Capítulo 37
HENRIQUE
A viagem de carro passou a correr, quem me dera que durasse mais tempo para que eu pudesse continuar a apreciá-la pelo canto do olho. Não a levei para casa, mas sim até à cafetaria onde a festa da Inês estava a decorrer, penso que ela também queira estar com o pai. São nove da noite, porém, os convidados ainda cá estão. Entramos pela porta das traseiras, assim como dizia no papel que estava colocado na frente do estabelecimento.
- Está aqui tanta gente, como é possível que ela tenha feito tantos amigos!? - perguntei eu ao ouvido da Alice, pois a música alta não permitia que ela me ouvisse.
- Não sei, mas parece que fez, anda vamos procurar o meu pai. - gritou ela.
Não tivemos de andar muito para encontrarmos o doutor Daniel sentado numa das mesas a comer uma fatia de bolo.
- Olá pai, já chegamos! - exclamou a Alice.
- Ora ainda bem que já chegaram e que estão aqui os dois! Precisamos de conversar minha menina!
- O que aconteceu!? A Inês? - questionou ela. Neste momento também estou um pouco perdido, não entendo porquê que o seu pai reagiu daquela maneira assim que nos viu.
- Não interessa onde está a Inês, o que interessa é que...
- Afonso!? - gritou a Alice dirigindo-se a um rapaz, moreno e musculado. Mas quem é que é este Afonso e como é que a Alice o conhece? Aquele sentimento está a voltar outra vez e eu não sei como controlá-lo, será que vem aí outro ex namorado? Não, isso é impossível, ela disse-me que só namorou com o Tiago até agora. Calma Henrique, não podes fazer uma cena, não aqui, nem agora, nem hoje, nem nunca, ela não te perdoaria.
Aproximei-me deles e coloquei a minha mão à volta da sua cintura para marcar a minha posição.
- Afonso o que estás aqui a fazer!? - perguntou ela.
- Parece-me que também já trocaste o meu irmão! Não me admira, a tua irmã também me trocou...
- Do que é que estás a falar? Vocês não tinham nada um com o outro... e da minha vida trato eu, tu não tens nada a ver comigo! - vociferou ela.
- Então e aquele beijo que lhe dei no dia em que vocês foram embora, não te pareceu nada? - retorquiu ele.
- Vê lá como falas com ela, não queiras arranjar confusões para o teu lado! - exclamei eu.
- Então tu é que és o tal primo que roubou a Alice ao meu irmão...
- Primo!? Mas tu és irmão do...
- Sim, sou o irmão mais velho do Tiago e muito sinceramente não entendo o que é que a Alice viu num tipo como tu! Pensei que ela preferisse rapazes mais inteligentes...
De repente, um estalo sai disparado da mãos da minha namorada para a cara do rapaz que vim a descobrir ser meu primo.
- Pela segunda e última vez Afonso, tu não te voltas a meter na minha vida, eu namoro com quem eu quiser e tu não tens nada a ver com isso! - gritou a Alice.
Tenho o pequeno pressentimento de que estão todos a olhar para nós neste momento, porém, a gémea irritante continua desaparecida.
- Diz-me respeito quando magoas o meu irmão, tu e este traste aqui ao teu lado!
- Ai que lá vem outro para me atazanar o juízo, mas vocês comem sopa de coragem ao pequeno almoço ou gostam mesmo de apanhar!? - Estou a ficar seriamente enervado com este tipo. Primeiro o irmão, agora este, mas está tudo doido?
- Eu sei muito bem que já bateste no Tiago, mas não penses que em mim vai ser igual, eu não sou parvo como ele, eu sou capaz de te partir aos bocadinhos!
- Chega! Acabou! - gritou o doutor Daniel enquanto nos afastava. - Mas está tudo louco ou quê!? Vocês dois, lá para fora apanhar ar! E tu Alice, vai procurar a tua irmã!
