Capítulo 87
ALICE
Passaram-se alguns dias desde que tive alta do hospital, e em nenhum deles tive notícias do Henrique. Não fui capaz de perguntar ao meu pai se ele me foi visitar ao hospital, não sei se sou capaz de ouvir outro não como resposta, e ao mesmo tempo ter de me explicar sobre esse problema.
O médico aconselhou-me a ficar em casa pelo menos uma semana, mas o meu pai insiste para que eu fique duas, coisa que eu não vou fazer. Começo a ficar farta das paredes de tinta azul do meu quarto, aborrecida com o facto de não me deixarem fazer qualquer tipo de esforços, só saio desta divisão para ir à casa de banho e mesmo assim o meu pai chegou a perguntar-me se eu queria passar para o quarto dele para ficar mais perto dela. Tenho hora de recolher como se tivesse num colégio interno. Tudo para que não fique demasiado cansada. Estou farta.
Não gosto de me sentir presa dentro da minha própria casa, sinto-me sufocada por todos os pensamentos constantes que me pairam sobre a cabeça, parece que vou explodir a qualquer momento, mas tento manter-me calma. Choro todas as noites, não sei se por arrependimento ou se por conta da raiva que sinto pela Anica e também pelo Henrique. Tenho a sensação de que fui traída, que ele me traiu não me contando que ia para Londres com ela no final do ano. Mas tento afastar todos esses pensamentos, porém, tem sido extremamente difícil.
O Filipe tem vindo visitar-me todos os dias no final das aulas, com ele traz os apontamentos da matéria que estou a dar. Contou-me que conhece uma rapariga do meu ano e então pediu-lhe todos os apontamentos das aulas, em troca, ele tem de lhe comprar roupa nova. Não gosto que tenha de gastar dinheiro por minha causa, disse-lhe que não era necessário, que eu depois estudava o dobro para acompanhar a matéria, mas ele afirmou que faz tudo o que for preciso para me ajudar.
Curiosamente, ou talvez não, o beijo não foi um tema ainda abordado e eu fico feliz por isso. Talvez ele tenha percebido que não passou tudo de um ato estúpido, num momento ainda mais estúpido, ou talvez não queira stressar-me por ordens do meu pai. Pelo menos um ponto positivo entre todas as novas regras cá de casa.
- Menina Alice, está lá em baixo uma pessoa para a ver. - avisou-me a Rosa ao abrir a porta do quarto. Olhei para o telemóvel e ainda não está na hora do Filipe chegar com os apontamentos. Será que é ele? Será que o Henrique era capaz de vir cá ver como estou? E se for ele?
O meu coração acelerou drasticamente e eu tenho de fazer um esforço para me manter calma, não posso ter outro ataque e sujeitar-me a voltar para o hospital.
- Quem é Rosa? - pergunto a medo. Estou sentada na cama com o MacBook no colo, tenho vestido um pijama azul com bolinhas brancas. Se for alguém que não seja o Henrique tenho de me arranjar. Ia agora mesmo preparar-me para ver mais um episódio de Friends na Netflix, Quem será?
- É um rapaz, eu não sei o nome menina.
- Mas como é que ele é?
- Sou eu Alice! - anunciou o rapaz loiro de olhos claros, enquanto abria um pouco mais a porta do meu quarto. Fiquei perplexa.
Confesso que vê-lo aqui estava no fundo de todas as minhas opções. Já se passou tanto tempo desde a última vez que falamos, ou, no caso, discutimos. Não percebo como é que ele pode estar aqui, mesmo à minha frente e com um sorriso no rosto.
Ergui-me um pouco e sentei-me corretamente, o Tiago já me viu de pijama, por isso, não sendo algo fora do normal para ambos, eu não tenho necessidade de me trocar para falar com ele.
- Como estás? - pergunta-me um pouco constrangido mantendo-se em pé em frente à porta, onde a Rosa ainda está.
