Capítulo 30
ALICE
Faltam dois dias, dois dias para a pior festa de aniversário de sempre. Todos os anos festejei juntamente com a minha irmã, preparávamos tudo juntas, o tema, os enfeites, os convidados, o sítio, tudo. Quando tínhamos cinco anos, os nossos pais realizaram a nossa festa num parque de diversões, foi uma surpresa, ou seja, eu e a Inês não sabíamos de nada, o que foi bastante engraçado, pois já tínhamos começado a pensar que não iríamos festejar o nosso aniversário naquele ano.
Este ano vai ser diferente, ela já está a preparar a dela, pelo que sei, vai ser numa cafetaria cá de Lisboa, vai convidar imensa gente e por esse motivo, pediu para que reservassem o local só para a festa. Eu não tenciono fazer nada, não quero obrigar o meu pai a dividir-se e fazê-lo escolher entre mim e a minha irmã, não seria justo.
- Alice, filha, não vens jantar!? - perguntava o meu pai do andar de baixo. Não sabia que já eram horas de jantar e muito menos que o meu pai estava em casa. Já passaram alguns dias desde a última vez que o vi, penso que foi no dia em que o Henrique bateu no Tiago.
Falando no Henrique, não faço ideia de como estamos, tenho saudades dele, muitas saudades, mas ao mesmo tempo, não tenho coragem de o encarar, ainda não me esqueci do que ele disse, da forma como falou, de como agiu perante mim, porém a falta que ele me faz também me afeta bastante e sabendo que faltam apenas dois dias para eu fazer dezasseis anos, isso custa-me ainda mais, pois gostava de festejar pelo menos com uma pessoa.
- Alice!? - gritava o meu pai. Deixei-me levar pelos meus pensamentos e esqueci-me de lhe responder.
- Desculpa! Já vou descer.
- Não demores, se não fica frio!
Levantei-me da cama, ainda estou de pijama, decidi que não seria necessário mudar de roupa, tendo em conta que não iria sair de casa. Tenho-me sentido fraca, talvez seja por não ter comido muito durante estes dias, mas não tenho tido muita fome. O Tiago tem estado cá, contudo, nunca recebo uma visita sua, ultimamente parece que só quer saber da Inês. Isso afeta-me sinceramente, nunca pensei que o meu melhor amigo me deixasse completamente desprotegida desta forma. Mas não era o Tiago que eu queria ver entrar pelo meu quarto, não era o som da sua voz que eu queria ouvir, nem sentir o cheiro do seu perfume, era o dele, o do Henrique, daquele rapaz alto e moreno de olhos azuis, queria sentir o seu toque, ver o seu cabelo cacheado entrar por aquela porta, pintada com tinta azul.
Quando desci as escadas, o meu pai estava sentado à mesa com a minha irmã, ele trouxe o jantar de um take-away, filetes de pescada com salada russa, não é algo que me fascine, mas terei de comer de qualquer maneira, na realidade estou esfomeada.
- Senta-te Alice, os filetes estão a ficar frios. - pediu o meu pai. À mesa eu sento-me junto da minha irmã, porém, nestes últimos dias não temos jantado juntas, pois o meu pai tem feito o turno da noite.
- Pai quem era aquela mulher!? - perguntou a minha irmã.
- Quem!? - disse o meu pai rapidamente, parecia que estava preocupado com alguma coisa.
- Aquela que estava contigo no carro ainda há pouco... - continuava a Inês.
- Ahnm... ela é... ela é uma colega de trabalho, como o meu carro foi para o oficina, ela veio trazer-me a casa.
- O carro está na oficina!? - perguntei eu. Não é algo impossível, porém, ainda há pouco o vi a andar no carro e estava ótimo.
- Sim, problemas nos travões, não podia continuar a andar nele naquele estado.
- Pois, claro que não pai... - disse a Inês.
Tal como eu, ela pareceu não acreditar muito na história que o nosso pai acabou de contar. Ele estava muito nervoso e o facto de tentar mudar rapidamente de assunto, só me deu ainda mais certezas de que nos está a esconder alguma coisa.
- Então, já prepararam a vossa festa de aniversário? Só faltam dois dias. - dizia ele empolgado.
- Este ano decidimos fazer separadas, temos amigos diferentes agora e convidar todos para a mesma festa seria demasiado estranho. - disse a Inês. - Eu vou fazer a minha festa na cafetaria "Lovely day", é aquela ao fundo do quarteirão. Vou convidar os meus amigos da escola e o Tiago...
"Lovely day" é a cafetaria onde trabalha o Enzo, reconheço o nome pois lembro-me de ele me ter dito "tem um lovely day" à saída.
- Não vais convidar o Henrique? - perguntou o meu pai.
- Não, ele deve ir à festa de anos da Alice... - disse ela com um sorriso cínico estampado no rosto.
- Então e tu Alice, como vai ser a tua festa?
- Ainda não sei, não pensei nisso, talvez fique por casa... - respondi eu enquanto comia, só queria que ele não tivesse feito essa pergunta.
- Em casa filha? Mas não devia ser um dia especial!? Vais festejá-lo num sítio onde estás todos os dias?
- Ainda não estive na nossa piscina, pensei fazer a festa lá! - exclamei eu, tentado fazer com que pareça realista.
- Bem pensado, boa escolha! - respondeu ele piscando-me o olho.
- Vais trabalhar nesse dia pai!? - perguntou a Inês, tentando direcionar a conversa novamente para ela.
- Não, decidi tirar o dia para estar com vocês, mas como vão fazer a festa separadas não sei bem como vou fazer... - respondeu ele. Parecia preocupado, talvez tivesse motivos para isso, contudo, eu vou tentar fazer com que ele vá à da Inês.
- Pai podes ir para a cafetaria com a Inês, eu vou estar em casa, por isso quando a festa dela terminar vais estar comigo também.
- Tens a certeza filha?
- Sim, sem problemas!
O jantar correu melhor do que o que eu esperava, apesar de não ter dirigido uma palavra à minha irmã, também não houve nada que nos fizesse ficar ainda pior. O meu pai contou-nos um pouco das situações estranhas que aconteciam no hospital, disse que na noite passada, deu entrada um rapaz em coma alcoólico e junto com ele vinha uma rapariga, ela não estava bêbada, até pelo contrário, ela chorava imenso, pois nunca tinha visto o namorado naquele estado. Não entendo muito bem estas pessoas que gostam de se embebedar, não há motivo para isso, é algo que só lhes faz mal, mas cada um sabe de si.
No fim de arrumar a cozinha, fui para o meu quarto, sentei-me no chão encostada na cama, tenho o telemóvel nas minha mãos e o número do Henrique marcado na tela.
"Tu...tu...tu..."
- Estou!?