Capítulo 66

ALICE

O meu mundo desabou assim que a minha irmã falou. "Quem és tu?". O meu estado de choque era totalmente percetível e assim que ela se levantou da cama, ainda muito debilitada e cheia de dores, os seus olhos percorreram o meu corpo de cima a baixo.

- Tu... eu conheço-te! Eu só não sei de onde...

- Eu sou a Alice, a tua irmã gémea... Inês, tu não te lembras de mim!?

- Gémea!? Não, não pode ser! Eles não me disseram que eu tinha uma irmã...

- Anh? Eles quem!?

- Aquele médico, eu não me lembro do nome dele... ele disse-me que o meu pai estava cá para me ver, mas não me disse que eu tinha uma irmã. - ela parecia confusa.

- Inês tem calma, eu posso provar-te que sou tua irmã, olha! - exclamei eu abrindo o seu portátil e colocando-o no colo dela devagar. O fundo de ecrã dela é uma fotografia nossa que tiramos quando ainda eramos pequenas na praia de Odeceixe. Tenho saudades destes momentos, dos momentos em que nos dávamos bem, sem brigas e discussões, sem namorados e mudanças, mas, acima de tudo, tenho saudades da minha mãe.

- Esta sou eu!? - perguntou ela apontando para a fotografia.

- Não, essa sou eu. Tu és a do lado direito!

- E ela?

- É a mãe Inês!... Ela é a nossa mãe! - lágrimas começaram a cair pelo meu rosto sem eu dar por isso. Toda esta situação está a ser demais para mim, eu não estou a conseguir aguen...

- Alice!? - ouvi o meu pai.

Olhei para a porta e lá estava ele, sei que acabou de chorar, os seus olhos não mentem. Entrou no quarto e fechou a porta lentamente, parecia amedrontado com alguma coisa.

- Vais explicar-me o que está a acontecer!? - perguntei firmemente.

- E quem é este? - perguntou a Inês pousando o computador em cima da mesa que estava ao lado da cama.

O meu pai olhou para mim e depois para ela voltando novamente para mim no final. Olhei-o fixamente e voltei a chorar.

- Inês querida! - exclamou ele sentando-se na cama junto da minha irmã. - Eu sou o teu pai!

A Inês estava ainda mais confusa, os seus olhos viraram-se para mim, mas eu também não tenho respostas, aliás, eu só tenho perguntas, perguntas e mais perguntas que ainda não foram respondidas por ninguém neste quarto.

- Alice podemos falar!? - perguntou o meu pai.

- Sim!

Assim que saímos do quarto de hospital onde a minha irmã estava, completamente sem alma, sem vida, perdida, o meu pai abraçou-me e disse:

- Está tudo bem! Finalmente está tudo bem filha!

- Está tudo bem? - vociferei eu afastando-me do seu abraço - Como é que podes dizer que está tudo bem, quando a minha irmã está lá dentro sem saber quem eu sou, sem saber como se chama, sem saber sequer o que aconteceu!? Não está nada bem, nada está bem! - gritava eu. A cada respiração que dava, parecia que a minha vida se desmoronava à minha frente.

- Alice tem calma...

- Não! Eu não tenho calma! Estou farta de ter calma e de te ouvir dizer que tudo se vai resolver. Estou farta de esperar que a vida resolva todos os problemas por mim!

- Alice! - exclamou a Melany enquanto corria em nossa direção.

- Ela não me conhece Melany... Ela não sabe quem eu sou... Ela não sabe nada! - lamentava-me eu abraçada à mãe do meu namorado. O meu choro estava cada vez mais forte, parecia que nunca mais iria conseguir sorrir. A minha respiração alterou-se rapidamente e a falta de ar ia apoderando-se dos meus pulmões.

- Alice, Alice querida olha para mim! - sussurrava ela. O meu pai mantinha-se estático à nossa frente, sem proferir uma única palavra. - Tu não podes estar assim querida! Tu sabes o que te pode acontecer se te alterares...

- Eu sei, eu sei... - repetia eu baixinho.

