Capítulo 33
ALICE
Não sei para onde ele me leva, confesso que estou surpreendida com tudo isto, quando desliguei a chamada no outro dia fiquei mesmo muito triste, ele era a minha última esperança, só ele é que podia fazer o meu dia de anos valer a pena e naquele momento é que percebi isso, a verdade, é que só percebemos a falta que uma pessoa faz quando já não a temos por perto e eu sei muito bem o que isso custa, relativamente ao Henrique, mas principalmente à minha mãe, sinto tanto a sua falta.
- Estamos quase a chegar! - disse-me ele inclinando-se para mim.
Durante toda a viagem pouco falamos, ainda tentei descobrir onde íamos dizendo sítios ao acaso, mas ele não se descoseu nem por um segundo. Houve um momento, em que a uma música da Lana del Rey começou a tocar na rádio, cantei-a do início ao fim e reparei que ele me observava pelo canto do olho enquanto também olhava para a estrada, só no fim da música é que me lembrei de que ele ainda não sabia que ela era a minha cantora favorita, mas provavelmente agora descobriu.
- Mas Henrique, nós estamos a ir para o Algarve!
- Sim, é esse o plano... - disse ele sorrindo.
Depois de passarmos pela pequena imitação de Hollywood, seguimos viagem pela autoestrada. O Henrique só veio uma vez ao Algarve, sei disso, pois conversamos bastante quando fomos visitar os pasteis de Belém. Será que me vai levar a Odeceixe? Era uma grande possibilidade, ele sabe a quantidade de saudades que eu tenho da minha cidade. Mas não, ele virou na placa que dizia "Lagoa". Só estive uma vez em Lagoa, foi numa visita de estudo ao parque aquático "Slide & Splash", posso admitir que foi uma experiência incrível, tirando o facto de que os professores andavam constantemente atrás de nós e debitavam as regras incessantemente, pareciam papagaios.
- Já lá foste!? - perguntou-me ele. Não estava a prestar atenção ao caminho, vinha a olhar para ele. Aquele ar de descontração, mas, ao mesmo tempo de ansiedade deixa-me ainda mais curiosa. Ele é lindo, não sei como é capaz de andar com uma miúda como eu, não faz sentido.
- Anh, onde!?
- Ali, ao parque aquático! Estou sempre a ver os anúncios na televisão, mas nunca cá vim.
- Sim, já visitei uma vez, vim com a escola numa visita de estudo, foi engraçado... É aqui!?
- Aqui o quê!?
- É aqui o sítio? - estou muito curiosa, tenho de saber.
- Referes-te ao parque? Ah não, lamento princesa, mas ainda vais ter de esperar mais um pouco.
A maneira como ele fala faz-me rir, parece que me quer levar numa aventura como num filme, não é bem algo que eu aprecie, mas gosto de ver que se está a esforçar por mim. Volto a olhar para ele e reparo que está fixado em mim, os seus olhos verdes estão radiantes, parece uma criança quando vê um doce.
- Porquê que estás a olhar para mim assim!? - perguntei eu enquanto sorria. Confesso que estou um pouco envergonhada, nunca nenhum rapaz olhou para mim assim, desta forma.
- Porque tu és bonita! Eu adoro olhar para pessoas bonitas!
Senti as minha bochechas corarem imediatamente, contudo, apeteceu-me brincar um bocado com ele.
- A sério, gostas assim tanto de olhar para pessoas bonitas? Não sei se te lembras, mas... eu tenho uma irmã gémea, que por acaso é idêntica a mim, somos gémeas verdadeiras...
- Lamento informar-te, mas tu és ligeiramente diferente da tua irmã... - dizia ele enquanto olhava para a estrada.
- Ai sim, então porquê!?
- Porque a primeira de vocês que eu conheci foi a Inês, mas a única por quem eu me apaixonei foste tu, isso quer dizer que vocês podem ser muito iguais por fora, mas por dentro, ninguém é mais bonita do que tu!
O que se passa com ele? Parece que passou a noite toda a ler romances de Austen, está tão romântico, tão carinhoso.
Apenas sorri em resposta à pequena declaração que ele acabou de me fazer, declaração essa que eu por acaso adorei. Quando era mais nova, detestava que os rapazes se metessem comigo ou com a minha irmã, a maior parte deles queria andar com as duas ao mesmo tempo, coisa que eu nunca entendi, mas quando ele entrou na minha vida, as coisas foram diferente, parecia que por muito que eu quisesse afastar-me dele, um íman gigante atraía-nos um para o outro, é inevitável.
Assim que dei por mim, uma praia lindíssima ocupava todo o plano do para brisas.
- Chegamos! - exclamou ele depois de estacionar.
- Eu acho que estou a conhecer isto, não tenho a certeza, mas...
- Shhh! Não estragues a surpresa com a tua inteligência! - disse ele. Ri-me nesse instante, ele é tão engraçado, parece que ainda não sei nada sobre a sua personalidade, desde que nos conhecemos teve visto vários Henriques, o senhor convencido, o brutamontes, o namorado perfeito...
