Capítulo 86
HENRIQUE
Depois de ter desligado a chamada com o treinador não fui capaz de voltar para dentro da escola. O meu corpo tremia, não sei se pelo facto de ter acabado de decidir toda a minha vida num impulso, ou pelas palavras do Filipe não me saírem da cabeça : - "A Alice está a ter um ataque meu". Não fui capaz de voltar atrás, de a ajudar, de estar lá para ela, mas, na verdade, foi ela quem causou tudo isto, foi ela que o beijou à minha frente. Talvez já o tivesse feito outras vezes, talvez eles já tivessem saído sem eu saber, talvez as mensagens que enviavam um ao outro não fossem só de apoio psicológico.
Conheço o Filipe há alguns anos e sempre me dei bem com ele, é o mais calmo do grupo, não se metia em confusões, não bebia quase nada, o que fazia com que fosse sempre o amigo sóbrio, que nos deixava em casa depois de uma festa. Sempre gozamos com ele por isso, mas agora se calhar quem está a ser gozado sou eu. Henrique o corno. Que situação familiar.
Começo a duvidar das minhas escolhas, não sei se fiz bem em ter aceitado o convite de ir para Londres, mas talvez seja o melhor para mim. Pelo menos assim, tenho a certeza de que não vou ter de ser confrontado com a Alice e com o Filipe juntos diariamente.
Tenho o volume da música no máximo e sinceramente começo a desconfiar que a rádio tem qualquer tipo de câmara de vigilância em mim quando começa a passar a "Grenade" do Bruno Mars. Esta letra descreve tudo aquilo que eu estou a sentir neste momento, toda a dor, todo o sofrimento, toda a esperança que tinha de ter uma relação perfeita com a miúda dos meus sonhos foi por água abaixo em uma questão de segundos e tudo por culpa dela.
Um barulho de sirenes sobrepõe-se ao refrão da música e eu olho imediatamente para a entrada da escola onde uma multidão de gente está instalada.
- Alice! - grito ainda dentro do carro, sem que ninguém me possa ouvir.
Não sou capaz de me mexer, sinto o meu corpo paralisado e os meus pensamentos vagueiam por uma rapariga deitada no chão a tremer, por um rapaz alto ao lado dela, rapaz esse que não sou eu, por uma enfermeira de bata branca a socorre-la mas em vão, já não há solução...
O meu telemóvel toca, é a minha mãe. Desligo a chamada e atiro-o para o banco do acompanhante. Não sei o que fazer, não quero que aconteça tudo aquilo que acabei de imaginar, não quero que lhe aconteça nada de mal. Devias ter pensado nisso antes, relembra-me o meu subconsciente, mas eu ignoro-o. Sei que o devia ter feito, mas porra, agora o mal já está feito e eu não posso fazer merda nenhuma para voltar atrás, se pudesse voltar.
Os bombeiros saem pela porta da escola com a maca na mão e o Filipe acompanha-os até à ambulância, onde entram. Que merda está a acontecer? Porquê que ele está ali, no meu lugar, a fazer o meu papel?... aquele que eu pensava ser o meu papel.
Não sei o que fazer, talvez deva seguir a ambulância até ao hospital, mas, ao mesmo tempo, não sou capaz de o fazer, depois de tudo o que assisti.
Voltei para casa e felizmente não estava ninguém. Fui até ao meu quarto e baixei as persianas elétricas de modo a ficar tudo escuro, tão escuro quanto eu. Desliguei o meu telemóvel, não quero ver nem ouvir ninguém agora, preciso de pensar, pelo menos devo pensar, mas não sou capaz de retirar a imagem da Alice naquela maca a entrar para a ambulância da minha cabeça.
Acabei por adormecer de exaustão.
Quando acordei já eram duas da tarde, liguei o telemóvel e a caixa de mensagens, assim como a de chamadas não paravam de tocar, fui ver e tinha várias chamadas da minha mãe e também do Daniel, tinha uma mensagem do Filipe, que ignorei sem sequer a abrir. Decidi ligar para a minha mãe que me atendeu ao segundo toque:
- Credo Henrique, o que te deu filho? Porquê que não atendes-te as minhas chamadas? Onde é que tu estás!?
