Capítulo 62
ALICE
Depois de desligar a chamada com o Henrique voltei a colocar os fones, a música é a única coisa que me tem mantido minimamente bem ultimamente, uma playlist melancólica do Spotify tem sido a minha melhor companhia. É estranha a sensação de ficar melhor ao ouvir pessoas e parecem estar piores do que eu.
Enquanto ouvia o Bruno Mars dizer que era capaz de apanhar uma granada por uma rapariga estúpida que não quer saber dele, apercebi-me de que o Henrique nunca mais chegava, ele disse que demorava cinco minutos, mas pela quantidade de músicas que ouvi, já devem ter passado uns trinta.
Estou a ficar com fome, acabei por não almoçar quase nada, a Rosa foi dispensada hoje, então, o meu pai tentou cozinhar uma lasanha pré feita, porém, digamos que ela ficou demasiado tempo dentro do forno.
Decidi retirar os fones dos ouvidos e ir até à cozinha preparar o lanche, já é quase hora de jantar, mas estou mesmo com fome. Enquanto descia as escadas ouvi alguém a falar dentro do escritório, parecia a voz do meu pai, provavelmente deve estar ao telefone com alguém do hospital, ou talvez com a Tânia. Será que ele me mentiu e não acabou a relação que mantinha com ela? Será que já sabe alguma coisa sobre a Inês?
Tentei ignorar a minha impulsão de correr até à porta do escritório e dirigi-me rapidamente até à cozinha. Se for algo relacionado com a minha irmã de certeza que ele me dirá mal acabe a chamada, ou lá o que quer que seja que ele está a fazer.
É nestes momentos que consigo perceber a importância da Rosa nesta casa, provavelmente, se ela cá estivesse trazia-me o lanche ao quarto, por ter visto que já estava há muito tempo sem comer, ou chamar-me-ia para a cozinha, para que não sujasse nada lá em cima. Peguei num iogurte líquido e fiz uma sande mista, espero que seja o suficiente até chegar a hora de jantar e o meu pai se preparar para fazer mais algum dos seus brilhantes cozinhados, talvez seja melhor pedir-lhe para encomendar uma pizza, ou algo do género.
- Irmã o quê!? - ouvi alguém gritar. Esta voz não me é estranha, só pode ser ele. Mas o que estará o Henrique a fazer dentro do escritório com o meu pai? Do que será que estão a falar? Será que é algo sobre mim? Será que o meu pai lhe está a ameaçar com algum tipo de mentira inventada na hora só para o assustar? Ele não ficaria com medo, provavelmente ainda se iria rir na cara do meu pai, o que, na verdade, me agrada bastante. Prefiro um rapaz com personalidade forte e tenho a certeza de que o Henrique é assim. Lembro-me de quando revelei ao meu pai a minha relação com o Tiago, fomos alvo de um relatório intensivo, mas no fim o meu pai quis falar apenas com o meu namorado, o que me deixou um pouco constrangida e envergonhada. Quando saíram do escritório da minha casa antiga, o Tiago estava pálido e a suar, ele não tinha nem tem a coragem do Henrique, eles são totalmente polos opostos.
Não consegui conter a minha curiosidade desta vez, dirigi-me à porta e mantive-me lá, na esperança de ouvir alguma coisa.
- Henrique eu não estou a perceber porquê tanto espanto. - dizia o meu pai.
- Você está a gozar comigo! Isso é impossível! - qual será o tema da conversa? Estou a ficar ansiosa com tantas incertezas.
- Tu não sabias!?
- Eu não sabia, nem sei! Isso é impossível, já disse! - gritava ele.
- É verdade Henrique, podes confirmar com a tua mãe! Eu compreendo que não acredites em mim, mas ela nunca te iria mentir em relação a este assunto. - não consigo perceber que assunto é este, mas não parece ter nada a ver comigo. O que terá a Melany a ver com tudo isto.
- Você é louco! Elas não são sequer parecidas!
Neste momento a curiosidade já está a matar-me, eu tenho de entrar neste escritório e entender o que raios se está a passar. Abri a porta de rompante e fechei-a atrás de mim depois de já estar dentro da luxuosa e desnecessariamente grande divisão.