- Ouve-me com atenção agora... A Inês vai ficar bem, é normal depois de um acidente tão grave como o dela que haja algumas sequelas como a perda de memória, mas tudo acaba por voltar ao normal, mais tarde ou mais cedo querida.

- Eu não sei se acredito nisso Melany... Ela parece um boneco sem alma, nem se reconhecia a ela própria, ela não a reconheceu...

- Referes-te à Matilde!? - perguntou-me ela.

- No computador da Inês tem uma fotografia que nós tiramos no Algarve, estamos as três na praia. Aquele dia foi lindo, o pai estava de folga e prometeu-nos que iriamos passear, foi a mãe que escolheu o sítio e ele ainda continua a ser o meu lugar favorito de todo o planeta.

Olhei para o meu pai e percebi que também ele se recordava do dia que eu estava a referir.

- Alice, tu vais ver que tudo isto vai passar, a tua irmã vai voltar a lembrar-se de tudo!

- E se não se lembrar!?

- Se ela não se lembrar tu vais fazer os possíveis para fazer com que ela faça novas memórias. - dizia a Melany abraçando-me com força.

- Vamos todos! - pronunciou o meu pai ainda um pouco nervoso e limpando as lágrimas.

TIAGO

- Afonso tem calma! Não te estás a precipitar? - gritava eu enquanto o meu irmão preparava uma mochila com roupa apressadamente.

- Não Tiago, eu não me estou a precipitar! Eu tenho de a ver, tenho de saber como é que ela está, e se ... não, isso não pode acontecer!

- Então eu vou contigo! - exclamei eu.

- Nem pensar! Depois do que aconteceu da última vez, é melhor ficares aqui.

- Eu também sou amigo da Inês, não vou lá pela Alice! - tentava convencê-lo das minhas intenções, sabendo perfeitamente que não era só pela Inês que eu queria ir a Lisboa.

- Não Tiago, é melhor não!

- Eu não quero saber da tua opinião para nada! Eu vou, já disse! - exclamei eu enquanto colocava as minhas roupas numa mochila.

ALICE

Depois de ter estado algum tempo com a minha irmã, decidi deixá-la a sós com o meu pai, ele vai explicar-lhe melhor o que lhe aconteceu. Desci novamente até à sala de espera e pedi ao Henrique para me levar para casa, prometendo-lhe que lhe contava tudo pelo caminho.

Assim que chegamos a minha casa, convidei-o para subir, penso que tudo isto também o afetou, nem que seja só um bocado. Ele não demonstra muito bem os sentimentos, ou pelo menos tem medo de os demonstrar.

- Como estás!? - perguntou-me ele já no meu quarto.

- Exausta, sinto que levei uma sova das grandes. Preferia estar eu deitada naquela cama em vez dela...

- É que nem voltes a repetir uma coisa dessas Alice! Se fosses tu no lugar dela... eu nem sei...

- Podemos mudar de assunto!?

- Vamos tomar um banho!? - perguntou ele rapidamente.

- O quê!?

- Se queres ir tomar um banho, para relaxar um pouco...

- Sim, quero, mas sozinha.

- Okay, sozinha será!

Preparei uma roupa confortável para vestir no fim do duche, umas leggings pretas com uma T-shirt azul bebé e dirigi-me à casa de banho.

- Tens a certeza!? - perguntou-me o Henrique novamente, enquanto me seguia.

- Sim! - respondi eu olhando para trás e sorrindo.

Entrei na divisão e liguei o chuveiro no máximo, a água quente vai aliviar tudo, alivia sempre.

Mas falta alguma coisa, a água corria pelo meu corpo lentamente, mal conseguia abrir os olhos, por estar em baixo do chuveiro, as minhas mãos agarravam o meu cabelo como se o quisessem arrancar e as lágrimas voltaram a apoderar-se do meu rosto. Num impulso gritei:

- Henrique!

Depois de alguns segundos ele respondeu abrindo a porta:

- Sim, está tudo bem!?

- Entra! Eu quero-te aqui!

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