Capítulo 89
HENRIQUE
O toque da Anica é estranho, o sabor dos seus lábios não é tão doce como os da Alice, as curvas no seu corpo não são tão realçadas como as do dela, o seu cheiro a perfume caro não é igual ao da pessoa pela qual eu estou perdidamente apaixonado.
O meu corpo movimenta-se sobre o seu sem sentimento, sem carinho, sem amor. Oiço os seus gemidos enquanto a preencho mas não consigo sentir nada, apenas um grande vazio dentro de mim.
Acabei de perceber que não sou nada sem ela, tudo o que faço me faz lembrar dela e, quando tento seguir em frente, sou imobilizado pelo meu coração onde parece estar cravado o seu nome. Alice.
Quando me vim gritei o nome dela, o que fez com que a Anica me atira-se abaixo da cama, mas nem aí senti remorsos. A verdade é que não é a Anica que eu quero, não é o seu corpo, e muito menos a sua atitude, que me fazem vibrar a cada segundo. É a Alice, sempre foi a Alice.
Comecei a sentir-me mal assim que ela me deixou deitado na cama, saindo do meu quarto enrolada no lençóis pretos que cobriam o colchão. Quem sou eu? Senti uma vontade enorme de vomitar, corri para a casa de banho e não aguentei. Por entre os impulsos do meu corpo, que mal me deixavam respirar, surgiram lágrimas nos meus olhos, as quais eu não sou capaz de explicar.
Pensei que ia conseguir ultrapassar isto, por um segundo pensei que a Anica pudesse voltar a ajudar-me a esquecer toda esta situação de merda pela qual estou a passar uma segunda vez. Mas não. Tudo aquilo em que eu consigo pensar é na Alice, na forma irritante que ela abana as pernas quando está nervosa, no jeito que apanha o cabelo quando vai começar a pintar uma nova tela, na maneira como ela morde o lábio inferior quando está concentrada em alguma coisa. Não consigo retirar estes pequenos detalhes da minha cabeça, não sou capaz de esquecer os vários episódios que tivemos juntos, os momentos em que eu ia a casa dela de propósito para a irritar, nas várias tardes que passamos no nosso jardim secreto, nos dias chuvosos de verão em que ficávamos tardes inteiras a ver filmes, filmes esses que para mim eram incrivelmente aborrecidos, mas faziam com que os seus olhos brilhassem tão facilmente apenas com um "Amo-te".
Sentado na secretária com vista para a grande janela do quarto do amor da minha vida, começo a acreditar que não sou capaz. Não sou capaz de viver sem aquela criatura minúscula, que faz com que o meu mundo pareça maior a cada segundo que passa. Estes dez dias fizeram-me perceber o quanto ela está enraizada dentro de mim. Tentei esquecê-la, estar com os meus amigos, mas não consegui, fiz sexo com a minha prima e nem por um momento ela me saiu da cabeça. O erro que ela cometeu deixou-me de rastos, mas estar sem ela consegue superar essa dor e eu já não aguento mais.
Tenho de falar com ela, preciso de a ver, de sentir o seu toque o seu cheiro, de saber se está melhor, se precisa de mim, se pensou em mim... se ainda me ama como eu a amo.
Peguei na minha roupa, que estava espalhada pelo chão do quarto, e corri até casa dela.
- Já vai! - ouço uma voz masculina e um pouco familiar dizer.
Sinto as minhas pernas tremerem. Assim que a porta se abre, deparo-me com a última pessoa que esperava ver aqui.
- Henrique? - O que estará ele a fazer cá e porquê que não foi a minha casa avisar que estava em Lisboa. Será que eles voltaram a namorar? - Hum, o que estás aqui a fazer?
- Podia fazer-te a mesma pergunta. - vociferei. Tenho de manter a calma, não posso deitar tudo a perder por partir a cara ao meu primo, quando, a única coisa que quero, é reatar a minha relação com a Alice.
- Vim visitar a Alice. Não sei se soubeste mas ela teve um ataque de ep...
- Sim claro que soube! - Respiro fundo e cerro os punhos. Ele está a testar os meus limites e eu não aguento muito mais.
- Como ela me disse que não vieste visitá-la, nem aqui nem ao hospital... pensei que tivesses preocupado com outras coisas... ou com outras pessoas...
- Olha meu, a minha vontade agora era de te partir essa cara toda contra a porta, mas estou a tentar controlar-me e tu não estás a ajudar, por isso, se não te importas sai da minha frente e deixa-me entrar! - exclamei empurrando-o para que saísse do meu caminho.
A Rosa está na cozinha a preparar o lanche, consigo sentir o cheirinho do bolo, que penso ser de chocolate, que ela tem no forno. É o favorito da Alice.
Subi as escadas, com o irritante do Tiago atrás de mim, até ao quarto dela. Tenho as mãos suadas e consigo ouvir os batimentos acelerados do meu coração. Bati à porta.
- Quem é Tiago, é o Filipe? - oiço-a perguntar enquanto a minha mão alcança o puxador da porta.
Filipe? O que é que isso quererá dizer? Ela está à espera do Filipe? E se eles os dois...
Abri a porta e entrei no quarto de rompante deixando-a com uma expressão terrivelmente assustadora. Os seus olhos esbugalhados olham para mim de cima a baixo, parece que está assustada com a minha visita, ou estará só surpreendida?
- Hen... Henrique? - gaguejou.
- Desculpa Alice eu não sabia se querias que ele subisse. - parece um cãozinho abandonado a tentar desculpar-se por uma merda de nada.
- Agora podes bazar daqui!? - vociferei contra o meu primo. - Preciso de falar com a Alice!
Ele olhou para ela no intuito de perceber se ela queria ficar a sós comigo. Este gajo não entende quando é que está a mais, aliás, ele nem devia estar aqui sequer, bastava ligar e sabia como é que ela estava, não era preciso fazer uma viagem de três horas até Lisboa para saber.
Vi-a assentir com a cabeça. Toma Tiago, ela prefere-me a mim e não a ti.
- Espera na sala por favor. - pediu-lhe a Alice assim que ele ia a fechar a porta.
A minha Alice está deitada na cama com o computador no colo. Parece um pequeno anjo, tão frágil, mas ao mesmo tempo tão assustada e preocupada. Quero saber como está, talvez deva começar a conversa por aí e só depois explicar-lhe por que motivo vim cá, quer dizer, um dos motivos para eu estar cá.
- Como estás? - perguntei sentando-me na cama aos seus pés. O seu olhar parece confuso.
- Melhor, estou a tomar medicação para prevenir os ataques.
- Ainda bem. Quer dizer, não da medicação, quer dizer, claro que a medicação te ajuda, mas tu não gostas... eu sei que tu não gostas de tomar comprimidos e...
- O que estás aqui a fazer Henrique? - perguntou-me interrompendo o meu estúpido discurso. Pareço um parvo por não conseguir falar.
- Eu... eu vim porque... eu preciso de falar contigo. - estou terrivelmente stressado, e as palavras saem aos poucos da minha boca.
A campainha toca e a Alice fica paralisada, ouvi passos pesados subirem as escadas e aproximarem-se da porta do seu quarto, onde eu continuo sentado em frente a esta linda mulher, completamente apavorado pela rejeição que pode sair dos seus lábios assim que eu lhe explicar que quero esquecer tudo o que aconteceu e voltar a estar bem com ela.
- Alice posso?
- Mas que merda é esta? O quê que este gajo está aqui a fazer!?