Capítulo 63
ALICE
O lanche que o Henrique trouxe estava maravilhoso, morangos são, sem dúvida alguma, a minha fruta favorita. Quando vivia no Algarve, eu e os meus amigos costumávamos passar o verão na praia, e eu levava, quase sempre, um recipiente com morangos e açúcar para o lanche. Conversamos bastante enquanto comíamos, ele tentou desviar-me de todos os meus pensamentos antigos, de todos os problemas e realmente conseguiu. Finalmente passei um fim de tarde sem rever mentalmente a imagem da mensagem no telemóvel do meu pai, sem imaginar a minha irmã ser atropelada, mas sei que assim que ele for embora tudo irá voltar para me derrubar pedacinho a pedacinho.
O Henrique acabou por ficar cá a jantar, o meu pai ainda tentou cozinhar, mas, acabamos mesmo por encomendar uma pizza da "Pizza Hut", a minha favorita.
Não tivemos os melhor jantar do mundo, mas a televisão da cozinha criava um som ambiente que era o único a ser ouvido.
O Henrique não me contou da sua conversa com o meu pai, ambos se fecharam em copas e isso assusta-me um pouco realmente, mas, achei melhor não insistir no assunto, se tivesse algo a ver comigo provavelmente ele dizia-me. Dizia?
Assim que o meu namorado foi embora, eu e o excelentíssimo doutor Daniel fomos arrumar a cozinha, para quem encomenda comida de fora, conseguimos criar uma extrema desarrumação.
- Alice!?
- Sim?
- Eu vou para o hospital, vou passar a noite com a Inês, talvez haja algo que eu possa fazer lá.
- Sim, tudo é melhor do que estar aqui em casa. - eu não consigo deixar de pensar nela, como estará? Será que já acordou do coma?
- Tu não vens!
- Como? - respondi indignada. Ele não tem o direito de me dizer se vou ou não para o hospital, se posso ou não apoiar a minha irmã.
- Não é um bom ambiente filha, tu ficas melhor aqui em casa, podes chamar alguma amiga se quiseres...
- Tu estás a gozar comigo de certeza! - vociferei interrompendo-o.
- Alice!
- Alice nada! A minha irmã está em coma numa cama de hospital e tu esperas que eu fique aqui em casa parada!? Eu não sou como tu! Se não tivéssemos discutido e eu lhe tivesse batido, tudo estaria bem, ela estaria bem! Eu não a vou deixar sozinha agora! - os pratos que anteriormente estavam nas minhas mãos, agora estão espalhados por cima da mesa de jantar, não consegui conter a minha raiva atirando-os e fazendo cair os talheres e as bordas da pizza.
- Tu bateste na tua irmã!? - perguntou o meu pai, o seu rosto apresentava uma expressão de dúvida, mas ao mesmo tempo estava chateado, conseguia perceber isso, mas não me importava de todo.
- Foi algo mútuo! Por favor, não finjas que te preocupas agora! Eu vou para o hospital!
- Mas não vais para lá fazer nada Alice! Tu não podes ajudar neste situação! - o meu pai respondeu-me calmamente, mas o que disse, fez com que eu me sentisse ainda mais revoltada.
- E tu podes!? Podes fazer alguma coisa pela tua filha!? Ou vais fazer o mesmo que fizeste pela tua mulher... Nada!?
Tenho noção do que acabei de dizer, não o devia ter dito, mas, precisava de o fazer. De repente, a mão cuidada, mas pesada do meu pai estala com força sobre o meu rosto. Ele bateu-me!?
- Tu não me voltas a faltar ao respeito Alice! - gritou ele em lágrimas.
Não respondi, mantive-me no lugar com a mão a tapar a minha bochecha, que penso estar completamente vermelha. A dor que sinto no rosto, não se compara, de maneira alguma, à que sinto no coração. Não consegui chorar, nem uma lágrima saiu.
Passado algum tempo, ouvi a porta da entrada bater, ele deve ter ido para o hospital. Não vou ficar em casa, não posso torturar-me desta maneira.
Corri até ao meu quarto e peguei no meu telemóvel, o Henrique atendeu ao segundo toque.
- Olá linda, o que se passa?
