Capítulo 83

HENRIQUE

A Alice está a demorar demasiado tempo na casa de banho e a Anica saiu da mesa logo após ela, não sei se isto é muito bom sinal, mas algo me diz que vai dar merda. A conversa sobre o jogo de amanhã, que os meus amigos estão a ter, começa a deixar-me um pouco enjoado, estou sem paciência para este assunto e para todos os assuntos relacionados com o Benfica neste momento. Baixei a cabeça e fiquei a olhar para a tela bloqueada do meu telemóvel, onde tenho uma foto minha e da Alice na piscina da casa dela. Tiramos esta foto antes de eu a beijar pela primeira vez. Lembro-me daquele momento como se tivesse sido hoje.

- Estás fixe Henrique? - perguntou o Filipe pousando a chávena de café na mesa.

Olhei para ele com uma expressão cerrada. Ultimamente não tenho curtido nada das atitudes dele para com a minha namorada, principalmente, depois de saber das mensagens de "preocupação" todas bonitinhas e amorosas que ele lhe manda. Eu conheço a preocupação dele, também costumava preocupar-me quando queria comer uma gaja na discoteca ou no balneário do estádio no fim de um jogo de futebol.

O Filipe sempre foi um grande amigo meu, é mais tímido do que o António, mas isso é normal, ele até me apoiou com a cena da Vitória e eu lembro-me que ele ajudou a Alice quando houve aquele problema na discoteca. O problema é que eu não gosto de partilhar e muito menos partilhar a rapariga que eu amo e a sua atenção. Não quero que ela goste das mensagens fofinhas e animadoras que ele lhe manda, não quero que ela fale com ele, nem que sorria para ele. E se ele continuar a fazer essas merdas eu sou bem capaz de lhe ...

- Mano, oi, que se passa contigo!? - perguntou o António passando a mão em frente do meu rosto.

- Para quieto meu, estás parvo!? - vociferei retirando-lhe a mão com força da frente da minha cara.

- Puto que se passa contigo? Ficaste parado a olhar para o Filipe, parecia que o querias matar ahahahahah.

- E talvez queira! - sussurrei rapidamente.

- O quê!? - perguntou o António.

- Nada, esquece, vou ver da Alice. - disse levantando-me da mesa onde estavam os meus amigos a rir-se da minha cara, todos menos o Filipe que me olhava fixamente com cara de otário.

- Olha e vê se a Anica está com ela já agora... - pediu o António. - Aquela gaja é boa todos os dias, vocês viram a saia que ela traz hoje, fogo eu juro que fico maluco!

- Boa só se for de corpo mesmo, porque de cérebro...

- Eih mano olha o que tas a dizer da tua prima!

- Puto acredita em mim, aquela gaja não presta! - estou a ser o mais sincero possível.

- Eu também não quero casar com ela, mas até gostava que ela viesse estriar os bancos do meu carro! Ahahahah!

Todos se riram, mas a mim o António só me meteu nojo, revirei os olhos e saí da sala de convívio, só espero que não esteja a haver confusão entre aquelas duas.

- Mafalda anda ver! Acho que estão à porrada na casa de banho! - gritou uma miúda de cabelo escuro e encaracolado à minha frente, enquanto corria pelo corredor até à suposta Mafalda.

- Quem quem?

- A Rita disse que era a Alice com uma gaja do décimo segundo, anda ver rápido!

"Alice com uma gaja do décimo segundo", isto não pode ser só coincidência.

Corri atrás das miúdas até à casa de banho e quando entramos no corredor vejo uma multidão de gente à porta.

São possíveis ouvir os gritos estridentes da Anica cá de fora, não entendo como é que ainda não está cá nenhuma auxiliar para fazê-las parar.

- Ai meu Deus esta miúda só quer mesmo atenção! - ouvi a tal Mafalda comentar. Espero bem que ela esteja a falar da Anica, caso contrário quem se vai passar vou ser eu.

Tentei andar pelo meio da multidão de raparigas extasiadas até conseguir chegar à porta da casa de banho. Não consegui reconhecer a minha namorada naquele momento. Os cabelos loiros da Anica estavam grudados nas mãos sedosas da Alice, parecia outra pessoa. De repente, aproximam-se do lavatório e quando a Alice estava prestes a bater com a cabeça da minha prima contra a bancada eu gritei:

- Alice! Para!

ALICE

Ouvi a voz do Henrique gritar e olhei na direção de onde vinha o som. Quando me apercebi, estava uma multidão de gente a olhar para mim. Parece uma cena de filme americano, o problema é que neste momento eu sou a protagonista. Olhei para as minhas mãos e tinha um molho de cabelos loiros entrançados nos dedos, a Anica estava sentada no chão todas despenteada, com a cara vermelha e um pouco de sangue no lábio inferior. O quê que acabou de acontecer aqui? Quem sou eu e o quê que eu fiz?