- Mãe calma okay!? - detesto quando ela começa aos gritos pelo telemóvel - Estou em casa...
- Em casa!? Henrique a Alice está no hospital! - vocifera. Começo a ficar assustado com a sua voz. Consigo imaginá-la a andar de um lado para o outro atrapalhada.
- Eu sei mãe.
- Tu sabes!? E não estás aqui porquê!?
- Não interessa mãe... - não quero contar-lhe o que aconteceu, não consigo reviver aquelas imagens novamente na minha cabeça, só me quero esquecer de tudo e sair daqui. Mas ao mesmo tempo não consigo deixar de me preocupar com ela, é mais forte do que eu, eu continuo a amá-la com todas as minhas forças. Fogo Alice, o quê que fizeste comigo? - Como é que ela está?
- Está mal, este foi pior do que os outros, demoraram muito tempo para a socorrer...
- O quê que isso quer dizer mãe!? - gritei. Começo a sentir os meus olhos a arder e lágrimas aparecem deixando-me quase cego.
- Calma filho! Ela está estável agora. Quando chegou ao hospital mal conseguia respirar, mas, por sorte, controlaram o ataque a tempo e ligaram-na ao oxigénio. Está anestesiada agora.
- Achas que ela vai ficar com alguma lesão por causa disso? Por não a terem ajudado a tempo? - Se isso acontecer a culpa será toda minha. O filho da mãe do Filipe veio chamar-me mas eu não fui, eu não fui ajudar a Alice e agora ela pode ficar marcada para a vida por minha causa. Porquê que eu sou assim? Porquê que eu não voltei para trás? Eu podia tê-la ajudado porra.
- Provavelmente não, ela não chegou a ficar sem oxigénio nas células cerebrais portanto é possível que acorde bem e que se lembre de tudo. - felizmente. Suspirei de alívio. - Mas onde é que tu estavas Henrique!? Porquê que veio outro rapaz com ela? Quem é este rapaz filho!?
- Eu... - iniciei deixando as lágrimas finalmente rolarem pelo meu rosto. - eu e a Alice... Acabou mãe. - o choro faz-me soluçar algumas palavras. - Posso ir aí ter contigo?
- Claro, claro que sim Henrique!
Preciso do seu apoio, desabafar com ela pode fazer com que me sinta melhor, já que não tenho mais ninguém com quem o fazer. Era sempre a Alice que se encarregava dessa função.
Ao chegar ao hospital a minha mãe estava à minha espera à entrada, como eu já previa. Dirigimo-nos ao consultório dela e eu acabei por contar-lhe tudo o que aconteceu. O meu coração batia cada vez mais depressa à medida que me recordava de tudo o que aconteceu há algumas horas atrás. Parece que foi há mais tempo.
- Não posso acreditar filho!
- Mas foi o que ela fez... - refiro-me ao beijo.
- Henrique para ela fazer isso teve de ter um motivo muito forte. Eu vejo como ela olha para ti filho, ela ama-te. Mesmo depois de todos os problemas com a irmã ela ficou contigo filho.
- Mãe, ela beijou-o mesmo à minha frente! - exclamo com os braços no ar e levanto-me da cadeira azul do consultório. - Como podes dizer que ela me ama!?
- Tu não sabes o que aconteceu na casa de banho. - diz num tom calmo. - Não sabemos o quê que a Anica e ela conversaram. Alguma coisa não se encaixa no meio desta história Henrique. Eu duvido muito que a Alice tenha algo com aquela rapaz. Ela não é a Vitória filho. - Não consigo pensar nisto tudo agora, mas por um lado a minha mãe tem razão, eu não sei o que aconteceu na casa de banho. Contudo, nada desculpa o que ela me fez.
- Ela pode até não ser a Vitória mãe, mas, mesmo depois de conhecer essa história, ela foi capaz de me fazer exatamente a mesma coisa. Não há nada que me possas dizer que me vá fazer desculpá-la. O que ela fez não tem perdão!