Capítulo 55
HENRIQUE
As lágrimas da Alice continuavam a cair dos seus lindos olhos azuis, é engraçado o facto de ambos termos os olhos da mesma cor, porém o seu azul é totalmente diferente do meu, quando volto a reparar neles, para além da cor que me faz lembrar o mar, percebo que uns raios vermelhos começam a formar-se à volta da íris. Detesto vê-la chorar, é algo que me parte o coração e aquela cabra já a fez chorar vezes a mais. Não posso deixar que isto continue, tenho de mostrar à minha namorada que sou louco por ela, que nunca na minha vida iria querer andar com a sua irmã. Eu gosto dela porra, sou completamente apaixonado por ela desde o dia em que a vi, aquela menina parva aflita para ir à casa de banho deixou-me perdido, colocou-me numa posição na qual nunca tinha estado antes e isso realmente assustou-me mas fez-me perceber o que é amar alguém verdadeiramente, pelo menos eu acho que isto é o que chamam ao "amor".
- Henrique? - disse ela ainda a chorar. A ponta do seu nariz está completamente vermelha e os seus lábios estão ainda mais grossos do que o normal, por incrível que pareça ela fica linda quando chora, não que não seja sempre, aliás, ela é linda, mas quando chora fica vulnerável e eu gosto de saber que ela precisa de mim, cria-me segurança de certa forma.
- Diz linda.
- O que te fez querer-me a mim e não a ela? - sinto o seu coração bater rapidamente assim que ela se vira e se deita em cima do meu peito. O seu olhar demonstra insegurança, algo que eu nunca tinha visto antes. Ela é das pessoas mais seguras de si que eu alguma vez conheci, mas agora começo a perceber que tudo isso não passava de uma capa para esconder os seus verdadeiros sentimentos e medos.
- Amor eu escolhi-te a ti por tu seres como és... - tentei explicar, mas sinceramente não sei como lhe dizer que a amo pela pessoa maravilhosa que é.
- Isso não é resposta Henrique... nós somos iguais!
- Não, vocês não são iguais! - exclamei eu retirando-a de cima de mim e levantando-me pelos cotovelos. Não suporto que ela diga uma coisa destas, uma mentira tão grande. - Vocês podem ser iguais por fora, sim! Mas por dentro, por dentro vocês são opostos uma da outra, não tem mesmo nada a ver. Alice, eu amo-te a ti, esquece a tua irmã!
- Como queres que esqueça? Eu sei perfeitamente que ela é como as raparigas com quem tu andavas. E ainda por cima nós somos tão iguais...
- Não são completamente iguais, ela agora tem aparelho e tu não, já não vos confundo mais! - tentei fazer uma piada para ver se ela se ria, mas acho que não me saí muito bem.
Ela baixou a cara e voltou a chorar deitando-se na cama com força. Porra, só digo porcaria! Desejava poder retirar o que disse, mas a única coisa que consigo fazer é tentar-me desculpar.
- Não princesa, tu não percebeste! Quer dizer, eu estava a tentar fazer uma piada, fui estúpido e não consegui, mas eu não queria magoar-te.
- Fizeste-me lembrar do dia em que ela te beijou... eu não suporto pensar nisso sequer!
- Foi um erro! Alice já chega, vamos acabar com este assunto! Eu amo-te, amo-te mesmo e só a ti! Tu és tudo para mim, és como a Vivian para o Edward!
- Sou como uma prostituta nas tuas mãos? - indagou ela mandando-me um olhar de não compreensão.
- Não, não estás a perceber! Eles são diferentes, veem de mundos diferentes, mas acabam por se apaixonar e fazem a sociedade perceber que os padrões não são nada mais do que uma lei estúpida criada por umas pessoas parvas.
- Eu não estou a perceber Henrique... - a minha falta de palavras não me ajuda em nada, eu nunca tive de fazer algo assim e isto está a assustar-me.
- O facto das nossas idades não serem relativamente próximas, o facto de tu chegares de uma cidade pequena como Odeceixe para a tão assustadora capital, sei lá Alice, nós somos diferentes, temos perspetivas diferentes do mundo, assim como eles. Porém, nada disso os impediu de se apaixonarem e serem felizes.
- Sim, acho que tens razão. - o seu choro parou finalmente enquanto eu estava a tentar acabar o meu discurso. Não foi nada muito elaborado nem muito motivacional, mas é algo de que ela gosta, e eu sabia que assim, ela iria perceber que é dela que eu gosto e não da Kit de Luca.
Quando nos apercebemos já eram duas e meia da tarde e estávamos ambos com fome, tentei levantar-me para ir à cozinha preparar algo para os dois, nada de muito elaborado, porque os meus dotes culinários não são nada de especial, mas, faço uma massa à bolonhesa de comer e chorar por mais, bem, pelo menos é isso que eu acho.
- Não, não saias daqui, podíamos encomendar umas pizzas, eu não te quero largar agora! - exclamou ela num tom molengão.
Consegui arrancar-lhe alguns sorrisos assim que o seu choro parou, mas para mim ainda não é o suficiente, eu quero a minha Alice de volta.
Assenti positivamente com a cabeça e voltei a abraçar-me a ela enquanto a via pegar no telemóvel e chamar um "uber eats".
- Nunca pensei que a menina certinha preferisse uma pizza a uma comida saudável. - brinquei eu.
- Bem, digamos que a comida italiana me fascina...
- Bem, eu podia fazer a minha receita especial, massa à bolonhesa! - exclamei endireitando as costas e juntando os meus dedos para fazer o meme do italiano.
