Capítulo 90
ALICE
Os olhos arregalados do Henrique assim que viram o Filipe entrar no meu quarto trouxeram-me recordações do dia em que me senti mal. O meu batimento cardíaco começou a acelerar novamente e eu tenho de me acalmar.
- Vim trazer os resumos para a Alice. - respondeu o Filipe aproximando-se de mim sem mostrar qualquer tipo de medo. Não sei se isso será bom ou mau.
- Resumos!? E vens trazer resumos todos os dias!? - vociferou o Henrique.
- Qual é o teu problema meu!? - eles vão mesmo começar a discutir agora? - Não estavas lá para ela quando ela precisou de ti! Ela podia ter morrido e tu não quiseste saber.
- Cala-te! Eu sei bem o que fiz e porque fiz! Não sei se te lembras, mas momentos antes estavas a beijar a minha namorada seu filho da mãe!
- Ex namorada!
O Henrique e o Filipe estão a centímetros um do outro e eu não estou preparada para ver outra briga entre o Henrique e outro rapaz qualquer, principalmente o Filipe, que tem sido um querido para mim. Não consigo ver o rapaz que amo magoar pessoas inocentes, tudo por orgulho, ou por ciúme, ou seja lá pelo que for que ele sinta. Preciso de falar, dizer alguma coisa antes que eles iniciem uma briga desnecessária.
- Estou a avisar-te para estares calado meu! Acredita que estou a um triz de te partir esse focinho! - exclamou o Henrique.
- Parem! Parem os dois, já chega! - Ambos olharam para mim como se finalmente se tivessem apercebido de que eu também estava no quarto.
- Desculpa Alice! Tens razão, tu não te podes enervar e nós só estamos a dificultar-te a vida.
- Ai desculpa Alice... - debochou o Henrique. - Fazes-te de preocupadinho para te aproximares dela... também conheço esse truque sabes? É muito normal em gajos como tu!
- Henrique, por favor para! Ou preferes que te mande embora daqui!? - profiro num tom calmo mas ao mesmo tempo ameaçador, de modo a que ele perceba que eu estou mesmo a falar a sério quanto a expulsá-lo de minha casa. Apesar de preferir que ele fique, não posso permitir mais confusões.
- Não Alice, não faças isso, nós precisamos de falar! - implorou.
O Filipe aproximou-se de mim na cama enquanto o Henrique continuava em pé aos meus pés.
- Tens a certeza de que queres ficar a falar com ele Alice?... depois de tudo o que ele te fez... - sussurrou ao meu ouvido.
Acenei afirmativamente com a cabeça. Os olhos do Henrique pareciam flechas atiradas ao corpo do rapaz alto que estava ao meu lado.
- Não sei se devo deixar-te sozinha com ele princesa... e se tens outro ataque?
- Ela não vai ter outro ataque coisa nenhuma! E para de lhe chamar de princesa! Agora mete a merda dos resumos da secretária e desaparece daqui!
- Se tu lhe fazes algum mal eu juro que venho e te...
- Fazes o quê!? Anh? - Eles voltaram a aproximar-se um do outro e eu começo a temer pelo Filipe.
- Tu não a mereces! Só a magoas, só fazes porcaria!
- E tu mereces!? É isso que tu queres não é!? Ficar com a minha namorada.
Num impulso ergui o meu corpo ainda mais sobre a cama e gritei o mais alto que consegui:
- Parem os dois! Vai-te embora!
- Mas Alice, eu só queria falar contigo! Nós... - iniciou o Henrique paralisado com o meu estado.
- Não a ouviste!? Vai-te embora! - repetiu o Filipe.
- Filipe eu quero que saias. - afirmei num tom um pouco mais baixo enquanto um suspiro perdido saída do meu corpo. Preciso de ter esta conversa com o Henrique, não importa o que irá ser dito, mas nós precisamos disto. Eu devo-lhe isso.
Vi um sorriso esboçado no rosto do rapaz que amo e uma expressão confusa no rosto do meu amigo. Não quero ser má, não depois de tudo o que o Filipe fez por mim, mas é o melhor.
- Não a ouviste!? Vai-te embora! - exclamou o Henrique repetindo exatamente as palavras proferidas à segundos pelo rapaz alto de calças de ganga escuras e de t-shirt branca.
