Capítulo 29
HENRIQUE
Os dias foram passando e o meu primo ia tentando fazer com que a Inês entendesse que ele gostava dela, porém, nunca lhe disse diretamente isso. Decidimos não contar à Alice nada relativo à vingança, foi o Tiago que disse que seria melhor assim, mas eu tenho a certeza que é pelo facto de ele ainda gostar dela.
Fui conhecendo-o um pouco melhor durante os últimos dias, ele não é má pessoa, contudo, é muito mimado e gosta de ter tudo à sua maneira, algo que temos em comum, por isso é que é tão difícil de nos entendermos.
Nunca mais brigamos a sério, até nos temos dado razoavelmente bem, mas também não temos estado com a Alice, pelo menos eu não. No dia logo a seguir à grande discussão, o meu primo foi lá a casa e foi ela quem nos abriu a porta, mas não quis falar comigo. O Tiago tem feito muito bem o seu papel, tem estado muito tempo com a Inês, não no seu quarto, mas na sala ou no terraço e na piscina, penso que está a ser bastante convincente.
Ainda não decidi que prenda dar a Alice, o Tiago disse que a festa delas seria no dia cinco de julho, o dia dos seus anos. Estou um pouco ansioso na verdade, é a primeira vez que sinto a responsabilidade de agradar alguém. Antigamente eu não sentia essa necessidade, elas é que costumavam tentar agradar-me a mim.
Faltam dois dias para a festa, tenho pouco tempo para escolher a prenda e o pior é que não tenho ajuda de ninguém.
Aquela caixa que o Tiago trazia na mão, no dia em que andamos à porrada, era a caixa onde estava um colar de ouro para a Alice. Foi a coisa mais pirosa que eu vi em toda a minha vida, por isso mesmo é que me comecei a rir mal ele abriu a pequena caixa.
- De que te ris? - perguntou-me ele.
- É isso que lhe vais dar!? Ah, ah, ah! Um colar com um pendente de um coração gigante!? Se ela puser isso no pescoço cai só com o peso! Ah, ah, ah!
- Cala a boca, tenho a certeza de que ela vai gostar, a mãe tinha um parecido com este!
Eu não entendo muito bem porquê que as pessoas têm a mania de dar de presente algo igual ao que um falecido tinha ao familiar mais próximo. Isso só lhe vai trazer recordações, que podem ser boas ou não.
Mas bom, eu pensei em dar-lhe algo relacionado com o mar, pensei levá-la ao Algarve, mas, duvido que ela venha comigo, depois pensei oferecer-lhe uma viagem de cruzeiro pelo Tejo, porém, ela não iria aceitar também.
- Já sei! - gritei eu.
- Henrique falaste!? - perguntou-me o meu pai.
- Não, não falei, vou sair!
- Onde vais!? - falava ele da sala.
- Não interessa, se o Tiago chegar diz-lhe que eu saí e que não demoro muito!
TIAGO
- Não vais entrar!? - perguntava-me a Inês dentro da piscina.
- Hmmm, não sei, a água está fria...
- Não está nada! Nem pareces um surfista a falar!
- Tens razão, eu vou entrar! - exclamei eu.
A Alice raramente tem saído do quarto, tenho pena, porém, isso até me ajuda, caso ela estivesse sempre presente eu não iria conseguir fazer o que estou a fazer com a Inês, não iria conseguir deixar de olhar para ela, nunca iria resultar. A missão não tem sido complicada, comigo a Inês parece ser mais calma, mais simpática, mais compreensiva. Não lhe disse ainda diretamente que supostamente gosto dela, porém, penso que não tem sido necessário. Tenho-a ajudado a planear a sua festa de dezasseis anos, mas ela não a vai fazer junto com a irmã, sinceramente não sei se a Alice vai fazer alguma festa, ela tem estado muito em baixo.
- Estou à tua espera... Tiago!
- Sim? Desculpa, estava distraído!
- Já reparei, vá entra!
Por incrível que pareça tenho mesmo gostado da companhia da Inês, ela tem sido muito simpática comigo, temo-nos dado como antigamente, antes da Matilde morrer. Pensei em dizer-lhe que "gosto dela" no dia dos seus anos, talvez seja bem pensado, pode ser que seja surpreendida, e como a Alice não vai estar presente facilita-me a vida.
- Tiago tenho falado bastante com um rapaz!
- A sério!? - perguntei eu enquanto nadava em direção a ela.
- Sim, tenho estado quase todos os dias com ele... - dizia ela aproximando-se de mim.
Tenho medo de que o rapaz de quem ela fala seja eu, não que tenha algum mal, mas eu não sinto nada a sério por ela e não a quero magoar totalmente, como o Henrique quer.
- Tens gostado da sua companhia!? - perguntei.
- Bastante, ele é muito simpático para mim, têm-me dado muita atenção, mais a mim do que à Alice!
- Isso é bom!?
- Muito bom! Acho que até já nem gosto tanto do Henrique como gostava...
- Mas Inês, ele pode não sentir o mesmo que sentes por ele...
- Sim, mas temos estado tão bem, somos tão compatíveis!
Estou seriamente a ficar com medo, eu gosto muito da Inês, não quero que ela se magoe, sei que merece, contudo, é como o Henrique disse, ela só precisa de atenção, sempre foi muito mimada e quando a mãe morreu tudo mudou, ela mudou.
- Tenho gostado muito de estar contigo Tiago! Obrigada! - disse-me ela abraçando-me.