Capítulo 58

HENRIQUE

Acordei com o braço dormente na manhã seguinte, a cabeça da Alice ficou depositada em cima de mim provavelmente toda a noite. Não a quero acordar, ela está a dormir tão bem, mas preciso mesmo de me mexer. As bochechas dela estão rosadas, talvez seja do calor, os cabelos castanhos ainda cobrem metade do seu rosto e por isso eu desvio-os um pouco para conseguir vê-la totalmente.

- O que estás a fazer? - sussurrou ela sonolenta ainda com os olhos fechados.

- Estou com o braço dormente, não te queria acordar, mas preciso mesmo de me mexer.

- Desculpa! - exclamou ela enquanto se sentava na cama.

- Não faz mal Alice! Não me importo nada de acordar todos os dias com o braço dormente, se isso significar dormir contigo.

- É estranho não é!? - as suas mãos colocavam o cabelo para trás das pequenas orelhas.

- O quê? - perguntei eu enquanto a admirava. Eu não entendo o que tem vindo a acontecer comigo.

- Isto, nós os dois!... Conhecemo-nos há tão pouco tempo e eu já durmo em tua casa... os teus pais...

A campainha tocou. Quem será a esta hora? Apercebo-me que são oito da manhã.

- Já vai, já vai! - oiço a minha mãe gritar pelas escadas abaixo tentando acalmar o toque incessante da campainha.

- Quem será? - perguntou-me a Alice.

- Não faço ideia! Mas seja lá quem for não deve saber o que significa o domingo de certeza!

Ambos nos rimos até que a voz dele foi possível de ouvir do andar de baixo. A Alice olhou para mim, com um olhar assustado, e levantou-se imediatamente da cama. Vestiu novamente as suas roupas e apanhou o cabelo num coque na parte de cima da cabeça.

- Tens a certeza? - perguntei enquanto ela abria a porta do meu quarto.

- Sim! - assegurou-me ela, porém, não fiquei totalmente certo disso. Saímos juntos da divisão e enquanto descíamos as escadas que davam para o hall de entrada eu segurei a sua mão gelada por causa dos nervos.

O doutor Daniel está em frente à porta da entrada a conversar com a minha mãe, ele parece agitado.

- Alice filha! - exclamou ele assim que a viu.

- O que estás aqui a fazer? - ela tenta mostrar-se fria, consigo perceber que não era assim que ela queria falar com o pai, mas talvez seja o melhor.

- Aconteceu uma coisa grave filha, preciso que venhas comigo! - o corpo do pai da Alice estava trémulo, ele parecia verdadeiramente preocupado com algo. O que terá acontecido?

- O que se passou!? - a voz da minha namorada mudou de repente.

- Foi a Inês filha, ela foi atropelada esta noite e deu entrada no hospital!

- Como é que ela está!? - a mão da Alice faz pressão sobre a minha de tal forma que parece que me vai partir os ossos. O pai dela demora demasiado tempo a responder. - Como é que ela está!? Como está a Inês!? - gritava ela enquanto lágrimas caiam dos seus lindos olhos.

- Ela está em coma. - afirmou o seu pai com a cabeça baixa.

Todos os presentes na sala ficaram em choque, incluindo eu. É verdade que eu não gosto da Inês, não consigo sequer estar perto dela, mas nunca quis que nada de tão grave lhe acontecesse. Estar em coma é algo mau, mesmo muito mau e eu não faço ideia do que aconteceria com a Alice se algo de pior ocorresse desta situação. Ela já perdeu a mãe, não pode perder a irmã.

- Eu quero vê-la! Eu quero ver a minha irmã! - ordenou a Alice largando-me a mão e saindo disparada de minha casa, o seu pai foi atrás dela até ao carro, mas, assim que eu me dirigi até à porta para ir com ela, a minha mãe parou-me:

- Não filho! É melhor ficares em casa.

- Mas mãe ela precisa de mim!

- Ela precisa de falar com o pai primeiro.

Sei que a minha mãe tem razão, mas não consigo suportar o facto de não conseguir fazer nada para a ajudar, pelo menos se fosse com ela conseguiria apoiá-la.

- Vais para o hospital hoje? - perguntei.

- Sim, tenho uma cirurgia para fazer.

- Certifica-te de que nada de mal acontece à Inês! Ela não pode perder mais ninguém!

- Tem calma Henrique. Vais ver que vai correr tudo bem! Eu passo por lá depois da cirurgia e aviso-te.

- Obrigada mãe!

ALICE

Tenho a cabeça a andar à roda, ainda não comi nada e sei que deveria tê-lo feito. A viagem para o hospital parecia demorar uma eternidade.

Assim que chegamos, o meu pai entrou para ver como ela estava. Pelo que a senhora da receção me esteve a explicar, a Inês deu entrada esta madrugada cá. Ela apontou para um rapaz que estava sentado nos bancos de espera e disse-me que foi ele quem a trouxe.

Agradeci a informação à dona Elisabete, pelo menos era esse o nome que ela tinha no crachá, e aproximei-me do rapaz. Ele parecia estar preocupado, as suas roupas eram todas pretas e usava um casaco de cabedal, assim que me viu, parece ter ficado um pouco confuso.

Os seus olhos eram castanhos e tinha um piercing no nariz.

