Capítulo 84

ALICE

O que está a acontecer?

Os lábios quentes do Filipe envolvem-se nos meus. Mantenho-me em bicos de pés com os braços entrelaçados em seu pescoço. O seu toque não me é familiar, o seu cheiro não é o meu favorito, o seu sabor não sabe ao Henrique. O quê que eu estou a fazer?

Pousei os pés no chão e parei o beijo, fitando-o durante alguns segundos. Isto é errado, eu nunca deveria ter feito uma coisa destas. Quem sou eu!?

- Alice o quê que foi isto? - perguntou o amigo do meu namorado ainda um pouco atordoado com o furacão que acabou de passar aqui.

O furacão Alice chegou e só fez porcaria, não sei como é que vou descalçar esta bota, não sei o que pensar, o que sentir.

Não consegui responder, é como se a minha voz me tivesse sido retirada do corpo, como se algo invisível impedisse que as palavras saiam da minha boca.

Olhei para trás para ver se o Henrique ainda estava no pátio, mas não há sinal dele. O meu corpo está a tremer e a minha visão começa a ser ofuscada por manchas pretas. Não sinto as pernas, não sinto o corpo...

- Alice? Alice, Alice, Alice...

HENRIQUE

O meu coração parou no momento em que a vi correr para os braços dele. Ainda não percebi o que aconteceu na casa de banho, aquela conversa não fez sentido nenhum, aliás, não houve conversa sequer. Tenho a certeza de que a Anica já lhe foi colocar macaquinhos na cabeça.

Assim que vi a boca dela cola da dele paralisei. Que merda é esta? Alice, foda-se, o quê que tu foste fazer?

O meu corpo estático no meio do pátio começa a tremer, tenho vontade de chegar à beira deles e partir a boca ao Filipe, mas não, não tenho forças para isso.

Esta luta constante entre o meu cérebro e o meu coração deixam-me confuso, por isso, antes que faça algo de que me possa vir a arrepender para o resto da minha vida, saio a correr dali.

Como é que ela foi capaz de fazer-me isto? Penso enquanto ando em passo apressado pelo corredor da escola. Está tudo a acontecer outra vez e mais uma vez eu sou o palhaço apaixonado pela gaja que não quer saber de mim.

- Henrique!? - gritou o António do corredor.

Não respondi, não quero falar com ninguém, estou com uma vontade enorme de partir alguma coisa e não quero que seja o nariz do meu melhor amigo.

- Eih mano espera! - continuava a correr atrás de mim.

- Epah agora não meu! Preciso de estar sozinho... - vociferei voltando-me para trás.

- Que merda foi aquela da casa de banho!? Tá toda a gente a falar disso mano!

- Deixa-me em paz, a sério meu não estou com paciência!

- Puto o quê que aconteceu!? - perguntou novamente puxando-me o braço de modo a que eu me virasse para ele.

A minha visão ficou turva e o meu batimento cardíaco aumentou. Vou fazer merda, mas eu avisei-o.

O meu punho fechou-se e chocou contra o seu queixo fazendo com que o António virasse a cara com a força.

- Eu avisei-te para me deixares em paz! - gritei e saí a correr em direção à entrada da escola.

O problema sou eu, só posso seu eu...

- Henrique, Henrique espera! Espera caramba espera!

- Baza! - vociferei. Este gajo deve estar a gozar comigo de certeza. Depois de ter beijado a minha namorada ainda é capaz de vir a correr atrás de mim... Foda-se.

- Henrique a Alice... - começou o Filipe

Assim que o nome dela saiu pela sua boca parei de correr, porém, não fui capaz de dizer uma única palavra.

- A Alice está a ter um ataque meu... ela está deitada no pátio a tremer, eu não sei o que fazer! Tens de vir comigo!

- Não tenho de ir contigo a merda de lado nenhum! Tenho cara de médico!? Não! Agora baza da minha beira antes que te parta os dentes.

- Henrique eu não estou a brincar, ela está mesmo a ter um ataque, por favor anda lá!

- Seu merdas eu também não estou a brincar, queres liga para o 112 ou chama alguma funcionária!

- É a Alice Henrique!

- Fode-te tu e ela! - vociferei e saí da escola virando costas a tudo.

Não consigo pensar, sempre que fecho os olhos a imagem deles a beijarem-se aparece como um relâmpago. Entrei no carro, os meus punhos socaram o volante até sangrarem e as lágrimas escorrem pelo meu rosto.

Peguei no telemóvel, procurei o contacto do meu treinador, já nada vale a pena, perdi tudo, perdi-a, a única coisa que me restou foi esta proposta. Liguei.

Ao segundo toque ele atendeu:

- Olá campeão, então o que se passa!? Temos treino logo.

- Eu aceito!

- O quê!? - perguntou ele mais alto.

- Eu aceito a proposta, vou para Londres. - repeti decidido. Pelo menos eu acho que estou decidido. Estou! É o melhor para mim.

- Estava a ver que nunca mais me ligavas! Eu sabia que tu não ias recusar, vai ser incrível! Tu és incrível!

- Sim, tá...

- O que se passa Henrique? Não me pareces animado.

- Tenho de desligar, vemo-nos logo no treino.

- Okay, até logo então.

Desliguei.

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