Capítulo 31

HENRIQUE

- Estou!? - disse eu ao atender a chamada da Alice. Não sei bem como reagir, sinceramente não esperava que me ligasse. Depois de todos estes dias separados já nem sabia em que estado estávamos.

Do outro lado da linha só conseguia ouvir uma respiração, respiração essa que parecia nervosa.

- Alice!? - perguntei eu. Estou neste momento a comprar a sua prenda de aniversário, ela consegue sempre ter o timing perfeito.

- Olá... - respondeu-me ela passados alguns segundos.

- Olá, estás bem!?

- Ahm, sim, sim estou bem... e tu?

- Também. Porquê que me ligaste? - não estou bem, não estou nada bem, estou cheio de saudades dela, do seu toque, do seu cheiro, dos seus beijos. Namoramos há tão pouco tempo, mas eu já sinto falta de tanta coisa relacionada a ela.

- Não sei bem, foi um impulso... - respondeu-me ela.

- Gostava que tivesses mais impulsos desses então. - disse eu enquanto dava um sorriso.

A senhora da loja onde estou perguntou-me baixinho se era para embrulhar, deve ter percebido que estou a falar com a tal pessoa especial que lhe falei há pouco. Acenei afirmativamente com a cabeça e ela sorriu enquanto fazia o embrulho.

- Ahm, Henrique...

- Sim?...

- Vais fazer alguma coisa daqui a dois dias? - perguntou-me a Alice. Não sei se lhe deva dizer que planeio ir festejar o seu aniversário apenas com ela, sei perfeitamente que não vai fazer festa e que provavelmente vai passar o dia no seu terraço a pintar.

- Sim, já marquei coisas com os meus amigos, mas porquê!? - menti eu.

- Nada, não é nada. Boa saída então... - disse-me ela. Senti o seu semblante mudar de repente, por um lado não a queria magoar, mas gostava mesmo de lhe fazer esta surpresa. Ela merece ter pelo menos um dia afastado de todos os problemas e eu também quero um dia com ela, só com ela.

- Obrigada...

- De nada ...

Desliguei a chamada segundos depois, tenho receio de que fique chateada comigo, mas é por uma boa causa. Decidi levá-la numa viagem, sei de um sítio que ela gostava muito de visitar e agora já não tenho medo de arriscar.

Levantei-me da cama e fui à garagem, penso que ainda tenho o barco de insuflável aqui guardado. Eu e os meus pais comprámo-lo quando fomos ao Rio de Janeiro, no ano passado, foram umas férias incríveis nas praias do Arraial do Cabo, lembro-me perfeitamente da quantidade de escadas que tínhamos de subir e descer para a praia do Portal do Atalaia, não que essa fosse a minha parte favorita do dia, porque de certeza que não era, porém, os mergulhos naquela água compensavam todo o esforço. Gostava de a levar lá também.

Não gosto de planear as coisas, sinto que nunca vão sair completamente como o preparado, portanto a única coisa que faço é pegar no barco e colocá-lo dentro da mala do carro, assim como a minha câmara fotográfica e a GoPro, espero poder tirar-lhe várias fotografias, sei que não é muito fã, mas é demasiado bonita para que não haja nenhuma recordação dela no sitio a que em vou levar.

Espero que esta viagem a surpreenda, tanto a ela como a mim, pois também nunca fui aquele local. Foi a própria Alice que me falou dele, no dia em que começamos a namorar, estávamos no oceanário perto do aquário das estrelas do mar, lembro-me perfeitamente de a ouvir dizer que adorava lá ir, pois provavelmente iria sentir-se como uma sereia da série "H2O".

O Tiago chegou enquanto eu estava na garagem e veio ter comigo para me contar tudo o que aconteceu com a Inês, assim como fazia todos os dias.

- Henrique? - chamou-me ele.

- Estou na garagem, anda cá! - gritei eu, levantando a cabeça da estante onde procurava o barco, para me fazer ouvir.

- Tenho novidades!

- Sou todo ouvidos! Ela já mordeu o isco!? - perguntei entusiasmado. Talvez a minha sede de vingança esteja a ultrapassar os limites, mas isso não me incomoda, pois, depois de tudo aquilo que ela me fez a mim e à Alice, eu já não tenho pena nenhuma daquela pitinha mimada.

- Eu acho que sim, até de mais, na minha perspetiva...

- Anh? Como assim, demais?

- Ela disse-me que estava a começar a gostar de um rapaz com quem tem falado todos os dias, disse que já não gostava tanto de ti...

