Capítulo 76
HENRIQUE
Acordei com o despertador irritante a tocar no meu ouvido, não sentia falta nenhuma de ter de acordar cedo e preparar a mochila para mais um dia de aulas. Já não vejo os meus amigos há algum tempo, desde que entramos em férias dos treinos de futebol que não estou com eles. O António chegou a ligar-me para combinarmos ir à praia ou a uma esplanada à beira rio, mas eu não quis ir, claro que não lhe disse diretamente, mas acabei por arranjar desculpas e evitá-lo a todo o custo.
Os dias com a Alice foram maravilhosos e eu não era capaz de trocar uma tarde a ver um filme em casa dela, deitado junto a ela na cama e cobertos com uma manta de algodão, por uma tarde no café a beber cervejas com os meus amigos.
Desde que a Inês voltou para casa tudo acalmou e a minha relação com a Alice foi melhorando até à Anica aparecer, mas eu não posso deixar que ela estrague tudo outra vez, agora vai ser diferente, a Alice é diferente.
Depois de me passarem todos estes pensamentos pela cabeça, enquanto olhava para o teto branco do meu quarto, decidi escolher uma roupa para vestir, ainda tenho de tomar um duche e já não tenho muito tempo. Optei por uma T-shirt branca da Tommy Hilfiger com um par de calças de ganga la Levis.
Depois do duche voltei para o quarto, tenho menos de vinte minutos para estar à porta da casa da Alice e ainda tenho de secar o cabelo, colocar perfume, tomar o pequeno almoço, vestir um casaco, porque a manhã está um pouco fria, calçar-me...
- Henrique! - ouvi a voz da minha mãe gritar do andar de baixo.
- Já vou! - gritei de volta enquanto pegava na escova para pentear o meu cabelo encaracolado.
Decidi que não iria ter tempo para o secar, por isso, o sol encarregar-se-á de o fazer por mim, coloquei um pouco de perfume, talvez mais do que o necessário, mas hoje é o primeiro dia de aulas, aliás, hoje é o primeiro dia de aulas com a minha namorada na mesma escola que eu.
Desci até à cozinha onde os meus pais já estavam a tomar o pequeno almoço. A ilha central da divisão está cheia de comida, panquecas, taças com cereais, leite, sumo de laranja natural, bacon, torradas, sinceramente parece que estou perante um banquete americano.
- Bom dia filho e então preparado para voltar aos treinos!? - perguntou o meu pai depois de pousar a chávena de café à sua frente e pegar numa torrada.
- Sim, já tenho saudades de jogar! - exclamei.
- O treinador já disse mais alguma coisa!? - indagou a minha mãe enquanto se sentava e me servia um copo de leite. Mesmo sabendo que eu prefiro tomar café, ela vai continuar a insistir que o leite tem mais cálcio e que isso é bom para os ossos de um jogador de futebol.
- Eu ainda não lhe dei nenhuma resposta...
- Como assim Henrique!? É uma oportunidade incrível, vais puder estudar aquilo que mais gostas e ainda por cima fora do país! - exclamou o meu pai tentando convencer-me de que aceitar a proposta de ir para Londres é a melhor opção.
- É só que ... eu não sei pai! Agora que eu consegui manter as minhas notas e estou bem eu não sei se quero ir embora... Eu não quero deixar a Alice... E Londres não fica propriamente a meia hora daqui! - bebi o leite e peguei numa torrada. Este assunto tem-me dado cabo da cabeça há dias e ainda não consegui encontrar nenhuma solução para isto.
- Londres!? Vais viajar Henrique?
A voz irritante da Anica soou atrás de mim.
- Não querida, o teu primo foi convidado para jogar numa equipa de futebol de Londres e estudar lá...
- Mãe! - vociferei. Não quero que a Anica saiba nada disto, conheço perfeitamente aquela gaja e sei que quanto mais ela souber pior, só vai fazer merda e vai acabar por me estragar a vida, como sempre fez.
- Sim senhor, não sabia que eras assim tão bom a jogar futebol, mas parabéns priminho, daqui a uns tempos és mais famoso que o Ronaldo!
- Deixa-te de merdas Anica! - revirei os olhos e fui praticamente agredido pelo olhar da minha mãe.
- Desculpe lá senhor irritadiço, já vi que ninguém te pode dizer nada pela manhã... - ironizou ela enquanto se sentava ao meu lado e pegou numa taça com cereais e no pacote de leite. Se fosse a Alice no lugar dela estaria a pegar num iogurte natural açucarado em vez do leite e a colocar os seus Fitness de morango.
- Bem está tudo muito bom mas tu tenho mesmo de ir buscar a Alice para irmos para a escola! - exclamei eu levantando-me da mesa e arrumando a cadeira.
- Espera por mim... - disse a Anica ainda com as estrelitas na boca.
- Tu podes ir de autocarro!
- Henrique vais esperar pela tua prima e vão juntos para a escola! - ordenou a minha mãe.
- Nem pensar eu...
- Não quero desculpas! A Anica está cá connosco e tu vais levá-la!
- Mas mãe...
- Não há mas nem meio mas Henrique!
- Okay...
No fim da princesa tomar o seu pequeno almoço, peguei no meu casaco e na mochila e fomos até ao carro. Está um pouco frio, por isso, liguei a sofagem para que o Mercedes aqueça um pouco até a Alice chegar. Conduzi até ao portão da casa dela e buzinei para que saísse. Sinto-me numa cena de filme, o único problema é que tenho uma barbie oxigenada no banco de trás do carro preparadíssima para dizer algo que não deve.
