Capítulo 59
HENRIQUE
A minha mãe está a demorar demasiado tempo a ligar. Desde que saiu de casa ainda não consegui parar quieto. É nestas situações que sinto falta dos treinos de futebol, no verão é ótimo estar de férias, mas preciso de correr para desanuviar. Até pensei em ir dar uma caminhada, ou ir passear a Megui, mas tenho medo de que a minha mãe ligue para o telefone de casa.
Agora, sentado na minha cama, começo a pensar no que aconteceria se a Inês não ficar bem... não, ela vai ficar bem, ela tem de ficar bem!
É estranha esta sensação, eu não quero que ela fique bem por ela, não mesmo, o meu grande problema é a Alice. Não me importo de ser julgado como o mau da fita nesta situação, eu só não aguentaria ver a minha namorada perder mais uma pessoa, não suporto que ela sofra, porra, eu não consigo vê-la triste.
Já se passaram mais de quatro horas desde que estou sentado a ler, este é um livro ao qual não estou acostumado, na realidade nunca li nada parecido. Foi a Alice quem mo emprestou e disse que foi das histórias mais bonitas, mas ao mesmo tempo, mais estranhas que leu. Pelo que me deu a entender, esta é a história de uma rapariga parva que decide enviar uma carta por email à melhor amiga, a carta está repleta de coisas que supostamente ninguém sabe nem deve saber, mas acaba por ser mandada para todos os contactos da sua lista. Posso dizer que está a ser interessante, a história e as personagens conseguiram prender a minha atenção, mas não por muito tempo, a Alice não me sai da cabeça e "O Fio da Felicidade" não me afasta destes pensamentos.
Eu tenho de ir ao hospital, já não aguento mais esta espera sufocante.
ALICE
Assim que a mãe do meu namorado se aproximou, o meu pai imediatamente tentou mudar de assunto. O que estará ele a tentar esconder? Será que a mãe do Henrique sabe? O Henrique ter-lhe-ia contado? Não, ele prometeu-me que iria guardar segredo. Não consigo perceber.
- Então, alguma notícia da Inês!? - perguntou a Melany.
- Para já ainda nada. Continua em coma induzido. - respondeu o meu pai.
- Eu tentei vê-la, mas o Joaquim estava lá com ela, estava a confirmar a medicação.
O ambiente está tenso, consigo quase sentir a respiração do meu pai a sair e a entrar pelo seu aparelho respiratório, enquanto observa a Melany.
A mãe do meu namorado é muito querida, ela não gosta de se meter nos assuntos alheios e isso, é só mais uma demonstração da sua grande amabilidade.
De repente vejo uma silhueta alta a aproximar-se de nós. Ainda bem que ele chegou, já não aguentava passar mais um segundo em silêncio.
- Então, como é que estás? - perguntou o Henrique aproximando-se de mim e tentando dar-me um beijo. Afastei-me assim que me apercebi da sua tentativa, não me sinto à vontade para este tipo de cumprimento em frente ao meu pai e à mãe dele, talvez seja uma questão de respeito.
- Estou bem! Ela continua em coma. - é engraçado o facto de ser a minha irmã a pessoa que está em estado grave, mas ele só quer saber de como é que eu me sinto.
- Obrigada pela chamada mãe... - comentou ele num tom irónico.
- Eu acabei de sair da cirurgia filho, não sou nenhuma máquina! Para além disso, parece que não foi preciso ligar-te, já estás cá!
- Claro que estou! Mas se fosse por ti ainda estava em casa! - não gosto de o ver falar assim com a mãe, por muita razão que tenha não é justo para a bondosa senhora. Coloco a minha mão sobre o seu braço e faço um pouco de pressão, espero que ele entenda o que quero dizer.
- Tento na língua rapaz! Ela é tua mãe. - disse o meu pai surpreendentemente.
- E quem é você para me dizer isso!? Um pai ausente que coloca as filhas a cargo de uma empregada? Ou um homem que anda metido com a melhor amiga da falecida esposa!? - vociferou o Henrique.
Naquele momento a sala parecia ter ficado mais fria, todos ficaram estupefactos com o que o meu namorado acabou de dizer, incluindo eu. Não entendo por que motivo ele disse aquilo, talvez um momento de revolta, eu não faço ideia, mas não era suposto, ele prometeu-me segredo. Corri o olhar por todos os participantes da conversa e foquei-o na Melany que, neste momento, estava completamente estarrecida com a novidade e com os olhos vidrados no meu pai.
- Isto que o Henrique acabou de dizer é verdade Daniel!? - exclamou ela. Os seus olhos encontram-se, porém, não por muito tempo, pois, o meu pai baixa imediatamente a cabeça. Porque será que ela reagiu assim?
O meu pai não respondeu, nem à Melany, nem à revolta do Henrique, contrariamente, olhou para mim e pediu-me para que voltasse com ele para casa.
- Ela está comigo! - exclamou o meu namorado de uma maneira protetora. As suas mãos seguravam a minha cintura e o seu peito estava colado às minhas costas.
A altura do Henrique é algo que me fascina e que me deixa completamente apaixonada, ele faz-me sentir protegida assim que se aproxima e me abraça, é algo estranho, mas incrivelmente bom e reconfortante.
