Capítulo 64
HENRIQUE
- Alice, Alice acorda! - os olhos dela abriram lentamente e a sua cabeça levantou-se do meu colo. Tem a bochecha vermelha com as marcas das minhas calças de ganga, deve estar exausta.
- Onde estamos? - perguntou ela ainda sonolenta enquanto olhava à sua volta.
- No hospital, acho que adormecemos aqui, já é de manhã.
- De manhã! - exclamou ela levantando-se apressadamente e penteando o seu cabelo castanho com os dedos.
Não consegui não me rir com o seu desespero ao perceber que tínhamos passado a noite numa cadeira de hospital à vista de todos.
- Para de te rir Henrique! - sussurrava ela de maneira a que meio hospital conseguisse ouvir.
- Tu és tão engraçada, ah e já agora, tens baba no canto da boca...
- Anh? Baba? Oh meu Deus, onde!?
- Estou a brincar Alice! - não consigo parar de me rir, acho que esta é das situações mais cómicas que já passamos e eu não me vou esquecer disto nunca mais, aliás, tenciono lembrá-la disto sempre que puder.
A troca de turnos da rececionista já deve ter acontecido, talvez esta não saiba do facto de aquele estupor não nos ter deixado entrar na noite anterior.
Fomos tomar o pequeno almoço ao bar, não podemos dizer que é a melhor refeição do mundo, mas penso, que com a fome que estou, até um urso eu comia.
- Henrique?
- Sim! - o leite com cereais não está mau de todo.
- Será que já consigo entrar?
- Não sei babe, talvez.
- Eu preciso mesmo de entrar!
Não consigo, simplesmente não consigo entender por que razão ela faz tanta questão de entrar naquele quarto, eu sei que é irmã dela, eu sei, mas depois de tanta porcaria que ela lhe fez, eu não consigo perceber como é que a Alice continua a querer ajudá-la. Tenho de lhe perguntar:
- Alice?
- Hum!? - disse ela levantando a cabeça da taça de iogurte com cereais.
- Porquê que te importas tanto com a tua irmã, mesmo depois de tudo aquilo que ela te fez!? - muito direto? Talvez sim.
- Ahm... Eu... Eu não sei Henrique. - o seu semblante mudou, parece pensativa, mas eu gostava que ela partilhasse comigo. - Talvez pelo facto de que é por minha culpa que ela está numa cama de hospital.
- Por tua culpa!? - esbravejei.
- Se não tivéssemos discutido e se eu não lhe tivesse batido nada disto teria acontecido, a esta hora ela estava em casa, no quarto a reclamar com alguma coisa... - reparei que uma lágrima caiu pelo seu rosto.
- E tu estarias sei lá onde, a pensar que eu poderia querer estar com a tua irmã e não contigo! ... Para Alice! Por uma vez na tua vida, para! Tu não te podes culpar por uma merda que tu não fizeste. Não eras tu que ias a conduzir aquele carro, também não foste tu que saíste de casa depois de teres insultado a tua irmã e muito menos foste tu que fizeste com que toda esta porcaria acontecesse. Pela primeira vez na minha vida dei por mim a querer que a tua irmã ficasse bem, mas eu não quero saber dela Alice, não quero mesmo, eu só quero é que tu fiques melhor!
- Mas eu estou bem!
- Caramba Alice tu não estás bem porra! - vociferei, levantando-me da cadeira e batendo com os punhos na mesa.
- Henrique... - sussurrou ela.
- Eu não quero saber se estou a gritar, nem se está toda a gente a olhar para mim! Alice acorda, tu não és nenhuma super heroína, tu não tens a responsabilidade de salvar o mundo, muito menos tens a culpa do que acontece nele... Já pensaste que te estás a prejudicar!?
- Já Henrique! Já pensei nisso mil e uma vez, mas ela é minha irmã, ela vai ser sempre a pessoa que esteve a meu lado para tudo...
- Até mesmo para te fod...
- Sim, até mesmo para isso! - porquê que ela nunca me deixa acabar as frases!? - Eu não quero saber se ela me magoa ou não, muitas vezes, são momentos como estes que acabam por mudar a pessoa.
- Eu duvido muito que a Inês...
- Alice! - uma voz soou do início do corredor. Mas porquê que nunca me deixem acabar de falar caramba!?
O palhaço de bata branca decidiu aparecer finalmente. Não me cabe na cabeça o facto de não ter deixado a filha subir para ver a irmã, nem o facto de nos ter deixado dormir na sala de espera do hospital.
A Alice levantou-se apressadamente e saiu da zona de refeições, o olhar dela assim que viu o pai passou de triste, para revoltado, penso que nunca a vi assim, nem mesmo quando andou à porrada com a irmã.
Levantei-me e fui atrás dela, mas ele segurou-me no braço impedindo-me de a alcançar.
- Largue-me! - gritei.
- Fala baixo! - sussurrou ele aproximando-se de mim.
- Você não me dá ordens! - continuei eu tentando retirar o meu braço do seu aperto. - Largue-me já disse!
- Podes ir dizer à Alice que a irmã dela já acordou... Ela pode subir.
Olhei para ele e os seus olhos estavam fixados nos meus, as lágrimas iam inundando-os cada vez mais.
- Já me pode largar!? - perguntei mais calmo.
A sua mão deixou o meu braço lentamente e eu dirigi-me ao corredor que me levava à entrada, assim que me aproximei da porta, voltei-me para trás e disse:
- Não é com atitudes desse género que vai voltar a juntar a sua família, se continuar a agir assim, vai acabar por perdê-la, às duas.
- Henrique!?
- Hum...
- Toma conta da Alice.
Mal acabou de proferir estas palavras, o pai da minha namorada seguiu pelo corredor, que, provavelmente, o levava até ao seu consultório.
O que quererá ele ter dito com aquilo? "Toma conta da Alice". Eu tomo sempre conta da Alice, eu estou sempre a pensar na Alice, ultimamente, para todo lado que vou é nela que penso, parece que ela me persegue de qualquer maneira.
- Henrique!?
- Anh!? - estou parado no meio do corredor de um hospital a olhar para o nada e só agora é que me apercebi disso.
- Estás bem? - perguntou-me a Alice enquanto se aproximava.
- Sim, sim vamos vê-la?
- Anh!? - ela parece perdida. Oh, claro que está perdida, eu ainda não lhe disse o que o pai dela me pediu.
- O teu pai disse que já podemos subir...
- A sério!?
- Sim, vá vai lá! - incentivei eu.
- E tu? - eu não quero ver a Inês, sinceramente pouco me importa como ela está, desde que já tenha acordado por mim tudo bem, mas não posso dizer isto desta maneira à Alice, ela ficaria chateada comigo.
- Eu prefiro ficar cá em baixo, a minha mãe também deve estar preocupada comigo, estou cheio de chamadas não atendidas dela e ela deve estar quase a entrar para o trabalho também.
- Eu já percebi Henrique, se não queres ir prefiro que me digas, eu não vou ficar chateada por não quereres subir, eu sei que tu não...
- Alice não é nada disso, é só que este é um momento de família e eu só iria atrapalhar. - bem, pelo menos isto não é mentira.
- Tens a certeza de que é só isso? - Não!
- Sim! Vá, vai lá antes que ele se arrependa!
- Até já! - disse ela aproximando-se de mim e dando-me um
beijo.