Capítulo 85

ALICE

Tenho a boca seca e com um sabor estranho, sinto o meu corpo levitar. Os meus olhos abrem-se lentamente sendo possível observar duas silhuetas turvas. Não me consigo lembrar de nada, é como se tudo não passasse de um borrão de tinta preta. Oiço aquelas duas pessoas conversarem, mas, não sou capaz de decifrar o que dizem no meio dos sussurros.

- Como é que ela está doutor? - ouvi aquela que penso ser a voz grossa do meu pai. Doutor? Onde é que eu estou? O que está a acontecer?

A minha visão começa a clarear e observo perfeitamente o meu pai junto de um homem de cabelos grisalhos, vestido com uma bata branca. Estou deitada em uma cama de hospital, tenho um cateter espetado nas costas da minha mão direita e uma máscara de oxigénio no rosto, estou rodeada por tubos e ligada a uma máquina que mede os meus batimentos cardíacos. Sinto necessidade de me levantar e retirar esta coisa da cara, mas, assim que tento, percebo que não tenho forças nem para levantar o braço.

- Alice tem calma, não te mexas! - exclamou o meu pai, aproximando-se rapidamente da cama.

- Ela deve estar confusa Daniel, é normal.

- Sim, eu sei, com a Matilde acontecia o mesmo.

Os meus olhos percorrem o quarto pálido e despido de todo o tipo de decoração, enquanto eu tento perceber o que me aconteceu comigo e porquê que estou aqui.

- Alice ouve o pai. Tiveste outro ataque de epilepsia, mas já está tudo bem! O doutor Antunes tratou de ti!

Outro ataque de epilepsia? Mas eu lembro-me de...

O meu batimento cardíaco começa a acelerar repentinamente e a máquina à qual eu estou ligada não para de apitar.

- Alice tem calma filha! Está tudo bem!

As recordações do que fiz entram na minha mente de paraquedas. A discussão com a Anica, de seguida a discussão com o Henrique e, por fim, o beijo do Filipe. Começo a debater-me comigo mesma, quero soltar-me destes tubos, retirar esta máscara horrível que não me deixa respirar ar fresco. Preciso de sair desta cama, voltar para casa e pensar no que aconteceu.

- Enfermeira! - gritou o doutor Antunes. - Alice ouve-me com atenção! Está tudo bem, respira querida, respira! - exclama amarrando-me os braços para que eu não consiga libertar-me destes tubos.

Uma enfermeira loira de olhos azuis entrou no quarto com um frasco e uma seringa na mão.

- Parem! Não, eu não quero dormir, parem! - tentei gritar, mas em vão. Apaguei.

INÊS

Recebi uma chamada do meu pai a informar-me que a Alice estava no hospital, o seu tom de preocupação não me fez querer que este tivesse sido só mais um ataque de epilepsia normal, como os que ela já teve anteriormente.

Ainda estou chateada com ela, pelo facto do pai do Vasco, assim como noventa e nove porcento da população mundial a preferirem a ela e não a mim. "Isto não é uma competição." disse-me ela, mas sim, isto é uma competição, uma competição individual na qual eu vou fazer de tudo para provar a todos que sou muito melhor do que a Alice.

Perguntei ao meu pai se queria que eu fosse ter com ele ao hospital, mas este disse-me que não era preciso eu faltar às aulas, visto que ela já tinha sido observada pelos médicos e estava a recuperar.

Por um lado, ainda bem que não precisei de faltar à aula de interpretação, mas por outro, fiquei um pouco preocupada com ela.

Com a morte da minha mãe, apercebi-me de que um ataque de epilepsia não é algo com que se possa brincar ou fazer piada, é uma coisa muito perigosa e que nos pode tirar a vida num ápice.

