Capítulo 7
A verdade é essa, eu não posso considerar aquele rapaz convencido e dissimulado como um amigo, ele é ridículo, quando pensamos que podemos realmente encontrar uma pessoa decente para partilhar emoções e sentimentos deparamo-nos com rapazes como ele, que só pensam em conseguir o máximo de raparigas possíveis para engrandecerem o seu ego.
- Alice estás aí? - perguntou o Tiago do outro lado da linha. Não ouvi nada do que ele disse, mas não quero pedir para que repita, não quero que pense que não o estou a ouvir e sim a pensar no quão estupida sou por acreditar em farsas como o Henrique.
- Sim, estou a ouvir-te! Mas bom o que tens feito?
- Alice eu acabei de te dizer que hoje fui aprender a surfar com um amigo do Afonso. Estás bem?
- Estou, é só que estou cansada e com sono, hoje fui visitar Lisboa e isso deixou-me de rastos. - olho por instantes para a casa do Henrique, vejo que se acende a luz numa janela, provavelmente alguém acordou. - Importas-te que me vá deitar? - na verdade não vou, mas não sei o que lhe dizer e sinceramente não me apetece falar com ninguém.
- Claro que não, vai lá! Espero pela tua chamada amanhã?
- Sim, amanhã eu ligo-te!
- Boa noite então! - ouvi ele sussurrar a palavra "amo-te", mas não retribui. Foi ele quem acabou comigo, e eu ainda gosto dele, mas não posso deixar que esse sentimento cresça ainda mais, temos que continuar apenas com a boa amizade. Foi ele quem quis assim.
- Boa noite.
Assim que desliguei a chamada, voltei a olhar para a janela, a luz continuava acesa, porém, desta vez, um vulto passou por detrás dela e parou. De quem será aquele quarto? O que estará a fazer?
Deixei a minha pintura a secar, não ficou algo estonteante, mas eu gostei do resultado, desci as escadas dirigindo-me ao meu quarto e oiço a porta da entrada a abrir. Não posso deixar que o meu pai perceba que ainda estou acordada a esta hora, ele vai matar-me se descobrir. Corro na ponta dos pés até ao meu quarto e deixo a porta encostada para que não haja qualquer tipo de ruido que o faça entender que a sua filha de quinze anos ainda está a pé à meia noite e meia.
- Alice, Inês? Anda, elas já estão a dormir! - murmurou o meu pai. Quem é que está com ele e porquê que eu e a minha irmã temos de estar a dormir para que esta pessoa possa subir? Oiço uns sapatos de salto alto pisarem o soalho e de seguida são retirados, um riso de mulher atravessa a porta do meu quarto. Uma mulher aqui? Porquê que as vozes estão a ir em direção ao quarto do meu pai?
No dia em que a minha mãe morreu, só eu e a minha irmã estávamos em casa, o meu pai chegou horas mais tarde, disse que tinha acabado de chegar de um congresso. Ainda tentamos reanimá-la eu e a minha irmã eramos pequenas tínhamos seis anos, para duas crianças indefesas aquilo foi um choque. O meu pai chamou o ambulância, fizemos tudo o que pudemos, mas ela não resistiu. No dia do seu funeral, o meu pai perguntou-nos o que achávamos da ideia de ter uma madrasta, mas tanto eu como a minha irmã dissemos que não queríamos ninguém. Pensando bem, isso não é uma pergunta para se fazer no dia do funeral da própria esposa.
Talvez esta mulher seja a madrasta à qual o meu pai se referia. Passaram-se vários anos, eu e a minha irmã sempre passamos muito tempo sozinhas enquanto o meu pai trabalhava para nos sustentar, criar duas filhas, ainda por cima gémeas, sozinho não é nada fácil, talvez seja bom para ele encontrar alguém, pode ser que seja uma boa mulher que o apoie.