- Pronta!?
... o que me interrompe sempre os meus pensamentos.
- Sim, quero ver o que preparaste!
Saímos do carro e ele foi à mala de onde tirou uma caixa de papel com a imagem de um barco insuflável.
- Ahm, vamos andar de barco? - perguntei. Era uma ideia incrível, tenho imensas saudades de passear pelo mar.
- Sim, mas vá agora não perguntes mais nada por favor, se não descobres logo!
- Okay, okay, a partir de agora eu prometo que não pergunto mais nada! - disse eu cruzando os dedos à frente da boca e beijando-os de ambos os lados. O Henrique riu-se após eu fazer isso, assim como eu.
Descemos até ao areal e eu posso afirmar que estou completamente maravilhada com esta praia, a areia é quente, fazendo um perfeito contraste com a água que é bastante fria, algo que eu nunca pensei ver no Algarve, mas das coisas mais intrigantes, é o facto de que nesta praia não há cascas de mexilhão, nem pequenos búzios, existem apenas conchas, de todos os tamanhos.
- Uau, nunca tinha visto uma concha tão grande! - disse ele pegando nela e aproximando-se de mim.
- É mesmo linda, nunca tinha visto uma praia assim, só com conchas.
- Nem eu, parece que acertei em cheio!
- És mesmo convencido não és!? - perguntei eu empurrando-o e fazendo com que caísse na areia quente.
- Talvez só um bocadinho, mas tens de admitir, desta vez esmerei-me!
- Talvez só um bocadinho... - disse eu imitando-o de propósito.
Esticamos as toalhas na areia e deitamo-nos durante algum tempo, o dia está incrível, não corre vento e o sol está lá no alto, devem ser por volta das onze da manhã, talvez quase meio dia.
- Estou a ficar com fome, o que me dizes de irmos ali ao café ver o que há para o almoço? - perguntou ele enquanto se virava para mim.
- Hmm, também estou com fome, é melhor irmos ver o que tem antes que comece a encher.
O café era muito giro por dentro, tinha uma vibe bastante descontraída, mas, a melhor parte foi quando entraram dois rapazes e se sentaram na minha mesa enquanto o Henrique fazia os pedidos. Assim que ele os viu, voltou para a mesa deixando a senhora do café à espera e olhou para eles como se os fosse assassinar apenas com o olhar, Os rapazes nem sabiam onde se meter, foi hilariante.
- Estavas a gostar da companhia deles!?
- Anh!? - perguntei eu ainda a rir-me. - Achas mesmo, eu nem percebi muito bem o que eles queriam, eles só disseram que eu era bonita e tal, não ...
- Ai disseram que tu eras bonita!... Ora muito bem.
- Henrique, por favor não faças nenhuma cena! Hoje não! - reparei na sua cara que percebeu que tinha de se acalmar, as reações dele estão a tornar-se cada vez mais familiares para mim. Apenas baixou a cabeça e acenou positivamente dando-me razão.
- Desculpem, mas o pedido ainda não está terminado... Não sei se... - iniciou a funcionária dentro do balcão.
- Ah claro, peço desculpa! - O Henrique levantou-se novamente e foi até junto da rapariga para terminar o pedido do almoço.
Depois de alguns minutos, dois pratos, ambos com um hambúrguer, chegaram, tinham um aspeto delicioso e não demorou muito até serem totalmente devorados pela boca do menino Henrique, eu não entendo como é que ele consegue comer assim tão de pressa. No fim do almoço, voltamos para a praia, porém, ele não me deixou deitar na toalha.
- Pega nas tuas coisas e vem comigo!
- Vamos onde? - perguntei curiosa.
- Já vais ver!
Caminhamos até à água onde paramos para ele encher o barco insuflável, foi bastante rápido, pois ele tinha uma pequena bomba para concluir o serviço, se tivesse de o encher com a boca sairíamos daqui amanhã.
- Estás pronta? - perguntou-me ele ajudando-me a entrar para o pequeno barco.
- Acho que sim, já me podes dizer onde vamos!
- Hmm, não ainda não é o momento! Vá coloca isto!
- Uma venda?
- Sim, vá coloca lá!
Cada vez fico mais intrigada com o que será a surpresa. Coloquei o pedaço de pano em frente aos olhos e ele amarrou-mo na parte de trás da cabeça, senti um leve beijo na testa depois disso, sorri instantaneamente.
Senti que começamos a andar assim que ouvi os remos baterem na água, a brisa do mar é incrível, não há nada que se possa comparar a isto. Já tinha tantas saudades do meu mar, do cheiro a maresia, do sabor da água salgada.
Comei a ouvir o eco de pessoas a falarem, talvez estejamos a passar por alguma gruta... gruta... gruta...
- Estamos mesmo a chegar, é já ali à frente... Chegamos!
Retirei a venda imediatamente, e não posso acreditar no que estou a ver.
- Muitos parabéns Alice!