Capítulo 75

ALICE

O dia passou a correr, sinto que não parei um segundo, mesmo tendo estado quase toda a tarde com a minha irmã a ver um filme.

A Inês tem melhorado de dia para dia, mas ainda não conseguiu recuperar todas as memórias que tinha até ao dia do acidente, sinceramente, talvez seja melhor assim, a quantidade de problemas que ela causou, a quantidade de vezes que ela sofreu, excluindo claro a morte da nossa mãe, ela conseguiu lembrar-se disso ao jantar há uns dias atrás, estávamos a falar dela e a Rosa colocou o nome da mãe na conversa e foi aí que a Inês se lembrou daquela noite que eu prefiro esquecer.

Amanhã será o meu primeiro dia de aulas, assim como o da minha irmã e, apesar de já não estarmos na mesma turma, continuamos a preparar tudo juntas. A escola da Inês é completamente diferente das escolas normais, mas eu também não sei ao certo como é que as coisas funcionam por lá, terei de esperar para saber de tudo. Já eu, continuo no ensino regular à espera que estes dois anos passem para conseguir ir finalmente para a faculdade. Quero tirar o curso de Biologia Marinha na UAlg e depois trabalhar no Oceanário de Lisboa. Desde pequena que esse sempre foi o meu sonho, o mar sempre foi a minha segunda casa e conseguir contemplar a vida aquática todos os dias da minha vida é algo que eu tenho vindo a planear há muito tempo.

- Alice preciso da tua ajuda! Anda é urgente! - a Inês entrou no meu quarto de rompante e, como uma louca, agarrou-me pelo braço e puxou-me até ao seu quarto.

Ela pode ter mudado muito desde o acidente, mas continua exatamente igual quando nos referimos ao facto de me pedir sempre opinião para qualquer coisa. Já tinha saudades desta Inês.

- Onde está o fogo!? - perguntei na brincadeira enquanto me sentava na cama dela e olhava para a roupa espalhada pelo quarto.

- Tens de me ajudar, amanhã vai ser a minha estreia na escola e eu não sei o que vestir...

- Tem calma Inês, tu ainda não estás totalmente recuperada! - alertei. Não quero que o tratamento corra mal.

Quando ela acordou do coma foi um alívio para todos, mas era óbvio que ainda não estava tudo bem, foram-lhe receitados imensos comprimidos, com nomes muito estranhos, como o Tylex e o Fentanest, mas é o meu pai que lhe diz qual e quantos tomar. Todos os passos da minha irmã, assim que ela voltou para casa, eram controlados pelo meu pai, penso que até contabilizou as suas idas à casa de banho. No início ela não conseguia aguentar a medicação e acabava por vomitar depois de a tomar, mas, com o tempo, o seu organismo foi-se habituando e agora já está tudo bem, assim como as dozes também já foram reduzidas.

- Oh Alice tu estás a ouvir-me!?

- Anh?

- Estou a falar para as paredes! Preciso da tua ajuda mana.

- Okay okay... hmmm... sei lá!

- Não, não, nada de "sei lá" ! Calças calções?

- Calças.

- T-shirt ou top?

- Hmmm, top.

- Okay agora escolhes qual destes três tops e qual destas cinco calças! - fechei os olhos assim que ela me atirou a roupa para as mãos e deixei-me cair na cama como se me estivessem a torturar.

Acabei por escolher um top florido amarelo, que temos em comum e umas mom jeans da Levis que compramos antes de vir para Lisboa e voltei para o meu quarto.

Ainda só passou um verão desde que estamos aqui e já aconteceu tanta coisa que eu nunca pensei que aconteceria. Conheci um rapaz extremamente convencido e mulherengo pelo qual me vim a apaixonar, descobri que esse rapaz é primo do meu ex namorado e que, por acaso, eles se dão super mal, a minha irmã gémea apaixonou-se pelo mesmo rapaz que eu, mas começou a namorar com outro para o tentar esquecer, não conseguiu, acabamos por brigar e tudo isso fez com que ela fosse atropelada e ficasse em coma... e claro, não nos podemos esquecer do facto de descobrir que o meu pai andava com a mãe do meu ex namorado, tia do meu atual namorado, que era a melhor amiga da minha mãe.