- Então isso quer dizer que ela gosta de ti! Ótimo, o plano está a correr às mil maravilhas então! - exclamei eu.

- Não, isto não é nada bom... Se ela começa a gostar mesmo de mim, vai acabar por se magoar novamente...

- O plano era exatamente esse priminho, ela tem de sofrer, da mesma maneira que magoou a irmã, agora tem de receber as consequências dos seus atos...

- Tu não achas que estás a exagerar um bocado!? Ela é uma miúda, okay é mimada e faz coisas que não deve, mas continua a ser uma pessoa... Talvez a tua raiva esteja a passar fora dos limites Henrique!

- Ela merece tudo o que lhe está a acontecer, a Alice não deveria ter passado pelo que passou durante os tempos que cá esteve, devia ter sido uma boa mudança, mas foi completamente ao contrário. Também não é justo para mim, nem para ti, lembras-te!? Foste enganado assim como todos nós por uma miúda que pensa que pode fazer tudo o que quer sem sofrer as consequências... Para mim chega ela vai pagar por tudo o que me fez!

- Tu não te queres vingar da Inês por causa do que ela fez à irmã, queres vingar-te porque por ela ter feito isso, tu e a Alice quase que acabaram... é por ti, não é pela tua namorada... só estás a arranjar desculpas e isso faz de ti um fraco! - disse-me ele enquanto abanava a cabeça.

- Desculpa!? - disse eu. Estou seriamente a ficar revoltado com este puto. Ele não é ninguém para me falar assim. Talvez tenha um pouco de razão, talvez eu me queira vingar da Inês por tudo aquilo que ela me fez passar, por me ter enganado, pelo facto de ter passado uma noite inteira com ela pensando que seria a rapariga dos meus sonhos e era a parva da irmã gémea. Talvez a deteste por tudo aquilo que ela fez, por quase ter acabado com a minha relação, mas não é o meu priminho que me vai dizer isso, ele não tem o poder de me atirar à cara tudo o que quer, ele não é ninguém para o fazer.

- É isso mesmo que ouviste! És um fraco, nunca passaste de um fraco!

- Oh puto, se tu me voltas a chamar isso eu juro que te parto os dentes todos!

- Outra vez!? Mas tu não te cansas de arranjar maneiras de afastar a Alice de ti? Vá Henrique, bate-me! Pode ser que assim ela volte para mim, para a pessoa de quem ela gosta verdadeiramente!

- Eu avisei-te! - vociferei eu enquanto me dirigia ao meu primo.

Bati-lhe com toda a força que tinha, a única coisa que via à minha frente era negro, não consegui conter tanta raiva dentro de mim. Penso que nunca detestei tanto uma pessoa como este rapaz que tenho à minha frente, ele sabe como me irritar, sabe como me levar ao extremo. De todas as vezes que fala da Alice, ele tem noção de que me deixa cada vez mais revoltado, mas talvez seja isso que ele quer, ele quer a minha Alice e vai fazer de tudo para ficar com ela, até levar porrada se for preciso, para que ela me deixe pelo facto de eu ter uma faceta violenta que, até ele aparecer, eu desconhecia completamente.

Quando me lembrei de que isso poderia acontecer, a minha visão mudou e passei a ver o meu primo estendido no chão, o seu nariz e os seus lábios estavam banhados em sangue, assim como os nós dos meus dedos da mão. Os meus sentimentos neste momento estão completamente baralhados, por um lado sinto uma extrema vontade de partir a cara ao meu primo, mas por outro, parece que consigo ouvir a voz a da Alice na parte de trás da minha cabeça, que me diz para parar incessantemente.

Não quero exaltar mais a minha faceta de namorado violento, o problema, é que se ele continuar a picar-me eu não vou conseguir aguentar os meus impulsos. Nunca me senti assim, parece que tudo me faz ter medo de perder a Alice, principalmente o ex namorado dela e sendo ele meu primo, ainda me causa mais raiva.

- Já está? Já acabaste? - perguntava ele deitado no chão, com o pescoço ligeiramente inclinado para cima. Os seus olhos lacrimejavam, mas ele não deitou uma única lágrima, tentava fazer-se de forte apesar de eu ter a plena certeza de que estava a contorcer-se de dores por dentro.

- Tu não vales a pena, não dás pica! - respondi eu, enquanto o deixava estendido no chão da garagem.

Todos os direitos reservados 2019
Desenvolvido por Webnode
Crie o seu site grátis! Este site foi criado com a Webnode. Crie o seu gratuitamente agora! Comece agora