Com estes pensamentos fui adormecendo, sonhei com a minha mãe nessa noite, ela estava incrível, os seus cabelos loiros esvoaçavam com o vento e a maresia, estávamos na praia onde costumávamos ir lá no Algarve, só eu e a minha mãe. Quando acordei, senti uma paz interior fantástica, é bom poder ver o seu rosto, recordar o seu toque e a sua voz, mesmo que seja só em sonhos.
Vesti o meu roupão e fui para a cozinha tomar o pequeno almoço, assim que desci as escadas, o meu pai estava à porta a despedir-se da tal senhora, não lhe vi a cara, mas parecia uma mulher alta e magra, de cabelos pretos.
- Alice, que susto que me pregaste!
- Porquê pai? Quem era aquela mulher? - o meu pai ficou sem palavras, no meio do gaguejar disse-me que era uma colega de trabalho que precisava de ajuda, os pais faleceram há pouco e ela estava muito triste, por isso ele trouxe-a para conversar aqui a casa e ela acabou por adormecer no sofá.
Eu nunca pensei que o meu pai me fosse mentir desta maneira, eu ouvi os risinhos ontem no corredor, a mulher não estava triste e muito menos havia dormido no sofá, eu ouvi-os a trancarem a porta do quarto. Porque será que ele me está a mentir? O que esconde?
- Bom dia família! - berrou a minha irmã enquanto se dirigia para a cozinha.
- Bom dia filha, estás muito contente hoje.
- É, acordei assim, Lisboa afinal não é tão má como pensava! - o que será que aconteceu a noite passada? A Inês tem um acordar péssimo e para hoje ter acordado bem-disposta algo aconteceu, só espero que não esteja relacionado com o senhor convencido.
- Posso saber a que se deve tanta felicidade matinal? - perguntou o meu pai enquanto preparava as torradas. Será que ela lhe vai contar que foi sair com o Henrique à noite? Não me parece, porém, quem devia contar era eu, ainda não me esqueci da cena do telemóvel e da queda escandalosa por cima daquela certa pessoa.
A campainha toca.
- Quem será a esta hora da manhã? - perguntou o meu pai.
- Deixa, eu vou abrir. - respondi. Se calhar a sua "colega" esqueceu-se de alguma coisa e voltou para trás.
Direcionei-me para a porta e abria sempre perguntar quem era. Grande erro!
- Bom dia... qual das gémeas és tu?
- Sou a Inês! Olá Henrique! - tentei ao máximo parecer-me com a minha irmã.
- Bom dia Alice! Eu posso ser muito burro, mas tenho a certeza, que a única pessoa que vai dormir com tinta azul na cara és tu! - tinta azul na cara? Olho para o espelho que está no hall de entrada e confirma-se, tenho uma mancha de tinta na bochecha.
- Parece que fui apanhada... - respondi num tom sarcástico.
- Vem cá, deixa que eu tiro essa mancha. - Olhei para cima e vi que ele se aproximava cada vez mais, a sua mão subiu até ao meu rosto e com o polegar ele tocou na minha cara suavemente tentando tirar a mancha. Os meus olhos não conseguiam descolar da sua cara, nunca tinha reparado no quão bonitos são os seus olhos, um castanho caramelo que consegue hipnotizar qualquer pessoa. Depois de me limpar a cara os nossos olhos cruzaram-se e eu inevitavelmente baixei a cara. Senti as minhas bochechas corarem, a pulsação do meu corpo aumentou em segundos. Como é possível ter ficado assim apenas com um toque, ainda por cima um toque do senhor convencido.
- Então quem é? - perguntou a Inês da cozinha.
- Posso entrar Alice? - abri ainda mais a porta para que ele passasse, hoje não estou só eu e a minha irmã em casa, o que quer dizer que ele não vai tentar nada com nenhuma das duas. Penso que o meu pai ainda não o conheceu, também não perdeu grande coisa.
- Bom dia Henrique! Então como estás!? - cumprimentou o meu pai. Mas afinal eles conhecem-se? Bem, parece que me enganei, mais uma vez.