- Preciso do teu carro! - exclamei.
- Anh? Para quê que precisas do carro!? - ouvi-o levantar-se da cama e sei perfeitamente de que está a deslocar-se até à janela para tentar ver-me.
- Preciso de ir para o hospital Henrique! - a minha voz começou a fraquejar e o meu corpo a tremer, penso que se não estivesse deitada na cama, provavelmente, deixava-me cair no chão enquanto escorregava pela parede.
Quando era pequena, sempre que a minha irmã me fazia chorar, eu deitava-me no tapete do meu quarto e brincava com as fibras salientes até me acalmar, até hoje, nada mudou.
- O teu pai!? - perguntou ele, sei que está preocupado, a sua voz muda automaticamente.
- Saiu, foi para lá! Ou talvez não, talvez tenha ido para um bar qualquer meter-se com algumas mulheres casadas!
- Alice!
- Preciso de ir para o hospital Henrique! Preciso de ir ver a minha irmã!
- Okay! Dá-me só cinco minutos para avisar os meus pais e já vou aí ter!
Desliguei imediatamente a chamada.
A noite está fria, talvez as minhas jardineiras brancas não sejam a melhor escolha para sair. O Henrique disse que demora cinco minutos, mas se for como hoje à tarde, talvez ainda espere bastante tempo. Decidi colocar uns jeans de ganga e uma camisola amarela, fina de manga comprida da Zara, a minha irmã adora esta camisola. Será que devo levar-lhe alguma coisa? Vi num filme, que quando as pessoas estão em coma, mesmo que não reajam, elas conseguem ouvir-nos, talvez se eu lhe levar as músicas favoritas dela, pode ser que ela acorde!
Corri até ao quarto da Inês e peguei no seu computador, sei que ela tem uma pasta com as suas músicas preferidas, ela coloca-as sempre nas alturas quando estamos em casa. Peguei no computador e nuns headphones e coloquei-os na minha mochila.
Ouvi a buzina no Mercedes do Henrique, penso que, desta vez, foram mesmo cinco minutos. Desci e dirigi-me ao carro.
- O que se passa Alice!? - perguntou-me ele, mal fechei a porta.
- Nada, eu só preciso de ir para a beira dela. - respondi calmamente. A minha voz está baixa, trémula.
- Tu não estás bem, eu sei que não estás. - continuou ele colocando a sua mão em cima da minha perna.
- Podemos só ir para o hospital... sem falar... por favor! - pedi. Não olhei para o meu namorado, as ruas escuras de Lisboa ocuparam o meu campo de visão durante toda a viagem.
Assim que chegamos ao hospital, dirigi-me à senhora que está atrás do balcão.
- Boa noite, eu sou irmã da Inês Ribeiro, ela foi atropelada na noite passada e está em coma.
- Vocês são mesmo idênticas, são gémeas verdadeiras!? - perguntou a rececionista.
- Sim. Posso subir para ir ter com a minha irmã!? - insisti. O Henrique manteve-se atrás de mim. A sua altura é percebida pela rececionista que me pergunta.
- São irmãos também!?
- Eu sou o namorado dela! - respondeu o Henrique por mim. Estou a ficar um pouco farta de tantas perguntas.
- Ah, mas a menina não é muito nova para namorar?
- A senhora importa-se de parar de meter o nariz onde não é chamada!? Ela perguntou-lhe se podia ir ver a irmã! Podemos subir ou não!? - vociferou o Henrique batendo com a mão na bancada.
- Mas que insolência! - gritou a mulher de idade.
- Eu não vou voltar a perguntar! Podemos subir ou não!? - continuou ele.
Porém, a mulher ignorou-o, e virando-se novamente para mim disse-me:
- Recebi ordens para não a deixar entrar menina Alice. O seu pai acha melhor que não suba.
- Como!? - protestei eu.
- Talvez seja melhor assim, estes ambientes não são nada bons para si! Vá para casa menina, se tivermos mais alguma notícia, eu mesma me encarregarei de lhe avisar.
- Não, isto não me está a acontecer! - exclamei colocando as mãos na
cabeça e voltando-me para o Henrique, que de imediato me agarrou.