- Olá, eu sou a Alice. - iniciei eu.

- Alice? Então, mas... - ele estava um pouco perdido. É relativamente normal isto acontecer connosco, penso que as pessoas nunca estão totalmente preparadas para conhecerem gémeas separadamente.

- Eu sou irmã gémea da Inês. - expliquei sentando-me ao lado deste bonito rapaz.

- Vocês são mesmo iguais! - exclamou ele.

- Bem, agora nem tanto. Eu não tenho aparelho. Conheces a minha irmã?

- Não propriamente. Quer dizer, conheci-a ontem à noite num bar.

-Num bar!? - exclamei eu, talvez um pouco alto de mais.

- Sim, no CINCO! Eu estava lá quando ela entrou e vi-a a sentar-se numa mesa atrás da minha. Passado algum tempo, um gajo aproximou-se dela e começou a mandar algumas bocas, mas ela parecia não se estar a importar com isso. Ele sentou-se com ela e ofereceu-lhe uma bebida. Eu não conseguia tirar os olhos dela, ela parecia estar triste com alguma coisa e isso preocupou-me, mas continuei a escrever a minha música. De repente, oiço um barulho de um estalo e reparo que ela está a sair do bar a correr e ele foi atrás dela. Aquele gajo já é conhecido no bar e eu não curto nada a onda dele, por isso saí atrás deles para ver o que se estava a passar. Assim que cheguei lá fora, a tua irmã estava a ser puxada pelos cabelos. Não podia deixar que aquilo acontecesse, por isso gritei e o palhaço largou-a. Mal se viu livre dele, a tua irmã desatou a correr e atravessou a estrada sem olhar, foi aí que um Jipe apareceu e a levou à frente. O carro fugiu antes de conseguir tirar a matrícula, nem consegui ver quem foi. Corri para ver como é que ela estava e ela não respondia, estava cheia de sangue, por isso, peguei nela e trouxe-a para cá.

- Tu... Obrigado... quer dizer, tu foste incrível... - ainda não consegui assimilar completamente tudo isto, mas estou mil vezes agradecida a este rapaz.

- Nada disso. Eu não podia deixá-la ali no meio da estrada.

- Mas podias ter sido como todos os outros que estavam no bar e ter ignorado a situação! Muito obrigado ... eu não sei o teu nome. - gaguejei.

- Vasco.

Sorri e permaneci sentada ao lado dele à espera de notícias. O meu pai não tardou muito a voltar, mas ele não parecia muito contente. Não sei se o meu pai já sabe do que aconteceu, mas preciso de lhe apresentar o Vasco e contar-lhe que foi ele a salvar a Inês.

- Obrigado por tudo Vasco, se não fosses tu a Inês não teria resistido! - agradeceu o meu pai.

- Como assim? - perguntou ele levantando-se do banco.

- Ela sofreu uma queda muito forte e bateu com a cabeça. Se não a tivesses trazido imediatamente para o hospital e se os médicos não a tivessem operado ela provavelmente teria sofrido um derrame cerebral e não teria sobrevivido.

- Então isso quer dizer que ela está bem!? - perguntei ao meu pai.

- Ela passou para o coma induzido. Sofreu um traumatismo craniano e por isso os meus colegas sedaram-na. Teremos de esperar para ver como reage à medicação.

- Ela vai ficar bem. - disse o rapaz enquanto pegava no seu blusão preto.

- Mais uma vez muito obrigado por tudo! - exclamou o meu pai.

- Não se preocupe com isso doutor. Bem, eu vou embora, não estou aqui a fazer nada. Deixei o meu número de telemóvel junto com as coisas da Inês, caso haja alguma novidade.

- Claro, mal saibamos de alguma coisa eu aviso-te! - afirmei.

Ele acenou com a cabeça positivamente e dirigiu-se à saída, deixando-me a mim e ao meu pai sozinhos.

Depois de algum tempo em silêncio, o meu pai decidiu manifestar-se.

- Alice, filha nós precisamos de ter uma conversa. - baixei a cabeça e não respondi. - Eu falei com a Tânia e...

- Pai eu não quero saber okay!?

- Espera Alice, deixa-me acabar! Eu falei com ela e ambos decidimos que seria melhor acabar tudo.

Fique um pouco chocada com a notícia, mas, acima de tudo, também fiquei aliviada. No dia em que a minha mãe morreu, eu e a Inês estávamos em casa com ela e o meu pai ainda não tinha chegado. Ligamos-lhe imensas vezes, mas as chamadas iam parar sempre ao voice-mail, chegamos a deixar mensagem para que ele viesse rápido, mas ele demorou demasiado tempo. No dia do funeral da minha mãe, o meu pai deixou o telemóvel no escritório e pediu para que o fosse buscar, assim que peguei nele, uma mensagem de uma tal de "amor" entrou na caixa de mensagens, foi só somar dois mais dois e aceitar mais uma dolorosa realidade.

- E esperas o quê pai? Que eu e a minha irmã te desculpemos por andares a trair a nossa mãe mesmo antes de ela ter partido!? - vociferei eu revelando este segredo que tinha guardado à seis anos só para mim.

O meu pai ficou perplexo, nenhuma palavra foi proferida da sua boca até a mãe do Henrique se aproximar de nós.

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