Capítulo 36
ALICE
Não podia ter recebido melhor festa de aniversário do que esta. Estou neste preciso momento sentada na areia molhada, junto à água, com o meu namorado, estamos abraçados e a minha cabeça está deitada no seu ombro. Nunca pensei que algum dia fosse viver algo tão bonito, algo que me fizesse realmente feliz, nunca pensei conhecer alguém que mudasse a minha vida de um dia para o outro, alguém que lutasse por mim, que me fizesse ver que o amor é mais importante do que tudo o resto e acima de tudo, que me mostrasse que eu também preciso de me amar a mim mesma para poder ser feliz.
Durante todos estes anos escondi o que sentia verdadeiramente perante o meu pai e a minha irmã, nunca fui capaz de chorar à frente deles, pensei que se eu me mostrasse forte, eles não se preocupariam tanto comigo e também não pensassem tanto na morte da minha mãe, mas enganei-me, tudo o que fiz foi enganar-me a mim mesma. Nunca consegui ser verdadeiramente eu, porque tudo o que fazia era para conseguir ver a minha família feliz, sempre me esforcei para ser boa aluna, pois não queria que houvessem queixas minhas na escola, nunca saí muito, pois sabia que a minha irmã poderia precisar de algo e assim saberia que eu estava em casa para a ajudar, comecei a namorar com o filho dos amigos da família e penso que essa seja a única coisa que fiz por mim mesma, porque gostava verdadeiramente dele, talvez soubesse que não seria o amor da minha vida, mas foi a pessoa que mais me apoiou e o único que sabia de tudo isto em que estou a pensar agora. Mas, desde aquele dia em que saí do carro, com uma enorme vontade de ir à casa de banho, tudo mudou. Com o Henrique as coisas são diferentes, desde que ele entrou na minha vida, parece que todos se revelaram e que todos os esforços que fiz até ao momento não serviram de nada...
- Alice em quê que estás a pensar? - perguntou-me ele enquanto me levantava o queixo para que o pudesse olhar nos olhos.
- Estou a pensar no quanto mudaste a minha vida!
- E essa mudança foi boa ou má?
- Foi ... - demorei algum tempo para responder.
- Alice, tu foste a melhor coisa que me podia ter acontecido e eu nunca, mas mesmo nunca mais, te quero perder! - não consegui contestar ao que ele me acabara de dizer, apenas sorri e aproximei-me dos seus lábios para poder voltar a sentir o sabor, que desde o início me deixou louca por ele.
Permanecemos ali sentados enquanto o sol se punha, éramos os únicos na gruta. Passado algum tempo, o Henrique levantou-se e disse que estava na hora de irmos, já era tarde e ainda tínhamos uma longa viagem pela frente. Pegamos novamente no barco insuflável e voltamos para a praia, que também já estava deserta, não voltei dentro do barco, mas sim acompanhando-o a nado, precisava de me despedir do mar, não devo voltar a vê-lo brevemente.
Dirigimo-nos para o carro de mãos dadas, e voltamos para Lisboa, não me lembro de lhe ter largado a mão em momento algum, até que ele rompeu o laço e colocou-a na minha perna.
- Henrique...
- O que foi? - perguntou olhando para mim e sorrindo.
- Não tires os olhos da estrada parvo, não sabes que isso é perigoso!? - respondi rindo-me.
- Foi mesmo por isso que me chamaste? Ou porque sentiste algo que te começas a habituar a sentir sempre que te toco!?
- És mesmo convencido, não és!?
- Talvez um bocado, mas sei o que digo e sei quando é verdade! - a sua mão ia subindo pela minha coxa.
- Para com isso! - ordenei.
- Desculpa Alice, tens razão. É que às vezes é difícil controlar-me quando tu estás assim ao meu lado, com um vestido azul claro, todo molhado, mesmo colado ao teu corpo.
- Tu não existes! - exclamei eu rindo-me. Sendo sincera gosto do que sinto quando estou com ele, gosto de me sentir desejada, gosto de saber que o excito, gosto quando me diz isso, não sei bem porquê, mas isso faz-me sentir bem comigo mesma, agora percebo que não sou só uma simples rapariga, agora sou desejada por alguém que amo realmente.
- Sabes que filme estive a ver ontem à noite para me preparar para a tua festa!? - perguntou-me ele mudando de assunto e retirando a sua mão da minha perna, colocando-a de volta no volante. Parecia um pouco envergonhado, mas sei bem que me quer mostrar que se esforçou.
- Hmm, deixa-me pensar, "lagoa azul"?
- Frio, muito frio!
- Sei lá, H2O?
- H2O é uma série, não um filme tonta!... - riu-se ele.
- Ai, então não sei, não conheço mais nenhum filme que tenha um sítio parecido com Benagil.
- E quem te disse que eu estive a ver o filme só por causa do lugar onde te levei!? - sorriu sem nunca tirar os olhos da estrada como lhe disse.
- Okay, agora é que não consigo mesmo adivinhar, vá diz-me!
- "Okay Hazel Grace? Okay!" - reproduziu ele tentando imitar o Augustus Waters.
- Tu estiveste a ver "A culpa é das estrelas"? Mas porquê!? - não consegui conter o riso.
- Porque nunca tive uma namorada antes, não sabia como fazer as coisas, como ser contigo...
- Mas tu já tiveste tantas raparigas antes de mim!
- Tu não entendes mesmo, pois não Alice!?
- Nunca eram a sério, eram sempre por causa da imagem, ou por causa do futebol, serviam para virem a jantares comigo e com a minha família, não vou dizer que não gostava delas, gostava, mas estavam lá só para me divertir, nunca foi algo sério, nunca me apaixonei verdadeiramente por ninguém...
- E como é que tu sabes que comigo é diferente? Como é que sabes que eu também não sou mais uma como as outras? Que não me estás só a usar?
- Porque eu nunca na minha vida tive de lutar por algo, nunca precisei, sempre consegui tudo o que queria como num estalar de dedos, mas depois uma pitinha irritante não me quis logo à primeira, o que fez com que eu a quisesse chatear, fazê-la ver que eu existo, e olha ao que isso me levou... ao amor da minha vida!
- Essa pitinha irritante por acaso sou eu!?
- Podes querer que és! - exclamou ele rindo-se. - Nunca pensei que alguém fosse capaz de me negar da maneira que tu negaste, mas isso deu-me ainda mais razões para andar atrás de ti...para te tentar conquistar...
- Como se eu fosse um desafio?
- Sim, digamos que eras o meu desafio pessoal! O problema, foi que eu acabei apaixonado pelo meu desafio e agora não me consigo afastar dele nem por um segundo!
- Tu és louco! - sorri encostando a minha cabeça na janela e dando-lhe a mão novamente.
- É, pode dizer-se que sou louco, completamente louco, pela mulher que tenho sentada a meu lado! Ah e by the way, Lana del Rey?
- Já sabia que tinhas descoberto, fui assim tão óbvia!?
- Não sei..., mas cantar uma música com tanta emoção e quase insistir para que voltem a passá-la na rádio... talvez um pouco óbvia! - ele voltou a sorrir. Os seus olhos intercalavam entre a estrada e eu, conseguia vê-lo pela visão periférica.
A viagem parecia demorar horas, algo que não me importava nada, pois eu dava tudo para continuar neste carro, sentada ao lado do Henrique, com a minha mão entrelaçada na sua, em cima da alavanca de velocidades, enquanto vejo como é linda Lisboa à noite.
- Obrigado Henrique! Obrigado pela melhor festa da minha vida, mas acima de tudo, obrigado por me mostrares quem eu sou de verdade!