Acatei a ordem do pai da minha namorada e saí, porém, com uma vontade enorme de bater naquele puto. Ele deve ser mais velho do que o Tiago, talvez um ou dois anos, mas é bastante alto, não tanto como eu, mas quase.
- Vocês os dois estão loucos? Querem estragar a festa à minha filha é isso? Têm problemas resolvam-nos, mas não aqui! - disse o Daniel. Ele tem razão, mas foi este gajo que se meteu comigo, nada disto teria acontecido se ele não se tivesse armado em esperto.
ALICE
Acatei o pedido do meu pai e fui à procura da minha irmã, não deve ter ido muito longe, duvido que saísse da sua própria festa de aniversário. Perguntei a várias pessoas que não conhecia de lado nenhum, mas ninguém sabia dela, disseram que depois de cortar o bolo foram todos dançar e ela desapareceu. Decidi procurar na casa de banho, talvez esteja lá.
Estive nesta cafetaria talvez umas quatro vezes, durante aquele tempo em que estive chateada com o Henrique, mas por incrível que pareça, nunca fui às casas de banho.
Assim que abro a porta, uns sons esquisitos fazem-se ouvir de uma das cabines.
- Enzo, oh meu Deus Enzo! - era a voz da minha irmã, tenho a certeza.
- Tu és tão...
- Cala-te e continua! - dizia ela enquanto gemia cada vez mais alto.
- Inês! - gritava ele.
Os gemidos ecoavam pela casa de banho e eu mantive-me ali, imóvel, não sei o que fazer, como reagir, não quero ficar aqui e ouvir a minha irmã a fazer sexo com um rapaz, mas ao mesmo tempo, não consigo sair, estou a tremer.
- Alice já encontraste a... - iniciou o Henrique abrindo a porta da casa de banho das senhoras.
Olhei para ele, sinto que neste momento estou em estado de choque, não entendo porque reagi assim, mas confesso que não é agradável apanhar alguém nessa situação.
- Fogo Inês, está aí alguém! - exclamou o Enzo.
- Não pares agora, não agora por favor, eu estou quase a... oh meu Deus Enzo!!!
O Henrique olhou para mim, o seu rosto demonstra uma expressão tão chocada quanto eu acho que o meu demonstra.
- Anda. - sussurrou ele para mim e pegou na minha mão para me tirar dali.
- Henrique, preciso de ir apanhar ar, vens comigo? - perguntei enquanto olhava para o chão.
- Claro, vamos.
Já no exterior da cafetaria, o meu namorado ria-se enquanto eu me sentava no banco que lá estava.
- Estás a rir-te do quê? Não vejo onde está a piada! - vociferei.
- Como não!? Alice, a tua irmã está lá dentro a fazer sexo com um gajo, ela é louca!
- É uma louca que acaba de fazer dezasseis anos, não te parece que está errado!? É que a mim sim!
- Estás a dizer que só pelo simples facto de ela ter dezasseis anos não pode ter relações sexuais com ninguém?
- Não achas que ainda é muito cedo!? - estou incrédula.
- Alice, por favor, estamos no século vinte e um, pareces uma avó a falar. Para além do mais, tu não sabes quem é o rapaz...
- Sei sim, é o Enzo, o empregado aqui da cafetaria!
- ... tu não sabes se estão juntos, se ela gosta dele. Alice sexo é algo normal na vida de um adolescente!
- Para ti talvez, mas para mim as coisas são um pouco diferentes!
- Então tu queres o quê? Ir virgem para o altar!?
- Não, não digo isso! Ai Henrique eu sei lá! Aiiii que nojo!
- Tu só dizes isso porque ainda não experimentaste, vais ver que quando isso acontecer vais mudar de ideias!
- Já me esquecia que és bastante experiente nessa área não é! Pois lamento, mas eu não sou a minha irmã e não vou ser tão fácil como ela é!
- Por isso mesmo é que eu gosto de ti! Porque me dás pica e fazes as minha vitórias saberem ainda melhor! Mas vá agora esquece lá isso da tua irmã e vamos, eu deixo-te em casa.