Capítulo 54

ALICE

Tentei secar-me o mais rápido possível, percebi que tanto eu como ele ficamos um bocado agitados com toda esta situação. Foi das situações mais embaraçosas de sempre, nunca me tinha acontecido nada parecido. Enquanto namorei com o Tiago, era normal ele esperar por mim no meu quarto ou na sala, às vezes também ficava com a minha irmã, dependia do seu humor nesse dia, mas isto, isto foi surreal e completamente novo para mim. Se fosse há uns meses atrás, eu ficava obcecada com este assunto e possivelmente nunca mais queria ver o Henrique à frente, há tempos atrás eu não era capaz de levar ninguém para o meu quarto, tirando o Tiago, quanto mais deixar que alguém me visse nua. Não foi de propósito na realidade, mas a verdade é que ele me viu, pelo menos eu tenho quase a certeza de que ele me viu.

Enquanto o meu consciente e subconsciente se debatem entre questões éticas e morais, eu acabo de me secar e começo a vestir-me. Será que ele voltou para o meu quarto, ou foi embora? O que será que ele está a sentir agora? Devia tê-lo deixado ficar?

- Atina miúda, eu não curto de ti, nem um bocadinho, por isso deixa-me em paz! - ouvi o Henrique gritar do outro lado da divisão.

Aprecei-me a vestir, mas não fui capaz de sair da casa de banho, precisava de ouvir o que estavam a dizer, mas não posso estar presente. O Henrique precisa de falar com ela e esclarecer tudo, sei que ele contém muita raiva por ela dentro de si e isso não lhe faz bem. Sei perfeitamente que a minha irmã não fez nada de mal neste momento, mas também sei que os fantasmas do passado nos podem assombrar durante bastante tempo se não forem bem resolvidos desde o início.

A discussão parece-me acesa, o Henrique continua a defender-me com unhas e dentes e isso é algo que eu adoro nele. Durante o primeiro mês de namoro, fomos sair algumas vezes e eu achava engraçado a maneira como ele me dava a mão, ou me agarrava pela cintura, de todas as vezes que algum rapaz olhava para mim.

Deixei-me perder completamente pelas minhas memórias até ouvir a minha irmã gritar:

- Como é que tu não consegues perceber que eu fiz tudo isso por ti! Porque te amo porra!

O meu coração partiu-se em mil pedaços assim que ouvi a inesperada confissão da minha irmã. Como é que isto é possível? Isto não me pode estar a acontecer, não outra vez! Pensei que já estava tudo resolvido, pensei que ela estava feliz com o Enzo... Oh meu Deus o Enzo! Como será que ele está relativamente a isto? Será que ele sabe? E o Henrique, como é que o meu namorado reagiu ao ouvir aquelas palavras saírem da boca da pessoa mais parecida comigo. Não posso esperar mais, eu tenho de sair desta casa de banho e encarar a Inês.

Abri a porta repentinamente fazendo com que o Henrique quase caísse a meus pés, não olhei para ele, cravei o meu olhar no da minha irmã e não pisquei nem por um segundo. O meu coração palpita cada vez mais rápido, sinto que vou ter um ataque a cada momento.

Aproximo-me dela, ficando assim no meio do ringue, não consigo perceber o que sinto, os meus sentimentos estão perdidos e confusos, o meu corpo está a tremer e eu tenho a necessidade de lhe dar um estalo, talvez se o fizesse conseguisse aliviar um bocado da tenção que está presa dentro de mim.

- Alice, amor... - começou o Henrique, porém foi interrompido pelo levantar da minha mão.

A Inês mantinha-se ali, imóvel, a sua expressão era impossível de decifrar e isso ainda me deixava com mais raiva. Como é que ela foi capaz de me enganar durante este tempo todo? Agora entendo os pedidos de saídas a quatro, os convites para jantar aqui em casa quando o meu pai não estava presente, tudo faz sentido agora!

- Não vais falar!? - perguntou-me ela olhando para mim. O seu tom foi cínico, porém já nada me impressiona.

- Que coisa é essa de gostares do meu namorado!? - tentei abordá-la de uma maneira mais calma, preciso mesmo de me acalmar.

- Eu não gosto do teu namorado...

- Não foi isso que eu ouvi!

- Tu ouviste e ouviste muito bem! Eu não gosto do Henrique, eu amo-o, eu sou completamente louca por ele! Por ele eu sou capaz de tudo!

- Tu és nojenta! - vociferei eu. As minha mãos estão agora cerradas em punhos e as minhas unhas cravam as palmas de maneira a tentar expulsar alguma dor e raiva.

O Henrique mantinha-se atrás de mim, sentia-o recetivo, mas penso que neste momento todos estamos.

