Capítulo 74
HENRIQUE
Depois da pequena luta de argumentos entre mim, a Alice e a minha prima, achei que seria melhor se fosse deixar a minha namorada a casa. Ela está furiosa com a Anica e sinceramente tem razões para isso, aquela gaja não sabe quando calar a boca e depois sobra sempre para mim.
- O quê que ela quis dizer com aquilo!? - perguntou-me a Alice enquanto nos dirigíamos até à porta de sua casa.
- Ela só te queria irritar... mas não lhe dês mais importância, ela não merece.
- A mim pareceu-me mais do que isso Henrique...
- Mas não...
- Porquê que ela disse que tu não eras "assim tão bom"!? Como é que ela sabe!?
- Alice não importa, já te disse que ela é assim, gosta de provocar as pessoas!
De repente, a porta da entrada abriu fazendo com que, tanto eu como ela, apanhássemos um susto. Eu ainda não tinha sido apresentado a este rapaz devidamente, a Alice já me tinha falado um pouco dele, mas, assim como ela, não sei quase nada a seu respeito, contudo, desde que esteja com a Inês tudo bem.
- Então Vasco já vais!? Pensei que ficavas para almoçar. - perguntou a Alice tentando disfarçar o facto de estar chateada comigo.
- Eu não posso, aconteceu um imprevisto com a minha avó e eu tenho mesmo de ir ter com ela.
- Claro, claro que sim vai lá!
- Tchau Henrique! - exclamou ele.
- Tchau! - respondi num tom um pouco diferente.
Não quero continuar chateado com ela, ainda por cima amanhã é o seu primeiro dia na escola e eu gostava que corresse tudo bem.
- Alice olha para mim! Não vamos continuar chateados, estávamos tão bem ainda agora...
- Estávamos dizes bem... e se a estúpida da tua prima não existisse continuávamos bem!
- Então pronto, vamos fingir que ela não existe!
- As coisas não funcionam bem dessa maneira... Não é como se ela não estivesse a viver em tua casa... não estivesse na tua turma... não andasse constantemente atrás de ti a provocar-te... - A Alice anda de um lado para o outro.
- Mas eu não quero saber dela! - afirmo com toda a certeza. - A Anica é ... - baixo a cabeça.
- É o quê Henrique!?
- Nada Alice! - exclamo olhando de volta para ela. - Ela não é ninguém. Já chega desta conversa, por favor! - imploro.
- Tens razão. - suspirou. - Eu confio em ti e sei que mesmo que ela seja ... seja assim... tu nunca vais fazer nada. - sorri imediatamente a seguir à sua afirmação e concordei com a cabeça.
Esta mulher consegue surpreender-me completamente, num minuto está completamente furiosa e quase pronta para atacar a minha prima e no outro está aqui comigo, a sorrir e a abraçar-me. Quem me dera que todas as discussões se resolvessem assim.
Assim que ela entrou, voltei para minha casa, onde já estava a minha mãe toda contente por estar a falar com a Anica novamente.
- Henrique filho já viste quem é que está cá!? - ela estava radiante por ver a querida sobrinha emprestada e não contia os risos e sorrisos para a princesa.
- Já... - digo entrando na cozinha. - Preciso de falar contigo!
- Filho é assim que se fala para a tua prima!? - exclamou a minha mãe surpreendida.
- Eu não estava a falar para ela. - afirmo. - Eu quero falar contigo!
A Anica continuava sentada na bancada da cozinha e a minha mãe parecia surpreendida com a minha falta de entusiasmo para a conversa que tenciono ter com ela.
Olhei para a barbie ambulante e pedi-lhe silenciosamente que nos deixasse conversar a sós.
- Ah, claro, eu saio, não se preocupem. - disse depois de algum tempo.
Desde que falei com o pai da Alice, ainda não consegui ter um tempo para confrontar a minha mãe com o que ele me disse. Eu sei que elas são irmãs, mas daí a serem gémeas, também sei que há uma grande probabilidade de os gémeos não serem idênticos como a Alice e a Inês, mas o Daniel confirmou que elas eram tão parecidas que até para ele era difícil de as distinguir. Preciso de respostas, não é algo urgente, mas isto têm-me invadido os pensamentos imensas vezes.
- O que se passa Henrique? - ela parecia nervosa, aproximou-se de mim e acariciou-me o braço, mas eu não me mexi. Preciso que esta seja uma conversa séria.
- Senta-te por favor.
- Estás a assustar-me filho! - baixo a cabeça e tento manter-me calmo.
- Desde quando é que estás chateada com a tia Tânia? - perguntei enquanto ela se sentava.
- Anh? Que conversa é esta agora!? - chocada ela levanta-se e vai em direção à janela da cozinha.
- Eu quero saber mãe, responde-me!
- Mas porquê? Para que queres saber disso, já passou tanto tempo Henrique!
- Quanto tempo!? - interpelei.
- Caramba Henrique o que se passa contigo!?
- Preciso de respostas mãe...porquê que nunca me disseste que tu e a Tânia eram gémeas!?
Senti o choque desta pergunta no rosto da minha mãe, os seus olhos ficaram encharcados em segundos e o seu corpo deambulava pela cozinha sem proferir uma única palavra.
Mantive-me em pé, encostado à ilha que fica no centro da divisão, não queria tê-la feito chorar, nunca pensei que fosse um assunto tão delicado.
- Eu conto-te tudo, mas tens de prometer que me vais perceber. - ela limpou as lágrimas.
- Eu só quero respostas... - aproximei-me dela.
