Capítulo 79
ALICE
Acordo com o despertador às sete da manhã, levanto-me e abro a janela para deixar o quarto respirar um pouco. Ainda tenho uma hora para me preparar e apanhar o autocarro, por isso, decido ir tomar um duche para ver se acordo e me preparo para mais um dia no inferno.
Enquanto entro no chuveiro lembro-me do horrível dia de ontem e de como gostava de o apagar da minha memória e da memória de todos os que estavam presentes.
Ontem, antes de me deitar recebi uma mensagem do Filipe, nela ele perguntou-me como é que eu estava e se podia fazer algo para me ajudar. Respondi depois de pensar um pouco que estava tudo bem, apesar de ser mentira, e agradeci pelo apoio que me deu.
A água quente percorre o meu corpo e as músicas da Lana ecoam por toda a casa de banho.
- Alice!? Vais demorar muito? - gritava a Inês do corredor. Parecia ter acordado de mau humor e sinceramente não estou com vontade de criar mais problemas.
- Estou a sair, mas podes entrar se quiseres! - respondi enquanto desligava a torneira e me embrulhava na toalha de algodão branca.
- O Vasco vem cá jantar hoje com o pai! Estou a entrar em pânico Alice, como será que é o pai dele? Será que vai gostar de mim? Como será que o nosso pai vai reagir?
- Anh? Espera lá! O Vasco e o pai vêm cá jantar e tu ainda não contaste ao pai!? - gritei eu enquanto ela limpava o espelho redondo do lavatório.
- Avisei, claro que avisei! Estou a referir-me a se eles vão dar-se bem ou não, entendes?
- Se o Vasco sair ao pai, podes tirar as tuas conclusões... - O Vasco é um rapaz incrivelmente simpático e carinhoso. Independentemente do estilo de roupa dele ser à base de preto e cabedal, ele não é de todo o tipo de badboy que eu vejo nos filmes.
- E então como foi o primeiro dia de aulas!? - perguntou-me ela entusiasmada.
- Não muito bom, mas também não quero falar disso... tenho de me despachar para não perder o autocarro!
- Autocarro!? Porquê que não vais com o Henrique!?
- Longa história Inês...
- Se te despachares não te atrasas!
Olhei para a minha irmã e revirei os olhos, enquanto ela baixava o tampo da sanita e se sentava à espera de que eu contasse o que aconteceu ontem.
Assim que acabei, olhei para o meu telemóvel e reparei que tinha uma mensagem do Henrique a dizer que estava à minha espera lá fora. Não sou capaz de ir com ele, de estar no mesmo espaço que a nojenta da Anica, preciso de conseguir sair de casa sem que ele me veja.
- É ele? - perguntou-me a Inês.
- Sim, diz que está à minha espera lá fora, mas eu não sou capaz de ir com ele e com a parva da Anica!
- E se for eu!?
- O quê!?
- Sim, hoje eu vou às tuas aulas e tu vais às minhas! Vá lá Alice, nunca tivemos a oportunidade de fazer isso! E pelo que me contaste da porca da prima do teu namorado, deu-me uma vontade de lhe arrancar aqueles cabelos um por um!
- Não quero arranjar mais confusões Inês...
- Eu juro que me vou comportar como a verdadeira Alice! Por favor... - exclamou ela fazendo beicinho.
- Mas eu não posso ir às tuas aulas, eu não percebo nada de dança!
- Eish, pois é! Então pronto, eu estou doente e não vou às aulas...
- Não, nem pensar! Eu tenho de enfrentar os meus problemas sozinha! Não vou deixar que isto afete ainda mais a minha relação, o Henrique só me estava a defender, eu é que não gostei muito da forma como ele o fez.
- És uma desmancha prazeres sabias Alice Ribeiro!?
- E tu és louca Inês Ribeiro!
Rimo-nos uma para a outra e ouvi a buzina do carro do Henrique tocar. Calcei os meus all star brancos e desci as escadas a correr, peguei numa maça da taça da cozinha e fechei a porta atrás de mim.
A manhã está quente hoje, dirigi-me até ao Mercedes branco e lá estava ele e a galinha oxigenada no banco de trás.
- Bom dia! - disse ao entrar no carro.