A sua cara de descontentamento enquanto saía do quarto foi notória. O Henrique sentou-se novamente aos pés da minha cama e agarrou as minhas mãos:
- Por favor perdoa-me não ter estado presente. Perdoa-me não ter voltado para trás para te ajudar. Perdoa-me ter ficado tantos dias sem te ter vindo visitar, sem falar contigo. Perdoa-me!
- Henrique eu... - Ele calou-se e ficou à espera que eu continua-se a frase. A sua face está vermelha e os seus olhos começam a ficar raiados de sangue. Ele irá começar a chorar? - eu não devia tê-lo beijado. Fi-lo de propósito porque sabia que te iria magoar e, naquele momento, era tudo o que eu queria. Depois do que ela me contou, da expressão de felicidade dela quando disse que ia contigo, que já estava tudo tratado, que iam ser felizes... - suspirei - eu não consegui pensar em nada, queria bater-lhe, bater-te a ti por não me teres contado nada, fugir de lá, desaparecer para outra cidade, qualquer coisa que me fizesse esquecer-te, e ele estava lá...
- Estás a falar do quê Alice? - ele parece confuso. - O quê que ela te contou!?
- Não finjas que não sabes do que eu estou a falar.
- Mas eu não sei mesmo babe... Alice. - preferia que ele não se tivesse corrigido.
- Ela contou-me que vocês os dois vão para Londres... é mentira isso!? - atirei.
- O quê!? Cabra! - levantou-se da cama enquanto puxava a raiz do seu cabelo encaracolado de que eu tanto gosto - ... Mas claro como é que eu não percebi logo...
- Responde-me Henrique! É mentira sim ou não?
- Não, quer dizer, agora é... como é que ela foi capaz? - ele começa a andar de um lado para o outro do quarto deixando-me um pouco tonta e sem perceber rigorosamente nada. Parece nervoso, mas, ao mesmo tempo, totalmente furioso.
- Eu não estou a perceber nada! És capaz de parar quieto e explicar-me o que quiseste dizer com "agora é".
- Ela não tinha o direito de te contar nada! Não devia ter contado! - vociferou.
- Ah, então isso quer dizer que eu nunca iria saber que tu te vais embora ...simplesmente partias assim, sem mais nem menos, sem uma explicação para me dar...
- Não, não porra não é nada disso!
- Então o que é Henrique!? Explica-me!
- Eu fui convidado para ir jogar para uma equipa de Londres, tinha escola e estadia paga pelo clube, estava tudo tratado. Mas eu não tinha aceitado nada quando ela te contou. Eu não sabia o que fazer, por um lado a oportunidade de ir jogar para Londres era incrível, mas, por outro, deixar-te aqui era uma coisa que eu não conseguia sequer pensar. Não te contei até esse dia porque sabia perfeitamente o que tu me ias dizer. Sabia que me ias dizer para eu ir e isso provavelmente ia resultar na nossa separação...
- Não, claro que não! - exclamei. Não sei o que pensar de tudo isto, mas não acabaria com ele. Acabaria?
- Alice tu e o meu primo acabaram e só estavam a três horas de distância. Tu preferiste acabar tudo com ele do que manter aquela relação. Londres não é já aqui, e por muito dinheiro que tenhas não ias andar sempre lá e cá, isso não é vida para ninguém. - suspirei. Ele tem razão. Provavelmente eu acabaria com ele, mas porque sou insegura, porque não quero que ele se sinta preso cá, porque quero que viva a vida dele sem ter o meu peso às costas. - Eu tinha medo de que fizesses o mesmo comigo, que me deixasses. Adiei a resposta até esse dia, até ao dia em que te vi a...
- Sim eu percebi. - interrompi. Não quero recordar esse momento novamente.
- Pronto.
- Mas como é que ela sabia? Contaste-lhe? - não gosto que ele tenha mais confiança com a prima do que comigo, eu é que sou a sua namorada, bem ex namorada, mas nós nunca chegamos a acabar mesmo, não interessa. Não gosto daquela cabra oxigenada.
- Ela ouviu uma conversa entre mim e a minha mãe. Mas o quê que ela te contou para além da proposta?