- Pode ir Rosa, obrigada. - agradeço com um sorriso e ela sai fechando a porta atrás de si. É muito estranho ter o meu ex namorado comigo no quarto, principalmente estando eu nesta situação. - Estou melhor, obrigada. - afirmei com um meio sorriso. Ainda estou um pouco baralhada com esta visita inesperada.
Ele sorri, e eu apercebo-me de que está a mexer um dos pés de um lado para o outro. Costumava fazer isso quando se sentia nervoso por alguma razão.
- Podes sentar-te se quiseres. - assegurei-lhe e juntei um pouco mais as pernas para que ele tivesse espaço no fundo da cama.
- Ah sim. Uhmmm...
Não quero gerar um clima mais estranho do que o que está instalado neste momento, por isso, pergunto:
- Como é que soubeste que eu estava... anh bem... de cama?
- O teu pai ligou à minha mãe. - Como assim o meu pai ligou para a Tânia. Eu pensei que eles já não tinham mais nada um com o outro. - Ele tem ligado frequentemente lá para casa, mas eu não sei porquê.
- Ah bom! - soltei um suspiro que tinha guardado sem querer. Não me sinto confortável com a ideia de tudo estar a acontecer novamente.
- Sim, mas mal eu soube o que te tinha acontecido quis vir ver-te. Liguei para a minha tia, mas ela disse-me que não me podia deixar ficar lá, porque está lá uma prima também... Não percebi muito bem.
- É verdade. - revirei os olhos. Só as lembranças do nome daquela galinha oxigenada já me dão nervos. - A prima do Henrique veio morar com eles durante este ano, ela morava em Londres, mas decidiu que queria vir para cá.
- Ela trocou Londres por Lisboa!? Que tola! - exclamou sorrindo. Tal como eu, ele também deve achar estranho que ela tenha feito uma escolha destas. Londres é a cidade perfeita, e sinceramente, Lisboa não passa de uma cidade aborrecida, cheia de transito e de fumo.
- Pois, parece que sim.
- O que me parece é que tu não gostas muito da rapariga. - finalmente percebeu que o assunto me incomoda.
- Não, não gosto. Mas agora também já não faz diferença. No fim do ano vão os dois voltar para Londres.
- Os dois!? - indagou um pouco confuso.
- A Anica e o Henrique vão para Londres no final do ano. - Custa-me tanto proferir estas palavras alto. Sempre que penso dá-me um aperto no coração, mas ter de dizer isto para outra pessoa como se não me afetasse magoa ainda mais.
- Então e vocês como é que ficam? - Não consigo decifrar se me pergunta isto num tom animado ou preocupado.
- Não ficamos. Já não estamos juntos. - finalmente fui capaz de dizê-lo.
O Tiago ficou parado a olhar para mim. Tentou esconder o sorriso estúpido estampado no seu rosto, mas foi tarde de mais. Não sei o que significa tudo aquilo, não sei se é só por detestar o primo ou se simplesmente ainda sente algo por mim. Preferia que fosse a primeira opção, não o quero magoar mais.
Os meus olhos começam a arder, sei que estou prestes a chorar, mas esforço-me para que as lágrimas não caiam pelo meu rosto.
Ele pergunta-me o quê que eu estava a fazer e, de seguida, senta-se a meu lado, tira as sapatilhas brancas da Nike e assiste comigo ao episódio de Friends.
É estranho tê-lo tão perto de mim novamente, mas, ao mesmo tempo, não me incomoda. Vejo o Tiago como um bom amigo, talvez o meu melhor amigo, pois ele sabe tudo sobre mim, ou talvez, quase tudo. É bom saber que posso contar com o apoio dele, mas não quero que ele confunda as coisas. Por isso, assim que ele tenta colocar o seu braço sobre os meus ombros, eu prefiro não deixá-lo fazer isso. Sorrio-lhe um pouco atrapalhada e ele assente com a cabeça e sorri de volta.
- Vou ficar cá em casa durante estes dias. - afirma baixinho enquanto a Phoebe descobre que a Mónica e o Chandler são um casal.