Vi a Alice fechar a porta e aproximar-se em direção ao meu carro, ela traz o vestido branco que compramos no dia em que a levei a Belém. Está tão bonita, o cabelo comprido ondulado fica-lhe incrivelmente bem, acho que nunca a tinha visto assim.
- Mas o quê que ela está aqui a fazer!? - gritou.
Estou com a sensação de que vai começar uma luta de gladiadoras mesmo à minha frente.
- Lamento imenso querida, mas assim como tu eu tenho de ir para a escola e o meu primo está a levar-me... algum problema com isso!?
- O único problema aqui és tu! - vociferou a Alice entrando no carro e batendo a porta com força.
A minha playlist foi o único ruido que permaneceu dentro do carro até chegarmos à escola. Como era de esperar todos os estacionamentos estavam cheios, por isso, tive de estacionar na rua de trás.
O primeiro dia de aulas é sempre uma animação para uns e um pesadelo para outros, o facto de revermos os amigos é algo incrível, mas já dos professores não podemos dizer o mesmo.
Saí do carro e tranquei-o, sabendo perfeitamente que não era por fazer isso que iria proteger o meu carro de um assalto, mas mais vale prevenir do que remediar como a minha mãe diz, por incrível que pareça, demasiadas vezes.
Olhei para a Alice enquanto ela ajeitava o vestido e aproximei-me dela para lhe dar a mão, não me rejeitou, o que para mim é um excelente sinal. Fomos até ao portão da escola, consigo sentir o seu corpo a tremer, espero que não seja do frio, mas não tem mal perguntar:
- Estás com frio? Queres o meu casaco?
- Não obrigado, eu estou bem! - respondeu com um sorriso nervoso no rosto.
Percebi que quando está nervosa começa a tremer no dia em que ela e a Inês discutiram e ela lhe bateu, mas pensei que a escola não seria algo que a deixasse neste estado.
- Henrique! - ouvi o António gritar.
Voltei-me para trás a cumprimentei-o com um abraço e umas sapatadas nas costas.
- Estava a ver que nunca mais te punha a vista em cima meu! E quem é esta boazona que trazes aqui!?
- Olá, eu sou a Anica, sou prima do Henrique! - exclamou ela fazendo olhinhos ao meu melhor amigo.
O António sempre teve todas as gajas que quis, o cabelo loiro e os olhos verdes deixam qualquer uma louca por ele, acrescentando o facto de que é jogador da equipa B do Benfica, o que só lhe traz mais fama e grandiosidade ao seu já enorme ego. Só espero que não se deixe levar pela parva da minha prima, não quero que aconteça com ele o que aconteceu comigo.
- Olá António! - disse a Alice de maneira a ser bem educada com ele.
- Ah, bom dia Alice! Estás muito gira hoje, só é pena não trazeres aquele vestido preto que levaste à discoteca...
- Não abuses António! - respondi de forma protetora agarrando na minha namorada pela anca e aproximando-a de mim.
- Eh lá, olha que ele agora está bravo! Não te preocupes mano, a tua miúda não faz muito o meu estilo... já a tua prima...
Revirei os olhos e entrei na escola com a Alice. Os olhos dela percorrem cada parte do átrio, desde as escadas até à portaria. Subimos a escadaria principal e dirigimo-nos ao bar, quero mostrar-lhe o máximo que consigo até ao toque da campainha.
- Estás nervosa por ser o primeiro dia? - perguntei ainda de mãos dadas com ela.
- Sim... notasse muito?
- Hmmm, um bocadinho! - respondi.
- Não quero parecer louca nem nada disso, mas estou com medo ...
- Medo de quê Alice!? - perguntei. Não acho que haja motivo para ter medo, é só uma escola.
- Sei lá! Medo de que não gostem de mim, medo de não conseguir fazer amigos... tu sabes que eu não sou muito sociável, aliás tu és a prova viva em como eu sou um bicho do mato! E se eu não me adaptar à escola, aos professores...
- Deixas de ser negativa se faz favor!? - interrompi-a. Detesto quando se rebaixa a ela própria. - Princesa eu conheço-te e sei que és uma excelente aluna, vais safar-te bem prometo! E quanto aos amigos... se não arranjares amigos rapazes está ótimo para mim!
Ela começou a rir-se e a olhar em volta.
- És tão estúpido! Mas tu achas mesmo que alguém vai olhar para mim? Para além do mais, eu tenho-te a ti... e fazer amigos não é muito o meu forte, eu quero mesmo é concentrar-me nas aulas e passar de ano com boas notas.
- Às vezes assustas-me sabias!? - perguntei com uma cara de assustado.
- Porquê!? - riu-se.
- Alice estás no secundário... tens de te divertir!
- Não vamos começar outra vez... já te disse que a minha noção de divertimento é diferente...
- Okay okay eu já sei! - interrompi-a novamente. - Já chega de falarmos disto, anda, eu mostro-te onde fica a tua primeira sala!
Passamos pelo corredor principal que estava cheio de pessoal a falar aos berros e a abraçarem-se uns aos outros, parece que não se veem há anos, eu não consigo perceber.
- Então Henrique já não se cumprimentam os amigos!?