- Alice! - exclamou o Henrique, enquanto se virava na cadeira rapidamente. O seu rosto estava pálido, parecia que tinha visto um fantasma.
- O que se está a passar aqui!? - perguntei com os braços cruzados. Talvez pareça demasiado autoritária, mas não gosto quando eles os dois estão juntos, principalmente quando estão a falar de algo que eu não sei. Eu nem sabia que ele já tinha chegado.
- Estava a conversar com o teu amigo. - respondeu calmamente o meu pai por detrás da secretaria de madeira de carvalho maciça.
- Namorado! - vociferou o Henrique encarando-o. Ele tem vindo a mostrar ser uma pessoa bastante emotiva, mas ao mesmo tempo, pouco confiante. Tenho a certeza de que o meu pai sabe que namoramos, eu nunca lhe disse propriamente, mas, depois de tudo isto é natural que já se tenha apercebido. Porém, o Henrique fez questão de afirmar isso, de se afirmar perante o meu pai. Não sei porque faz isso, nem se é intencional, mas não me importo, sinceramente, gosto de o ver tão empenhado na relação, nunca esperaria isso daquele palerma, que se apresentou, de forma inesperada, para as novas vizinhas.
O silêncio manteve-se durante alguns segundos, a falta de resposta por parte do meu pai era notória.
- Ainda ninguém me respondeu! - afirmei quebrando o silêncio.
Olhei para ambos e reparei numa troca de olhares momentânea, não estou a gostar desta situação, o que estarão eles a esconder-me.
- Henrique! - exclamei.
- Sim?
- Estavam a falar de quê!? - a minha voz soou extremamente autoritária e com um certo tom de repulsa.
- Nada de importante! Vá, vamos embora! - ordenou ele pegando na minha mão e levando-me consigo para fora do escritório. Aquela divisão parecia diminuir a cada palavra proferida por algum de nós, estava um ambiente demasiado tenso para não ter sido nada relevante, se não fosse importante ele não sairia desta forma, nem tentaria desviar o assunto de uma maneira tão brusca.
Subimos as escadas ainda ligados, a sua mão estava encharcada e, apesar de isso me fazer imensa confusão, não tive coragem de o largar, ele está visivelmente nervoso e eu detesto quando isto acontece, sinto que não sei como reagir, nunca me relacionei com alguém como o Henrique, uma pessoa impulsiva e arrogante, mas ao mesmo tempo doce e apaixonado, portanto para mim tudo isto é novo. Sinto que talvez a sua personalidade tenha mudado bastante desde que aquela porca da Vitória lhe fez aquilo. Que nojo, sempre que me lembro da história o meu estômago dá duas voltas.
Assim que chegamos ao terraço e a brisa do fim da tarde bateu no meu rosto lembrei-me de há quanto tempo não venho cá acima. As minhas telas continuam junto aos sofás do lado do cavalete, nem lavei os pincéis desde a última vez que pintei, o quadro ficou mesmo bom, penso que foi dos que mais gostei de pintar. Desenhei a janela do Henrique com a sua sombra por detrás das cortinas, enquanto o via sentado na sua secretária, mas nunca lhe cheguei a mostrar, tudo se sobrepôs a mim e às minhas coisas, tantos problemas de uma só vez...
- Alice!
- Anh, diz?
- Onde estavas? - perguntou ele já sentado no sofá preto. Só agora me apercebi de que ainda estou de pé a olhar para o cavalete vazio.
- Estava distraída, desculpa, o que estavas a dizer!?
- Eu não falei, mas aposto que consigo adivinhar no que estavas a pensar.
- Aposto que consegues! - respondi corando um pouco.
Sentei-me a seu lado e abracei-o colocando os meus pés em cima do sofá, adoro colocar-me nesta posição com ele, receber carícias no cabelo e sentir o seu perfume.
- Eish, esqueci-me de uma coisa lá em baixo! - disse ele repentinamente assustando-me.
Não tive reação, apenas limitei-me a esperar pelo desenrolar da frase.
- Espera um minuto, eu já volto!
- Um minuto mesmo!? - perguntei na brincadeira.
- Um minuto mesmo!