- Ela não disse que se tratava de uma proposta. Disse que já a tinhas aceitado e que ias viver com ela para Londres, e disse que... - começo a ficar irritada só de me lembrar do momento na casa de banho da escola.
- Disse o quê Alice!?
- Disse que iam ficar juntos, vocês os dois...
- O quê!? Não! Claro que não, que nojo, não!
- Mas tu aceitas-te a proposta. - não sei se fico feliz por ele ter negado que ficaria com ela, ou triste por ele ter aceitado ir para Londres.
- Aceitei. Depois de te ver a beijar o caralho do Filipe aceitei. Senti que te tinha perdido para sempre. Não tinha percebido porquê que estavas chateada comigo e depois de ver aquilo... Sei lá Alice passou-me tudo pela cabeça. Pensei que gostavas dele, que ele era bom para ti, que ele não te magoava como eu magoo... Eu só queria sair daqui e desaparecer, por isso, liguei para o meu treinador e disse que aceitava a proposta. Mas já não vou para Londres...
- Não vais!? - perguntei empolgada. Não devia ter ficado tão contente, é o futuro dele como jogador que está em causa, mas não consegui evitar.
- Não. - sorriu. - Fiz merda no último jogo e o olheiro que estava lá para me ver mudou de ideias quanto a ter um jogador violento na equipa...
- Jogador violento? O quê que fizeste Henrique!?
- Andei à porrada com um gajo a meio do jogo.
- Quem!?
- Com o Filipe...
- O quê!? Henrique mas... porquê!? - ele pôs o seu futuro todo em causa por andar à porrada.
- Porque, de todas as vezes que eu olhava para aquela cara de camelo que ele tem, me lembrava de vocês os dois. - suspirou. Ele está a ser sincero, eu sei que está e isso é o mais importante.
Não foi ele que errou, fui eu, e, por muito que me custe a admitir, sou eu quem tem de lhe pedir desculpas.
- Eu peço desculpa. - coloquei a minha mão no rosto dele. - Eu devia ter falado contigo depois do que a Anica me disse, devia ter-te perguntado se era verdade, devia dar-te a oportunidade de te explicares, mas não... agi como uma parva e corri até outro rapaz só para te fazer ciúmes. Fui tão estúpida Henrique. Desculpa-me!
- Desta vez eu não fiz nada de mal Alice.
- Pois não, fui eu que fiz e peço imensa desculpa por isso, estou mesmo arrependida.
- Gostaste?
- Do quê!?
- Do beijo... - ele revirou os olhos.
- Não! Claro que não Henrique. Foi uma coisa parva, não voltou a acontecer.
- Mas ele vem cá todos os dias... ele gosta de ti Alice, foda-se tu não vês isso!?
- Ele vem cá para me trazer os resumos. Só me está a tentar ajudar Henrique... É claro que ele não gosta de mim. - Não fui capaz de abordar esse assunto com o Filipe. Penso que ele percebeu que foi um erro e que nunca deveria ter acontecido. Mas será que o Henrique tem razão? O Filipe gosta de mim?
- Alice eu vejo a forma como ele olha para ti e acredita que não gosto nada!
- Mas o quê que interessa se ele gosta de mim ou não. - continuo sem acreditar que isso seja verdade. Porque haveria de ser? - Eu não sinto nada para além de amizade por ele.
- Prometes?
- Claro que sim! - sorri.
- Eu amo-te! - exclamou ele aproximando as minhas mãos dos seus lábios plantando um beijo nelas.
- Eu também te amo!
Senti tanto a sua falta, a falta do seu toque, o seu sorriso, falta de o ter ao meu lado, do seu abraço, do seu cheiro. Foram os piores dez dias da minha vida. Dez dias em que tudo me passou pela cabeça, principalmente a ideia de o perder para aquela galinha oxigenada. A ideia deles os dois juntos a passear nas ruas de Londres. Enquanto estava no hospital imaginava-o a entrar pela porta de vidro, mas isso nunca aconteceu e tê-lo agora deitado no meu colo enquanto me abraça pela cintura é simplesmente a coisa mais reconfortante e apaixonante e acima de tudo era disto que eu precisava.