- Boa Alice, continua a insultar-me! Pode ser que assim o teu namorado se aperceba de quem és verdadeiramente! Pode ser que assim ele fique a conhecer a verdadeira Alice! A cabra invejosa que não consegue ver a irmã feliz! A vaca que não passa um dia sem que consiga todas as atenções só para si...

HENRIQUE

Em segundos a minha namorada estavam em cima da irmã gémea, murros e pontapés eram possíveis de ver no meio de puxões de cabelos. Não sei se deva interferir, sempre que via raparigas à porrada, os meus amigos diziam para não me meter, pois quando elas estivessem cansadas elas iriam parar. Porém, eu nunca vi a Alice desta maneira, a sua fúria foi transferida cá para fora de uma forma surreal, espontânea. A menina doce e meia que eu estou habituado a ver, todos os dias, acabou de se revelar uma lutadora de WWE.

- Eu amo-o, amo-o mais do que tudo na minha vida! Amo-o mais do que alguma vez tu vais ser capaz de o amar! - gritava a Inês enquanto era agarrada pelos seus, agora desgrenhados, cabelos castanhos.

Não consigo perceber o que é que esta rapariga irritante quer de mim. Só de pensar que ela sente algo por mim, o meu estômago já dá uma volta de trezentos e sessenta graus. Eu não gosto dela, não gosto dela de maneira nenhuma, não suporto vê-la se quer! Provavelmente toda esta treta de me amar é só para chatear a irmã, só pode ser! É, não é? E se não for? O meu subconsciente falava mais alto. Costumo dar-lhe ouvidos, porém, desta vez preferi ignorar e voltar a prestar atenção ao conflito que estava a acontecer à minha frente.

- Tu não vales nada! - gritava a Alice por entre os dentes cerrados.

Assim que reparo, a Inês acaba por lhe dar um murro bem forte no nariz deixando-a a sangrar. Não posso deixar de intervir agora, isto já está a ir longe de mais. Corri até elas e tentei segurar na minha namorada, que com muito esforço, se conseguiu soltar das mãos da Inês.

- Larga-me Henrique! Larga-me! Eu vou partir-lhe a cara toda!

- Anda! Anda se tens coragem! Pitinha mimada.

- Acabou! - berrei ainda com a Alice nos braços. O grito saiu muito mais alto do que aquilo que era suposto, mas ambas se assustaram e pararam de se ameaçar mutuamente.

Olhei para a Inês e a sua cara estava quase irreconhecível, os seus olhos lacrimejavam e o seu nariz estava coberto de sangue assim como a sua boca, penso que o aparelho dentário que tem não foi uma grande ajuda. Molhos de cabelos estão colocados entre os seus dedos, cabelos esses que são da minha namorada.

Não consigo olhar mais para a cara daquela gaja, a vontade que me dá de bater-lhe é ainda mais forte do que a vontade que tenho de sair desta casa com a Alice nos meus braços.

- Vocês não valem nada! Eu odeio-vos, odeio-vos a todos! - gritou a Inês enquanto corria pelas escadas. Não quero saber para onde é que ela vai, só quero saber da minha namorada que está ofegante entre os meus braços.

- Anda vamos para o teu quarto babe. - disse eu largando-a do meu aperto e dando-lhe a mão.

As lágrimas caíram do seu rosto como a nascente de um rio, sabia que isto iria acontecer e sabia que só aconteceria quando a irmã não estivesse presente, ela não era capaz de lhe dar esse gosto.

Ela é tão calma, tão meiga, tão Alice, vê-la assim, com tanta raiva, deixou-me preocupado. Será que é assim que eu fico quando algo me chateia? Ela já assistiu a explosões minhas e disse-me que detestou ver-me naquele estado e eu também não gostei nada de a ver assim.

Voltamos para o seu quarto e deitamo-nos na cama, a sua cabeça repousava no meu peito enquanto soluços iam saindo do seu corpo. Decidi não falar, talvez o silêncio seja o melhor aliado neste momento.

- Como é que ela foi capaz Henrique? Como é que ela foi capaz de dizer que te amava e ainda sair toda vitoriosa? Como é que ela tem coragem de me fazer uma coisa destas!? Ela quer-te, ela quer-te roubar de mim e eu sei que ela vai conseguir!

- Tu não estás a ouvir o que estás a dizer pois não!? - perguntei-lhe levantando-nos a ambos e sentando-me no colchão coberto com lençóis brancos.

- É verdade Henrique! Ela sempre gostou de ti...

- Sim, mas daí a ela ficar comigo ainda vai uma grande distância!

- Tens de admitir Henrique, ela pode dar-te aquilo que eu ainda não estou preparada para te dar... - eu não acredito que estou mesmo a ouvir isto.

Todos os direitos reservados 2019
Desenvolvido por Webnode
Crie o seu site grátis! Este site foi criado com a Webnode. Crie o seu gratuitamente agora! Comece agora