus braços enquanto me acaricia o cabelo, como só ela sabe fazer, é uma sensação inexplicável. Durante estes dez dias pensei que isso poderia não voltar a acontecer e, sinceramente, fiquei apavorado com a ideia de nunca mais poder estar perto dela.

-Não podemos continuar assim Alice, isto não nos faz bem. - sussurrei no seu cabelo castanho caramelo ondulado. Não é normal estar assim, ela tem por hábito esticá-lo de manhã, mas, pessoalmente eu adoro vê-la com ele encaracolado.

- Eu sei. - afirmou.

- O quê que o Tiago está cá a fazer? - perguntei, retirando-me do seu colo e voltando a sentar-me a seu lado. Não gostei nada de ver aquele gajo por cá. Sei perfeitamente que a Alice já não sente nada por ele, mas, de qualquer forma, ele consegue irritar-me muito facilmente e eu não quero que isso aconteça enquanto estou com ela. Estou a tentar ser uma melhor pessoa.

- Ele veio ver-me. Acho que o meu pai voltou a falar com a Tânia e pelos vistos contou-lhe sobre o ataque.

- Mas ele não disse nada à minha mãe porquê!?

- Ele disse. Mas a tua mãe disse que já tinham a tua querida prima em casa e que não dava para ele ficar lá. - ela parece chateada, detesto quando falo com ironia.

- Então onde é que ele vai ficar!? - perguntei com medo da sua resposta. Será que ele vai ficar cá? Não pode ficar. Não consigo perceber porquê que a minha mãe não o deixou ficar no meu quarto. Okay, se calhar percebo.

- Aqui claro! - exclamou. - Vai ficar no quarto de hóspedes.

Detesto a ideia e posso afirmar que fiquei furioso com o facto de ter o ex namorado da Alice a vaguear pela casa dela como de certeza que acontecia antigamente. Não consigo aceitar o facto de que eles já estiveram juntos, de que ele já a fez feliz e possivelmente faria se ela o deixasse aproximar-se mais. Tenho medo de não conseguir fazê-la feliz, mas tenho ainda mais medo de a perder e, por isso, não posso fazer nada para que isso aconteça, chega de mentiras e omissões.

- Não vai acontecer nada Henrique, eu só te quero a ti. - afirmou respondendo aos meus pensamentos.

Passamos o resto da tarde abraçados a ver um filme escolhido pela Alice. Os géneros de comédia e romance são os seus favoritos e eu dei por mim a divertir-me imenso a vê-los com ela.

Depois do Augustus Waters morrer e da Hazel Grace ler o memorial deixado por ele para o dia em que ela morresse, a Alice não conseguia aguentar as lágrimas. Acho imensa piada ao facto de ela ser extremamente emocional, parece tão frágil, tão delicada. Dou por mim a sorrir enquanto a observo limpar as gotas que lhe caiem pelo rosto.

- Ficas para jantar!? - pergunta-me quando ouvimos a porta da entrada bater. A Inês chegou há uns minutos atrás, portanto, deve ser o Daniel.

- Eu gostava. - sinto as minhas bochechas corarem, espero que ela não note.

A porta abriu-se atrás de nós e o Daniel entrou no quarto. Parece surpreendido. Espero que se volte a habituar à ideia de me ter por cá, porque é o que vai acontecer.

- Então querida como é que estás? - perguntou-lhe enquanto corria o olhar pelos dois.

- Estou bem. Já posso descer para jantar com vocês hoje.

- Não sei se é boa ideia querida, ainda precisas de descansar.

- Eu já estou melhor pai. Daqui a pouco já não sei andar. - Ela deve sentir-se presa, mas, desta vez, consigo concordar com o pai dela. A Alice não pode fazer esforços e muito menos stressar-se, caso contrário pode voltar a sofrer um ataque.

- Não sei filha...

- Eu posso levá-la ao colo. - interrompi - Assim ela não precisa de descer as escadas e não se cansa...

- Não é preciso, eu consigo ir sozinha! - vociferou indignada. - Vocês tratam-me como uma impotente e eu já estou ótima! - atirou chateada. Até chateada fica querida.

- Babe não é por mal, eu é que gosto de te ter no meu colo. Anda lá, tenho saudades tuas! - tento convencê-la. Reparo que o Daniel franze as sobrancelhas depois do que eu disse, mas não quero saber.

- Não me tentes tratar como uma criança Henrique Pereira! - atira apontando-me o indicador ao nariz.

Não consigo decifrar se o pai da Alice está contente ou confuso com o facto de termos reatado o namoro. Ele permanece em pé junto à porta. Começamos a rir-nos até que ela finalmente aceitou que eu a levasse ao colo até à cozinha.

Ao jantar a Inês fez questão de me insultar por não ter estado presente para a sua irmã quando ela mais precisou, e ouvir isso é como ter uma faca a espetar-me no peito vezes e vezes sem conta. Contudo, foi capaz de dizer que a Alice parecia muito melhor agora e com isso eu fico muito mais feliz.

- Alguma foto de hoje pai? - perguntou a minha namorada enquanto colocava uma garfada de arroz branco na boca.

- Não querida. Hoje retirei as amígdalas a um menino de cinco anos, uma operação simples. - eles têm hábitos muito estranhos na família.

Depois de tudo o que aconteceu com a Inês, sinto que o Daniel finalmente percebeu a falta que faz e o quão importante é um papel de um pai, principalmente quando a mãe já não pode estar presente.

O Daniel ia falando com o Tiago ao longo do jantar, ou pelo menos tentava fazê-lo, pois a Inês não se calava com as cenas da escola de artes. Fico a pensar se gostava que ele falasse comigo da mesma forma que fala com o meu primo. Gostaria?

A Alice e eu fomos trocando olhares e sorrisos cúmplices. Tinha imensas saudades destes momentos. Consigo imaginar-nos daqui a uns tempos numa casa nossa, no fim de um dia de trabalho, a jantar numa grande sala de jantar, demasiado grande para apenas duas pessoas. A Alice prepararia o jantar enquanto eu punha a mesa e a observava a cozinhar...

- Terra chama Henriqueeee! - Está tudo bem!? - perguntam as gémeas abanando as mãos em frente à minha cara.

- Anh? Sim sim! Todos se riram.

- Pela terceira vez... queres café Henrique? - perguntou o Daniel a rir-se de mim. Não gosto de ser gozado, mas acredito que eu devia estar a figura de parvo.

- Sim quero.

No final da noite a Alice acompanhou-me à porta:

- Espero bem que aquele gajo não faça nada de que se possa vir a arrepender! - atirei de modo convincente.

- Ahahahah. És tão parvo!

- Sou parvo sou. Pensas que eu não sei como é que aquele gajo é!? - não quero bater-lhe, mas se ele se fizer à minha namorada eu não penso duas vezes. Não seria a primeira vez de qualquer das formas.

- Tens de confiar em mim... - respondeu, colocando as mãos nas minhas bochechas esmagando-as.

- E eu confio, não confio é naquela amostra de gajo. - tento responder enquanto as suas mãos envolvem o meu rosto.

- Vá vá, vai lá embora. Até amanhã!

- Até amanhã babe! - repeti ao descer as escadas depois de lhe deixar um beijo na boca.

- Henrique! - chamou-me quando eu já ia a meio do jardim.

- Sim?

- Amo-te!

- Também te amo!

Continuei o caminho até casa. 

Todos os direitos reservados 2019
Desenvolvido por Webnode
Crie o seu site grátis! Este site foi criado com a Webnode. Crie o seu gratuitamente agora! Comece agora