Fiquei parada a olhar para o Henrique e ele aproximou-se de mim lentamente. Não o quero aqui, não quero que me toque nem que fale comigo. Os meus pensamentos voam e enlouquecem-me a cada passo que ele dá na minha direção.

- Alice... já acabou okay, anda vamos lá para fora! - a sua mão enrolou-se em volta do meu braço, mas eu não dei um passo. Permaneci imóvel e com o olhar fixo no chão. Ouvia os comentários das raparigas na casa de banho, mas pareciam estar tão longe de mim.

- Henrique ajuda-me, olha o que ela me fez! - suplicava a priminha querida ainda no chão.

Ele não lhe respondeu, ao invés disso, continuou a puxar-me para sair dali consigo.

A multidão de raparigas e rapazes não arredou o pé da porta, vi que algumas estavam com os telemóveis apontados para nós e quando o Henrique se apercebeu disso gritou:

- Bazem daqui suas nojentas, o espetáculo já acabou! Vá bazem!

- Henrique! - exclamou a Anica ainda no chão.

- Epah cala-te meu! - vociferou ele em protesto contra os pedidos de ajuda da prima. - Alice anda, vamos embora antes que venha alguma auxiliar e te leve ao diretor! Anda princesa! - o seu corpo ia fazendo força para que o meu se movesse, mas eu não consigo sair daqui com ele.

As memórias de tudo o que a Anica me disse há alguns minutos pairam sobre a minha cabeça, "Eu e o Henrique temos uma história", "é só uma questão de tempo e eu e ele vamos estar juntos em Londres". Ele não me contou nada sobre a sua partida, não me falou da proposta, nem sequer a palavra Londres veio a tema de conversa. Mas ela sabia, ela sabia e vai com ele para lá. Foi a ela que ele contou tudo, é com ela que ele quer ir para Londres, para a casa dela. Sou só um brinquedo, um peão no jogo dele. Fez de mim o que fez com as outras todas depois da Vitória e eu feita parva caí no jogo dele.

A inocente Alice, a burra que se apaixonou por um rapaz que anda com todas. Porque não, não é? Para a história estar completa só falta ele humilhar-me aqui em frente a esta gente toda. Nunca devia ter vindo para cá, Lisboa destruiu a minha vida, ele destruiu a minha vida.

- Alice, fala comigo, o que se passa!? - perguntava insistentemente.

- Sai daqui. - disse num tom demasiado calmo comparando com o que sinto dentro de mim neste momento.

- Anh? Alice anda vamos lá para fora, tens de te acalmar e contar-me o que aconteceu...

- Eu não tenho nada para falar contigo! Sai daqui! - vociferei soltando-me das suas mãos com força. Quero gritar e esbracejar, quero que toda esta gente desapareça da minha frente, preciso de ir embora.

- O quê que se passa? O quê que ela te disse Alice!?

- Tudo aquilo que eu precisava de saber para ter a certeza de que tu continuas igual! - atirei enquanto olhava para ele enraivecida. - Desaparece-me da frente Henrique, eu nunca mais te quero ver!

- Mas Alice, Alice! - ouvi-o chamar-me à medida que eu me afastava a correr da casa de banho das raparigas.

Sinto o meu coração acelerado e quase a sair-me do peito. Corri até ao pátio, preciso de apanhar ar e o toque da campainha soa. Não consigo ir às aulas, sinto a cabeça andar à roda e sento-me em um banco de pedra.

Como é que fui tão estúpida? Eu devia ter percebido logo, assim que vi aquela rapariga pela primeira vez devia ter percebido logo que algo se passava entre eles. Todas as bocas que ela mandava agora fazem todo o sentido. É óbvio que ela o conhece bem, bem de mais para uma simples prima. Fazia tudo parte do jogo dele, fazer com que eu me apaixonasse quando à noite ia a correr para o quarto dela.

- Alice, Alice espera! - gritava o Henrique.

Voltei-me para trás e vi-o correr até mim, não sou capaz de aguentar isto, a última coisa que de que preciso agora é falar com ele, tenho de sair daqui.

Percorri o pátio com o olhar e vi o Filipe do outro lado, por isso, corri até ele. Não sei o que fazer, mas não quero que o Henrique continue atrás de mim.

Ao chegar junto do meu novo amigo, coloquei-me em pontas dos pés e entrelacei os meus braços no seu pescoço. Ele assustado agarrou-me e quando ia a falar eu interrompi-o com um beijo repentino nos lábios.

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