- Tu não existes mesmo! - naquele momento consegui finalmente vê-la a rir como normalmente faz, é das coisas mais bonitas que já vi em toda a minha vida e por incrível que pareça, parece que a consigo observar em câmara lenta. Passa-se algo de errado comigo com certeza. - Ah, e já agora, prefiro não arriscar uma intoxicação alimentar!
Olhei para ela surpreendido, não de uma forma negativa, mas a maneira como ela consegue brincar comigo e deixar-se levar nas minhas brincadeiras agrada-me. Agarrei-a pela cintura e comecei a fazer-lhe cocegas na barriga, um sítio onde sei que ela detesta que lhe toquem porque não suporta cocegas.
- Para Henrique! Para! - gritava ela no meio de risos. É isto que eu quero, é esta relação, esta intimidade, este laço que consigo criar com ela e que não me vejo a ter com mais ninguém. Ela é tão linda e tão meiga, mas ao mesmo tempo tão insegura. Amo-a, sei que a amo e quero amá-la ainda mais.
- Só paro se admitires que a minha massa à bolonhesa é incrível!
- Nunca! - continuava ela rindo-se cada vez mais.
- Então eu nunca vou parar!
- Henrique eu vou fazer xixi nas cuecas se não parares... - ela debatia-se incessantemente, mas as minhas mãos cobrem quase toda a extensão do seu abdómen.
- Um pouco de água não faz mal a ninguém... Já viste as cataratas do Niagara? E aquela água do mar linda e maravilhosa das praias de Benagil? Hmmm, agora sabia-me bem um copinho de água bem fresquinha... - As minha provocações só a faziam rir mais e a mim davam-me prazer.
- Okay, okay eu admito! - gritou ela.
- Admites o quê babe?
- Admito que a tua massa à bolonhesa é boa.
- Nop, não foi isso que eu disse...
- Okay, espera! A tua massa à bolonhesa é incrível!
- Assim está melhor! - gracejei eu.
A pizza chegou algum tempo depois e a Alice correu para a porta. Estou contente por ela estar melhor e por passar o resto da tarde com ela, deitados na cama a ver um filme romântico qualquer, uma adaptação de um livro que ela já leu, acho que se chama "Sense and Sensibility", é um cliché qualquer sobre duas irmãs que descobrem o amor de formas diferentes, uma é mais racional e a outra é mais sentimental, penso que seja daí que vem o título do livro.
Sei que a Alice adora ler romances, para além de pintar este também é um grande hobbie dela, ao contrário de mim, eu prefiro ler ficção científica, ou não ler de todo, mas se esse for o caso o género que prefiro é mesmo ficção. Detesto ver pessoas a sofrerem pelo mesmo mal, pessoas que se apaixonam, desapaixonam, chateiam-se e voltam rapidamente um para o outro, isso não é real, são só histórias falsas que deixam os corações dos leitores emocionados. Agora quando me falam de um apocalipse ou de um desastre natural, isso sim é a minha praia.
Assustei-me com o toque do meu telemóvel, a minha mãe do outro lado da linha está preocupada, não comigo, mas sim com a Alice.
- Ela está bem mãe, eu estou a tomar bem conta dela. - sussurrei eu. Apercebi-me de que tinha caído no sono assim que se virou ao ouvir o toque irritante do aparelho móvel. Até a dormir ela é perfeita.
- Estás a ouvir-me Henrique?
- Anh? Sim mãe, desculpa diz!
- Estou a perguntar se vocês vêm jantar.
- Sim, eu vou só acordá-la e já vamos para aí. - desligo a chamada assim que a minha mãe diz que vai fazer o meu prato favorito, lasanha, ela é uma querida.
Os meus esforços para acordar a Alice dão fruto alguns segundos depois, ela deve estar exausta de tanto ter chorado hoje e da noite passada, só espero que a noite de hoje seja melhor. Será que ela vai ficar comigo de novo? Eu quero tanto que ela fique. Dormir com ela é incrível, sentir o cheiro dela, ficar a olhar para ela enquanto dorme, adormecer com ela no meu peito. Nunca pensei que fosse tão bom, nunca tinha dormido com ninguém antes e espero que ela também não o tenha feito, quero ser o único em tudo que remete a relacionamentos, apesar de saber perfeitamente que ela já namorou antes, mas ele é um puto estúpido e eu não, bem pelo menos tento não ser quando estou com ela.
- Babe acorda, vamos jantar. - sussurrei eu abanando-a um pouco.
- Que horas são? - perguntou ela sentando-se na cama e esfregando os olhos.
- São quase nove, acabaste por adormecer e nem viste o Edward a declarar-se a Elinor.
- É a minha cena favorita! - exclamou ela bocejando. Rio-me com a situação, era previsível que fosse a sua cena preferida, a dela e da maioria das pessoas.
- Claro que é! - gozo.
- O que foi? Aposto que nem opinião sobre o filme tens! De certeza que também adormeceste, mas ao contrário de mim adormeceste de seca e não de cansaço!
- Enganas-te, minha querida! Tenho uma opinião sim! Para mim, a Elinor era irritante, ela deveria deixar-se levar mais pelo amor e pelo sentimento que tinha por ele, mas ela é muito racional e acaba por não viver as coisas.
- Mas essa é a ideia da história, a Marianne é que é assim, é mais romântica, mais desesperada por amor e acaba por fazer tolices. - retaliou ela.
- Aposto que se a Elinor fosse mais como a irmã seria mais feliz!
- Se elas fossem iguais não havia história! - rimo-nos bastante com a situação.
Nunca pensei estar
sentado na cama, com a minha namorada, enquanto discutíamos sobre um romance
escrito em 1811. Esta miúda transforma-me completamente em algo melhor, gosto
de mim quando estou com ela, sou mais eu do que alguma vez fui.