- Bom dia!- respondeu-me ele. Os seus olhos percorreram todo o meu corpo, talvez o vestido amarelo com flores azuis e decote em coração tenha sido exagerado para uma terça feira. - Já estava a perder as esperanças, pensei que não vinhas...
- Eu estou aqui. Mas prefiro falar contigo depois, quando estivermos sozinhos.
- Não se acanhem por mim, eu juro que não conto nada a ninguém! - comentou a Anica. Só a voz dela já me irrita, mas eu não vou responder-lhe porque não quero começar mal o dia.
HENRIQUE
Ter a Alice sentada no banco do acompanhante do meu carro deixou-me mais aliviado, não gosto quando nos chateamos, principalmente porque eu só a estava a defender. Ver o Filipe tão próximo dela ontem deixou-me super chateado, mas sei que a culpa foi toda minha.
No caminho até à escola ia olhando para ela, os seus olhos azuis parecem assustados e magoados enquanto olham pela janela. Aquele vestido fica-lhe tão bem, que se estivéssemos sozinhos sei perfeitamente o que faria com ele.
- Está verde! - gritou a Anica pregando-me um susto.
- Foda-se não sabes falar baixo!?
- Ui cuidado que o menino apanhou um susto. Olha se não ficas gago priminho. - gozava ela.
A Alice não abriu a boca durante a viagem. Estacionei o carro em frente à escola e saímos.
O António estava à nossa espera no portão.
- Então mano como vai esse olho?
- Está pronto para outra! - exclamei a rir-me. Assim que olhei para a Alice e vi o olhar que ela me fez reformulei: - Mas não vou andar à porrada com ninguém, foi só uma forma de dizer...
O António riu-se e abraçou a minha prima enquanto nos dirigíamos à sala de convívio. Quando chegamos, o Filipe já lá estava sentado numa mesa a tomar o seu café, deve ser o único do nosso grupo que toma o pequeno almoço na escola e não em casa.
- Olá Alice, como estás!? - perguntou ele arrastando a cadeira ao seu lado para que a minha namorada se sentasse.
- Estou bem, as coisas não mudaram muito deste ontem à noite, ahahah.
- Ontem à noite!? - vociferei eu, olhando para os dois. O que quer te tenha acontecido ontem à noite entre eles os dois vai ter de ficar muito bem esclarecido comigo.
- Ei calma meu, só lhe mandei mensagem a perguntar como estava...
- E tu respondeste!? - perguntei à Alice.
- Claro que respondi! Porquê!? Também vais andar à porrada com o Filipe é!?
O olhar dela acertou-me como uma bala, tentei acalmar-me antes de responder, não quero fazer porcaria outra vez.
- Não, não vou andar à porrada com mais ninguém! - exclamei. - Queres falar agora!?
- Sim, ainda temos tempo antes do toque...
Peguei na mão dela e levei-a até à sala onde vou ter a primeira aula, mas certifiquei-me de olhar para o Filipe antes de sair do bar. A Alice sentou-se em cima de uma das mesas, como eu já esperava e ficou calada.
- Estou à espera! - disse eu encolhendo os ombros.
- De quê!?
- Que me digas o que tens para me dizer... tu no carro disseste que precisávamos de falar, portanto estou à espera de que fales.
- Okay... Só te queria dizer que não gostei nada de te ver à porrada ontem...
- Mas eu só te estava a defender Alice!
- Eu sei, eu sei e por isso é que estou aqui a falar contigo. Tu sabes que eu detesto violência Henrique, detesto qualquer tipo de insulto, tu sabes! Mas eu estava lá, vi e ouvi o que ele te disse e percebo o que fizeste. Ontem, no calor do momento, eu só queria desaparecer dali, ver-te a bater-te foi algo que eu nunca pensei que fosse acontecer, mas ...
- Mas...
- ... mas eu sei que fizeste isso por mim, sei que tentaste conter-te e provavelmente se fosse eu na mesma situação que tu tinha feito o mesmo...
- Então isso quer dizer que...
- Quer dizer que eu te amo e não consigo ficar chateada contigo!
Olhei para o sorriso dela e abracei-a com força erguendo-a no ar. O perfume doce que vem do pescoço dela deixa-me com uma vontade enorme de fazer coisas que não se podem fazer na escola.
- Amo-te! - gritei.
- Também te amo!
Beijamo-nos.