Capítulo 50
ALICE
Acordei no dia seguinte com o barulho das persianas elétricas do quarto do Henrique. Olhei para o lado e ele estava em pé junto da secretária, os seus boxers apertavam a elevação matinal que pelo que me apercebi é normal em todos os homens.
- Bom dia! - exclamou ele aproximando-se da cama enquanto eu me sentava e esfregava os olhos.
- Bom dia. - Começo a ter memórias da noite passada, não são muito nítidas, mas lembro-me da conversa com a Melany e de me deitar novamente ao lado do Henrique. A conversa foi rápida, ela contou-me o que aconteceu e aconselhou-me a fazer alguns testes no hospital, porém, eu não fui capaz de contar ao Henrique o que se passou verdadeiramente, não quero preocupá-lo.
- Tens fome? Queres que te prepare o pequeno almoço? - perguntou. Sinto que ele está preocupado comigo, o que vai contra aquilo que eu quero. O meu estômago implora por comida nesse mesmo momento, mas não quero que ele tenha todo o trabalho, por isso, decido levantar-me e ir com ele preparar o pequeno almoço para ambos.
- Os teus pais ainda estão em casa? - indaguei depois de me levantar e dirigir-me a ele para o abraçar.
- Não, eles já saíram há algum tempo, já são dez da manhã bebé...
Não fazia ideia de que era tão tarde, daqui a pouco é hora de almoço e eu não posso ficar cá, sei perfeitamente que o Henrique não se importa, mas não acho que seja justo, não pela questão financeira, mas por uma questão de princípios, os pais dele não são obrigados a levar com os meus problemas.
Não me dei ao trabalho de me vestir, a sweatshirt do Henrique parece um vestido no meu corpo minúsculo e magro. Descemos e preparamos o pequeno almoço, ele preferiu uma taça de leite com cereais, já eu, contrariamente, escolhi uma taça com iogurte e cereais, eu não sou muito fã de leite, detesto até.
O seu corpo moreno e musculado faz-me pensar no quão sortuda sou, relativamente a todos os rapazes que conheci, o Henrique é sem dúvida alguma o mais bonito de todos, não que o Tiago não seja bem parecido, ele é surfista, por isso também tem um corpo bem estruturado, mas, quando eu olho para o Henrique vejo muito mais, sinto uma sensação estranha a percorrer-me o corpo, não sei o que significa, mas adoro.
- Está tudo bem Alice? - perguntou ele debruçando-se sobre a bancada em mármore branco. Apercebi-me de que talvez tenha ficado a olhar para ele com se fosse uma psicopata.
- Hum, sim! - tentei disfarçar pegando na minha taça e andando em direção à mesa.
- Fiquei preocupado contigo... - inicia ele. O meu estômago dá uma volta de trezentos e sessenta graus. Não quero contar-lhe, já chega de preocupações.
- Não te preocupes, foi algo momentâneo, talvez tenha sido porque me levantei muito rápido para vir beber água e acabei por ter uma quebra de tenção, acontece.
- Mas então não foi um ataque de pânico!? - perguntou ele confuso. Devo ter-lhe dito que foi um ataque de pânico ontem, mas com toda a situação não me lembro. Tenho de descalçar esta bota da melhor maneira possível, o grande problema é que sou péssima a mentir.
- Sim, eu pensava que tinha sido só uma quebra de tenção, mas depois, quando falei com a tua mãe ela explicou-me que tinha tido um ataque de pânico. - espero que ele acredite.
- Ah...
- Mas eu já estou melhor, não precisas de te preocupar mais comigo! - exclamei e voltei para perto dele abraçando-o. O seu queixo descansa no topo da minha cabeça, algo que eu adoro que ele faça, sinto-me a sua menina, a sua mulher, a sua protegida. Gosto quando ele me trata como uma mulher e não como uma miúda.
Acabamos de tomar o pequeno almoço e voltamos para o quarto. Sei que tenho de voltar para casa, não tenho nada meu aqui, nem consegui escovar os dentes a noite passada. Provavelmente o meu pai já não estará lá, já deve ter saído para o hospital há horas. Onde será que está a Inês? Será que está bem? Fez algum disparate? O Enzo estará com ela?
Peguei no meu telemóvel, que estava em cima da mesa de cabeceira do lado direito, e tentei ligar-lhe. A chamada caiu, ela deve ter ficado sem bateria. O telemóvel da minha irmã é um IPhone assim como o meu, mas tenho a certeza de que o do Enzo não é, ou seja, caso ela esteja com ele, não terá qualquer tipo de maneira de conseguir carregar o seu telemóvel.
- A tentar ligar para a Inês? - perguntou o Henrique ao entrar no quarto. Já estava vestido quando voltou da casa de banho, trazia umas calças de ganga escuras e uma T-shirt branca da tommy hilfiger. Nele tudo fica bem, acho que poderia estar a usar o pior trapo que lhe dessem, que lhe iria assentar lindamente. Os seus olhos claros sobressaem em cores também claras e o seu cabelo encaracolado está todo bagunçado.
- Ela deve ter ficado sem bateria, só espero que esteja tudo bem, não quero que ande para aí a meter-se em confusões.
- Não te preocupes babe, ela deve estar com o Enzo, duvido que ele a deixe sozinha.
- É engraçado como agora o defendes e achas que é boa pessoa... - sorrio num tom brincalhão.
- Não o defendo, só acho que ele gosta da tua irmã e se com ele ela deixa de me chatear a cabeça então eu só quero que eles fiquem bem. - respondeu ele encolhendo os ombros. - Aliás, eu só não gostava dele porque sei que ele se fez a ti assim que te viu... e ninguém se mete com a minha namorada! - ele estava carrancudo, porém, eu sorri envergonhada com as palavras que ele acabou de proferir.
- É verdade, não te cheguei a agradecer por me teres defendido na discoteca. - disse eu.
- Não me lembres disso, aquele gajo é um porco, ele faz sempre a mesma merda...
- Ele joga futebol com vocês, não é? - perguntei. Lembro-me de o Filipe me ter dito isso ontem na discoteca. Aconteceram tantas coisas numa só noite, parece que o mundo me quer cair em cima.
- Sim, mas ninguém se dá com ele. Ele não respeita as mulheres...
Clareei a minha voz de maneira a que ele entendesse que ele também não respeitava propriamente as mulheres antes, ele estava com elas só por estar, coisas de uma noite, o que ainda me deixa um pouco desconfortável, confesso.
-... acredita que ele é mil vezes pior do que eu Alice. Eu estava com elas sim, mas nunca fiz nada que elas não quisessem, para além disso, nós namorávamos, não que eu gostasse delas, mas ficava bem na reputação. O Lucas não, ele é mesmo um porco, sabe que não consegue comer nenhuma gaja e então faz estas merdas. Guardo uma raiva por esse gajo e sei que é recíproco.
- Porquê? O que aconteceu? - não gosto de o ver falar assim, mas estou curiosa e preciso de saber.
- Nada de importante Alice, já chega desta conversa! - ele levanta-se e dirige-se até ao guarda roupa. - Queres que te empreste umas calças de fato de treino e uma T-shirt? Está calor para continuares com essa camisola grossa.
- Quero que me contes o que aconteceu... - exijo, num tom autoritário.
- Porquê tanto interesse nesse palhaço? Esquece Alice já passou! O que interessa é que ele não te tocou e que estás bem.
- Ele ficou com alguma namorada tua? - tentei adivinhar.
- Anh? - O seu corpo virou-se rapidamente e as suas pupilas dilataram. Parece que acertei na muche.
- Vais contar-me? - pergunto cruzando os braços em frente ao meu peito.