As memórias daquela noite na casa do Algarve assolam os meus pensamentos, os gritos da Alice ecoavam pela casa, as tentativas perdidas de chamadas que fizemos para o nosso pai enquanto víamos um líquido branco sair pela boca da mãe. Ela debatia-se e tremia na cama. Fomos ambas inúteis, tanto eu como a minha irmã.

Sem saber o que fazer ligamos para o 112, mas, como sempre, eles demoraram demasiado tempo e quando chegaram já era tarde de mais. O corpo dela parou de tremer, o que nos fez pensar que estava tudo bem, mas, quando o bombeiro entrou no quarto e se aproximou da cama, onde os lençóis brancos estavam completamente molhados por conta do suor, apercebeu-se de que ela não estava a respirar.

Depois de uma hora e de muitas tentativas de reanimação eles desistiram. Nem eu nem a minha irmã conseguíamos perceber o que estava a acontecer naquele momento, eramos pequenas. Mas, só quando a ambulância saiu com o seu corpo, já morto, no interior é que o meu pai chegou a casa e se deparou com toda aquela situação. As luzes azuis e as sirenes eram possíveis de se ouvir do fundo da rua.

Cresci com o pensamento de que a minha mãe morreu por nossa culpa, porque nós não a conseguimos ajudar, com a sensação de que fui inútil. Não fui capaz de superar a sua morte e não sou capaz de perdoar o meu pai por não ter estado lá. Guardo rancor até hoje.

Tenho pena de que esta doença horrível tenha passado para a minha irmã, mas, agora que cresci, percebo que não posso fazer nada para ajudar, e, mesmo que pudesse, a minha mãe já não está cá...

- Inês!? Terra chama Inês! - exclamou a minha professora de interpretação.

- Peço desculpa!

- Está tudo bem? Pareces um bocado distraída e isso não é normal em ti. - afirmou ela. O seu cabelo ruivo encaracolado faz-me lembrar da princesa Mérida da Disney.

- Sim, aconteceu uma coisa com a minha irmã, mas, acho que já está tudo bem.

- Bom então vais utilizar essas emoções que tens aí dentro de ti para vires cá à frente!

- Está a falar a sério? Não sei se...

- Estou a falar muito a sério, vá, cá à frente!

Levantei-me dos bancos almofadados e desci as escadas em direção à professora.

- Este exercício consiste em pensarem em alguma situação que vos tenha marcado, pode ser o que vocês quiserem, desde algo que vos tenha feito muito felizes a algo que vos tenha deixado muito mal, não importa, o que me interessa realmente é que consigam transmitir as vossas emoções para os colegas. - explicou.

Não consigo pensar em outra coisa se não na morte da minha mãe e em como fiquei a odiar o meu pai por não ter estado lá...

- Inês, vamos começar!?

Posicionei-me no centro e deixei que os meus sentimentos fluíssem.

- A culpa é toda tua! Tu não estavas lá quando ela mais precisou, não estavas lá quando nós mais precisávamos de ti! Foste um cobarde, foste e continuas a ser um cobarde por todos estes anos. Foi por tua culpa que ela morreu, porque tu não estavas lá! A culpa é toda tua! Vi-a morrer nos meus braços enquanto a minha irmã te ligava aflita, mas as chamadas iam sempre parar ao voice-mail. Mataste-a! E se a Alice morrer a culpa também vai ser tua! Odeio-te, odeio-te a ti, odeio a mãe por não ter aguentado, por nos ter deixado, odeio a Alice por me fazer relembrar esse momento vezes e vezes sem conta, odeio-me a mim por não conseguir superar esta porcaria toda! A culpa é toda tua! - Todo este desabafo foi proferido de olhos fechados e em lágrimas.

Assim que os abri, enquanto as lágrimas salgadas percorriam toda a extensão do meu rosto, os meus colegas observavam-me petrificados, alguns choravam também, outros mantinham uma expressão de choque. Olho para a professora e ela dá-me um sorriso puro, calmo e que me parece querer dizer "Vai ficar tudo bem". 

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