A minha vida tornou-se numa completa confusão pela qual eu fui engolida sem sequer me poder pronunciar. Às vezes só gostava de poder ser uma rapariga normal que não perdeu a mãe aos dez anos.

Depois de relembrar o trailer do filme da minha vida deitei-me na cama e adormeci em segundos. Os sonhos foram atribulados e giraram em volta de uma loira oxigenada que beijou o meu namorado à minha frente no preciso momento em que entrei na nova escola.

O despertador tocou às seis e meia da manhã do dia seguinte, quero preparar-me com calma e tomar um duche para acordar. Abri os estores e a janela, a manhã estava fresca, mas a meteorologia disse que hoje vão estar vinte e cinco graus de máxima, o que quer dizer que posso usar o vestido branco que comprei com o Henrique na minha visita guiada por Lisboa.

Peguei na roupa e fui para a casa de banho, a casa ainda está escura, a Rosa só chega às nove da manhã e o meu pai vai levar a Inês à escola, por isso, ainda ninguém se levantou. Liguei a água quente e retirei o pijama amarelo com nuvens do corpo. As memórias do banho com o Henrique aparecem na minha mente e o meu coração acelera de imediato, todas as experiências que tive com ele foram épicas, diferentes, fizemos coisas que eu nunca pensei fazer tão nova e com outro rapaz que não fosse o Tiago, mas agora, olhando para trás, eu não mudava uma única coisa.

O medo que sinto em relação ao Henrique está ligado ao facto de saber que ele já vivenciou tudo isto, ele já esteve com outras raparigas para além de mim e consegue decidir qual a melhor, só de pensar nisso já fico devastada.

Perguntas e mais perguntas assolam a minha mente, tenho de deixar de me sentir inferior, mas, sempre que aparece alguma rapariga nova, bonita e divertida, o meu cérebro dá lugar ao coração e eu não consigo conter os ciúmes e o medo de o perder para outra pessoa.

Nunca pensei que amar fosse tão complicado, nunca senti ciúmes, medo, nada, mas agora, desde que o conheci que tudo mudou, eu mudei e penso que finalmente me encontrei, agora só tenho de me aceitar como sou.

Passadas três músicas do novo álbum da Lana del Rey, a Shape of You do Ed Sheeran começou a tocar no meu telemóvel, os meus pés automaticamente começaram a sentir o ritmo e o resto do corpo seguiu-os facilmente. Esta música faz-me lembrar da clareira que há no condomínio e de um dia em que me encontrei lá com o Henrique, ele decidiu mostrar-me a sua playlist e quando esta música começou a tocar ele desatou a dançar comigo e a cantar como um louco, ter-lhe-ia tapado a boca se não estivesse a ser um momento tão engraçado.

Saí do chuveiro e, depois de me secar e passar o creme de corpo, vesti-me e voltei para o quarto. Sequei o cabelo e ondulei um pouco as pontas com o modelador. Decidi maquilhar-me levemente, pois ainda tenho algum tempo antes da hora do pequeno almoço. Eu sou um pouco compulsiva com horários e acabo por ter tudo esquematizado de maneira a não me esquecer de nada e estar sempre pronta a tempo.

No fim do pequeno almoço ouvi a buzina do carro do Henrique e, depois de me despedir do meu pai e da Inês, peguei na minha mochila e no meu casaco de ganga e saí de casa.

- Vai com cuidado Alice! - gritou o meu pai da cozinha.

- Logo quero saber de tudo! - exclamou a Inês antes de eu bater com a porta.

A manhã está um pouco mais fria do que eu pensava, mas mal entre no carro do meu namorado vou aquecer de certeza.

Desci as escadas e percorri o jardim até ao portão de minha casa, estou nervosa por ser o primeiro dia de um novo ano, numa nova escola, novos colegas, novos professores, é tudo demasiado novo...

- Mas o quê que ela está aqui a fazer!? - gritei.

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