Capítulo 43
Depois de desligar a chamada com o Henrique, continuei a pintar até à hora do almoço, o meu pai ligou ainda há pouco para casa e avisou que viria almoçar connosco, algo que já não acontece faz tempo. Acabei o girassol que estava a desenhar numa folha de papel A3 e fui até à cozinha ver o que a Rosa estava a preparar.
- Olá menina Alice, é a Alice, não é? - perguntou-me ela confusa. Acho imensa graça ao facto de as pessoas novas na minha vida não conseguirem distinguir-me da minha irmã.
- Sou eu sim Rosa, como é que adivinhou? - respondi eu numa tentativa de fazer uma piada.
- Bem, a menina Inês é um pouco mais extravagante que a Alice, mas neste momento, consegui perceber pela pintura facial. - alegou ela rindo com leveza.
- Pintura facial!? - exclamei eu dirigindo-me ao espelho do hall de entrada. - Oh que parvoíce, sou mesmo desastrada! - afirmei rindo-me e voltando para a cozinha. - Antes de ir tomar banho gostava de saber qual é o petisco que nos vais preparar hoje!
- Arroz de pato, a comida preferida do doutor! - confirmou ela mostrando-me o pírex no forno.
- Nham nham, que saudades que tenho de comer um bom arroz de pato, já nem me lembro da última vez que isso aconteceu, veja lá.
- Não se preocupe menina, sou conhecida pela melhor cozinheira de arroz de pato dos arredores, bem, pelo menos é o que dizem os meus filhos.
Sorri para a Rosa que continuava a preparar a salada e voltei para o primeiro andar, preciso mesmo de um banho, a minha cara parece uma tela do Picasso.
Tomei um banho rápido, sabia que não podia demorar muito, pois o meu pai estava quase a chegar e tinha de ir almoçar, saí da casa de banho e voltei para o quarto de roupão. Estou indecisa com a roupa que vou levar logo, não sei se levo o vestido preto justo ou o branco que comprei em Belém, já não o uso há algum tempo, talvez desde o incidente com a minha irmã. Acabei por vestir um fato de treino cinzento da "adidas" para passar a tarde, logo decido que roupa vestir para a discoteca.
- Alice vem almoçar, o pai já chegou! - gritou a Inês do corredor.
- Já vou! - respondi no mesmo tom. Ela deve ter chegado há pouco do seu passeio matinal com o Enzo, eles costumam ir dar uma voltinha pelo jardim em frente à pastelaria até que chegue a hora de ele pegar ao trabalho.
Desci as escadas ainda com o cabelo molhado, o que me causou arrepios, pois a porta para a piscina estava aberta e hoje não está um dia propriamente quente.
- Menina Alice, agasalhe-se, está muito frio para vir para baixo com o cabelo molhado! - exclamou a Rosa.
- Não se preocupe, no fim do almoço eu vou secar o cabelo.
- Olá meninas, como foi essa manhã!? - perguntou o meu pai entrando na cozinha.
-Foi boa pai, passada a sonhar com o Noah Centineo! - respondeu a Inês com um ar de troça. O meu pai não sabe que a Inês e o Enzo namoram, penso que só eu e a Rosa é que sabemos, ela tem medo da sua reação.
- Querida eu acredito que sim, mas não faço ideia de quem é esse rapazote, ainda se estivesses a sonhar com a Julia Roberts eu compreendia! - gracejou ele de volta.
- Vá meninos, todos para a mesa! - ordenou a Rosa com a sua voz doce.
O almoço estava fantástico, começo seriamente a acreditar que os filhos da Rosa têm razão no que diz respeito a ela ser a melhor cozinheira dos arredores, para além disso, eles também são uns sortudos por terem a mãe presente nas suas vidas, já eu não posso dizer o mesmo.
No fim do almoço, o meu pai contemplou-nos com a notícia de que iria ficar a trabalhar até tarde, o que já não me faz diferença, ele nunca está presente. Acabo por ficar contente com o facto de ele não estar em casa esta noite, é sinal de que não preciso de pedir à Inês para me cobrir para eu poder sair com o Henrique.
Voltei para o meu quarto, ainda tenho de secar o cabelo, mas atrás de mim veio a minha irmã.
- Alice, vais sair hoje à noite!?
- Sim, vou com o Henrique a uma discoteca, não me lembro do nome...
- Ei a sério!? Eu e o Enzo também podemos ir? Não precisamos de estar sempre juntos tipo saída de casais, mas, pelo menos, ir até à entrada com vocês...
- Claro que sim, não vejo porque não! - exclamei eu. A minha irmã tem todo o direito de passear comigo.
- Mas e o Henrique? Será que ele se vai importar com a minha presença?
- Inês, não te preocupes com o Henrique, daqui a pouco digo-te a que horas vamos.
- Perfeito! Obrigada mana! - exclamou a minha irmã dando-me um beijo na bochecha e sentando-se na minha cama.
- O que foi? - perguntei eu olhando para ela na esperança de que ela me explicasse porquê que ficou no meu quarto.
- Então, o que vais vestir logo? - Ela parecia animada.
- Ainda não sei, talvez leve o vestido branco...
- Ai Alice, sempre a mesma coisa, não achas que devias levar algo mais arrojado? É uma discoteca não um almoço de família.
Por um lado, sabia que ela tinha razão, mas eu não sei mesmo o que levar, até porque não tenho muitas roupas arrojadas, como ela diz, nem me sinto muito confortável com grandes decotes.
- Anda, vamos para o meu quarto! - exclamou ela puxando-me pela mão em direção ao seu espaço.
- Inês...
- Shhh, vais ficar linda vais ver, eu prometo não exagerar muito! - assegurou-me ela sentando-me na cadeira em frente ao toucador.
Começou por abrir o roupeiro e atirar várias peças de roupa para a cama, parecia não se conseguir decidir, sinceramente, não sei se está a ver o que ela vai usar ou o que eu vou usar.
- Ainda demoras muito? - perguntei impaciente.
- É isto mesmo! Olha, vê lá se não é lindo! - exclamou, mostrando-me um vestido preto brilhante, tem um decote um pouco grande e para além de ser justo é um bocado curto.
- Hmm, eu não sei...
- Vá lá Alice, pelo menos experimenta-o!
- Okay...
Fiz-lhe a vontade, retirei o fato de treino do corpo e
vesti o pequeno pedaço de tecido que ela me deu para as mãos.