Capítulo 60

HENRIQUE

Saí do hospital sem visitar a Inês, a minha mãe ainda insistiu um pouco, mas, para além de não gostar dela, também não saberia o que lhe dizer enquanto está num sono profundo, exceto a parte de "fica boa de pressa, eu não quero que faças a tua irmã sofrer ainda mais", mas percebi que não seria justo para ela. Talvez até fosse, seria como uma espécie de vingança ou carma, mas eu não acredito muito nessas coisas.

Gostava de saber como é que correu a conversa da Alice com o pai, sei que me excedi um bocado com ele ainda há pouco, mas fiquei mesmo irritado com o facto de ele me ter dito como falar com a minha mãe, pelo menos eu converso com a minha mãe, já ele não se pode dizer o mesmo em relação às filhas. Aquele homem parecia-me muito simpático quando me operou, mas agora percebo que só se conhece realmente as pessoas quando mantemos uma relação minimamente próxima com elas.

- Henrique! - gritou a minha mãe da cozinha. Hoje o dia está um bocado mais frio do que o normal, Agosto está a meio e o frio do outono começa a aproximar-se. - Filho! Henrique, vem cá de pressa! Corri imediatamente pelas escadas, será que aconteceu algo à Alice, será que a Inês... - O treinador está em linha, ele quer falar contigo. - um suspiro de alívio fez-se ouvir assim que desci o último degrau, não pensei que fosse sair tão alto quanto saiu e sei que a minha mãe se apercebeu disso.

Peguei no telefone e disse: - Treinador? Sou eu o Henrique, diga.

- Olá campeão! - ele tem esta mania de me tratar assim, não me importo, mas às vezes é estranho. - Bem, tenho uma grande notícia para te dar e aposto que vais adorar.

- Uma notícia? Vão começar os treinos hoje é!? - perguntei num tom de brincadeira. Os treinos só começam em Setembro e tenho a certeza de que ele agora está de férias em alguma praia ou ilha paradisíaca.

- Nem pensar ahahah, ainda não acabei com as águas de coco todas. A notícia que tenho para te dar é muito melhor do que isso! - ele está animado, consigo perceber pela sua voz. Já o conheço há tempo suficiente para saber quando está contente ou de mau humor, as minhas costas são a prova viva de quando está mal disposto, penso que foram por volta das cem flexões quase seguidas.

- Vá diga lá, deixe-se de joguinhos!

- Lembras-te daquele olheiro que veio assistir a alguns dos nossos jogos?

- Sim. - é impossível não me lembrar disso, ele passou a semana toda a falar no mesmo.

- Eu recebi um mail ainda agora... - detesto estas pausas longas, ele está a deixar-me irritado. - estás curioso!?

- Eu juro que se você não desembucha logo o que tem para me dizer eu mando o piloto do avião...

- Tu foste aceito Henrique! Eles querem que vás estudar para Londres!!

O meu coração começou a bater cada vez mais, eu sempre quis ir para Londres, ou para outro país, eu sempre quis jogar futebol e que as pessoas reconhecessem o meu trabalho. Eu não estou a acreditar no que acabo de ouvir, esta notícia é fantás... Alice! Eu não posso ir, eu não posso deixar a Alice, o que vou fazer? Se isto tudo fosse há uns meses atrás, se ela não fosse ela, se eu não me tivesse apaixonado. Porra, a vida seria tão diferente agora! Estou perdido e não sei que caminho seguir, adorava ir jogar para lá, aprender tudo com os melhores, mas não quero ficar sem ela, não consigo estar longe dela. Não sei o que fazer.

- Henrique!? Então, aceitas!?

ALICE

O meu pai olhou para mim de cima a baixo, parecia que não me reconhecia, como é que um diagnóstico é capaz de mudar tanta coisa.

- Epilepsia Alice? Mas como é que sabes disso? Quem é que te disse isso? O que aconteceu?

- No dia em que eu te vi com a... Nessa noite eu dormir em casa do Henrique...

- Onde? Com quem!?

- Mas isso interessa para alguma coisa agora pai, interessa por acaso!? Escusas de tentar parecer um pai defensor, chega de farsas!

- Tens razão Alice, não importa, mas agora eu vou ser um pai defensor sim, não penses que vou deixar que algum miúdo te magoe.

Revirei os olhos e continuei a contar a história, não vale a pena insistir mais com ele, só espero que cumpra mesmo com o que está a dizer.

- A meio da noite eu levantei-me com sede, mas, assim que coloquei os pés no chão, deixei de ver o quarto, só conseguia ver manchas pretas e a partir daí não me lembro de mais nada. Acordei com a Melany a dar-me água, o meu corpo estava fraco, parecia que não me conseguia mexer. No fim, depois de recuperar a Melany chamou-me à parte, ela disse-me o que pensou ser aquele ataque e pediu-me para fazer análises, ainda não as fiz, não tive coragem e decidi que tu deverias saber, por isso esperei.

- Epilepsia! - o seu rosto desvanecido continuava a olhar para mim.

- Foi por isso que ela morreu não foi? Foi um ataque epiléptico.

- Foi diferente filha, a mãe tinha crises muito regularmente e os medicamente não faziam efeito. O que acontece é que os dois hemisférios cérebro são afetados e então o corpo fica rígido e as pessoas costumam espumar pela boca, na maioria dos casos, as pessoas acordam sem se lembrarem de nada e acabam por ficar bem depois, mas no caso da mãe foi diferente, no fim da crise ela não conseguia respirar e então o coração deixou de ter oxigénio suficiente, foi por isso que ela não resistiu. Contigo é diferente filha.

- Como é que podes ter tanta certeza de que é diferente? - lágrimas começam a escorrer pelo meu rosto e o meu queixo começa a tremer, não de frio, mas com os nervos.

- Temos de fazer exames primeiro Alice, não podemos fazer juízos de valor ou tirar conclusões precipitadas.

- Mas e se...

- Não penses nisso agora, amanhã vamos ao hospital ver a Inês e eu falo com o meu colega para que ele te faça os exames, não te preocupes, vais ver que vai correr tudo bem. - o meu pai está a ser tão calmo agora, nem parece que há alguns minutos atrás estávamos a discutir. Talvez as relações familiares sejam assim, as discussões passam rápido e o amor prevalece, pelo menos eu espero que seja assim.

Ele abraçou-me com força, penso que nunca recebi um abraço assim do meu pai, ele não gosta muito de transparecer o afeto que tem pelas pessoas... Deve ser algo comum entre os médicos homens, porque as mulheres tendencialmente são mais afetuosas.

Decidi subir até ao meu quarto e pesquisar um pouco sobre a epilepsia. As imagens não são as mais agradáveis, nem as mais específicas, mas os textos escritos por médicos conseguem ser mais específicos. Ainda só tive uma crise e não me lembro dela, mas certamente não quero voltar a repetir a experiência, eu não quero ter esta doença.

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