- Não te tenciono desapontar, mas se são respostas que queres, então aqui vai. É verdade sim, eu e a Tânia somos gémeas, assim como a Alice e a Inês, eramos idênticas, tínhamos apenas um sinal no rosto que nos distinguia uma da outra. Dávamo-nos muito bem, andávamos sempre juntas, para onde uma ia a outra ia também, até chegávamos a comprar roupas iguais, porém, ela decidiu tirar um curso de jornalismo, que acabou por não seguir, e eu fui para medicina, cada uma fez amigos novos, tínhamos atividades completamente diferentes, vidas diferentes, até que eu conheci a Matilde, a mãe das gémeas e eu tornamos nas melhores amigas. A tua tia não podia ver a Matilde à frente, sentia ciúmes por não receber tanta atenção da minha parte e chegamos a discutir várias vezes sobre esse assunto, mas nunca chegávamos a lado nenhum. Quando o Daniel entrou para o hospital, como estagiário, a Matilde apaixonou-se logo por ele, mas, como não sabia se era correspondida, tinha medo de avançar, lembro-me de passarmos noites ao telefone a falar sobre ele e lembro-me também de ouvir no final do mês os meus pais a discutirem comigo sobre a conta que tinham para pagar. Então, um dia ele chegou-se à frente e decidiu convidá-la para sair, claro que ela aceitou, mas, brincalhona como a Matilde era, eu já sabia que ela tinha alguma carta na manga. Nesse fim de semana recebo uma chamada da casa dela e atendi prontamente, do outro lado da linha estava ela a dizer-me que tinha montado um plano para brincar com o Daniel e queria saber se eu alinhava, mas para isso era preciso que a minha irmã também alinhasse... - ela não retirava os olhos do chão à medida que me ia contando tudo. - Não sei como é que ela aceitou, sempre pensei que ela odiava a Matilde, mas não duvidamos de nada e seguimos com o plano até ao fim. Assim que o Daniel entrou no bar onde tínhamos combinado o encontro, eu e a mãe da Alice estávamos escondidas e a Tânia estava sentada ao balcão à espera dele, o plano era fazer com que ele ficasse confuso, pois ele não sabia da existência da minha irmã gémea, era uma estupidez eu sei, mas nada paga os momentos de riso que se seguiram. Ele sentou-se ao lado dela pensando ser eu e começou a falar-lhe da Matilde, mas ela não lhe respondia, apenas se ria, perguntou por ela imensas vezes, mas a Tânia só se ria, assim como nós, no fim, a Matilde e eu aparecemos atrás dele e explicamos-lhe toda a situação. Desde essa altura ficamos muito amigos, mas a tua tia tinha atitudes que me revoltavam imenso, ela gostava do Daniel e isso era visível aos olhos de todos, mas ela tentava virá-lo contra a Matilde, contava-lhe coisas que ela nem tinha feito só para fazer com que eles acabassem, coisa que nunca aconteceu. Em frente à mãe da Alice agia sempre bem, como se fossem as melhores amigas, mas quando ela não estava tentava por tudo que o Daniel a deixasse. Quando conheci o teu pai decidimos vir viver para cá e mudamo-nos, a Tânia manteve-se na casa dos meus pais até conhecer o teu tio David e casar-se com ele, praticamente ao mesmo tempo que o Daniel se casou com a Matilde. Nessa altura eu já conhecia um colega de trabalho que era especialista em cirurgias plásticas, por isso decidi experimentar e mudar um pouco o meu aspeto, por causa das inseguranças que tinha comigo própria, comecei por fazer uma rinoplastia de redução, fiz também uma bichectomia para reduzir um pouco o tamanho das minhas bochechas e uma mentoplastia para diminuir o queixo, não as fiz todas de seguida, mas gostava de ver as mudanças em mim, sentia-me mais segura mais confiante e foi tudo feito com o máximo de rigor possível, para não ocorrer nenhum tipo de problemas pós cirurgia. Eu estava feliz e eu teu pai gostava de me ver feliz, mesmo dizendo que não precisava de nada daquilo, deixei apenas a cor do cabelo igual, mas talvez no futuro ainda possa vir a mudar isso também, quem sabe. Quando tu nasceste convidei a Matilde para ser tua madrinha, mas sabia que ela não ia aceitar pois sempre soube que a Tânia o queria ser, penso que o teu batizado foi das últimas vezes em que falamos. Adiante, quando a Matilde partiu, eu fiquei devastada, corri para o Algarve para o seu funeral e conheci as meninas, já não nos víamos desde o dia do batizado delas, tu eras pequeno e não te lembras claro, mas tu foste ao batizado da tua namorada. Sempre soube que a Matilde sofria de epilepsia, mas nunca pensei que essa seria a causa da sua morte e não quero sequer pôr a hipótese de a Alice correr o mesmo risco...
- Como assim correr o mesmo risco!? - gritei fazendo com que a minha mãe desse um pulo com o susto.
- A Alice também já teve um ataque de epilepsia filho e se começar a ser recorrente, ela terá de ser tratada e medicada.
- Um ataque de epilepsia, mas ela...
- Naquela noite que ela dormiu cá em casa, naquela em que eu fui ao teu quarto para a ajudar e depois saí com ela.
- Não... não pode ser! É impossível, ela disse-me que teve uma quebra de tensão!
- Henrique a Alice está tão ou mais assustada que tu com tudo isto, ela não deve ter tido coragem para falar sobre o que aconteceu e provavelmente não te quis preocupar. Não te preocupes filho, eu estou a seguir a Alice e vai correr tudo bem.