- Henrique não te metas filho! - comentou a sua mãe aproximando-se de nós.
- Mas ela não pode ir com ele... depois de tudo...
- Eu vou! - sussurrei eu interrompendo-o. Não sei se todos me ouviram, mas tenho a certeza de que ele ouviu. O seu rosto caiu drasticamente e as suas mãos largaram a minha anca.
- Mas Alice...
- Não te preocupes, eu fico bem. - tentei ser o mais fiel possível à minha expressão, mas tenho medo de não ter conseguido totalmente.
Cumprimentei a Melany com dois beijos no rosto e o mesmo fiz com o Henrique, não foi a nossa melhor despedida, mas não sou capaz de mais.
O meu pai tentou abraçar-me enquanto saíamos, mas eu acelerei o passo deixando-o para trás. Não estou disposta a manter qualquer contacto com ele agora, não consigo esquecer-me da sua falta de palavras quando mencionei a traição. De certa forma, eu esperava que ele fosse negar tudo, esperava que ele se aproximasse de mim e me dissesse que aquilo não passava de uma mera coincidência, coincidência essa que eu não fui capaz de entender, porque tinha apenas dez anos. Mas não, ele não negou, apenas se dignou a baixar a cabeça e permanecer em silêncio. Como costumam dizer, "quem cala consente"!
Depois de guardar o carro na garagem, ambos saímos e aproximamo-nos da porta, começo a pensar que não deveria ter vindo embora, devia ter ficado lá no hospital com a minha irmã, ela precisa de mim.
- Podemos falar filha? - perguntou-me ele baixinho enquanto entravamos em casa.
- Sobre? - respondi de forma bruta.
- Quero explicar-te tudo, acabaram-se os segredos entre nós!
- Okay...
Ele fechou a porta dirigimo-nos à sala, não quero propriamente falar com o meu pai, vou permanecer calada e ouvir tudo aquilo que ele tem para me dizer, é melhor assim. Sentamo-nos no sofá e num instante ele começou:
- No dia em que a tua mãe... no dia em que ela... partiu. Nessa manhã eu tinha acabado de sair de uma cirurgia, estava exausto e precisava de desanuviar um pouco. Decidi ir até a uma pastelaria que ficava lá perto. Quando entrei, vi que a Tânia lá estava e decidi juntar-me a ela, a sua companhia fez-me acalmar, ri-me tanto naquele fim de manhã como já não me ria há imenso tempo. O primeiro beijo surgiu quando nos levantamos, não foi propositado, simplesmente aconteceu e depois disso, foi tudo muito estranho. Quando me ligaste, à noite, eu estava com ela. Fui um palhaço por não ter atendido a chamada, um verdadeiro monstro, mas eu não era capaz de ouvir a tua voz sabendo que estava a trair a tua mãe, fui um covarde. Porra Alice se tu soubesses o quanto eu me arrependi quando cheguei a casa e vi a ambulância à porta. Se tu soubesses o que eu rezei a Deus para que não a levassem, eu prometi tantas coisas, coisas que nem podia cumprir, mas nada disso me valeu. Fui condenado a ver as minhas duas filhas passarem pelo funeral da mãe, mas nem assim consegui estar mais presente para vocês. Alice, eu nunca fui um bom pai, é verdade, nunca soube como lidar com as pessoas, mas também sei que nunca tentei o suficiente. A relação com a Tânia foi-se desenvolvendo, ela ouvia-me e acalmava-me, era como um refúgio para mim, não a amo como amava a tua mãe, nunca vou conseguir igualar isso, nem a amo mais do que a vocês as duas. Mas bom, quero que saibas que já não existe mais nada entre nós, acabou tudo! A partir deste momento eu vou ser um bom pai, vou ser melhor por vocês!
Penso que nunca tive uma conversa tão grande com o meu pai, sei que não foi bem uma conversa, foi mais um monólogo, mas, fui respondendo interiormente a cada frase que ele mencionava.
Não fiquei melhor depois de conhecer a sua história de amor com outra pessoa, mas de certa forma aliviou-me. O meu pai nunca se abriu comigo, ele pouco fala connosco. Tirando as perguntas base como, "Como foi o vosso dia?", ou então "O que fizeram hoje?", ele não diz mais nada. Algumas vezes conta-nos como foi no hospital, fala-nos de alguns pacientes, mas nem eu nem a Inês gostamos de saber dos pormenores nojentos das cirurgias, digamos que, não é agradável estar a jantar e ouvir falar sobre vesículas extraídas, ou varizes salientes.
- Então filha, não dizes nada?
- Eu não sei o que dizer... não sei o que pensar... não é justo bombardeares-me com tanta informação e pedires imediatamente uma resposta. - expliquei eu levantando-me do sofá branco. - estou calma, mais calma do que aquilo que pensava que estaria, mas uma dor de cabeça forte ataca-me repentinamente.
- Tens razão! - exclamou ele levantando-se em derrota e dirigindo-se às escadas.
- Espera pai...
- Sim? - o seu corpo virou-se rapidamente na minha direção. Começo a ficar receosa se lhe devo contar ou não.
- Eu... eu tenho epilepsia.