Capítulo 24
HENRIQUE
Estou sentado no meu quarto, não me consigo mexer, acho que nunca chorei tanto na minha vida como nesta manhã. Como é que ela foi capaz de me fazer isto? Estava tudo a correr tão bem, nunca me tinha sentido tão feliz, como me senti ontem no oceanário. Não entendo porquê que ela me fez passar por uma coisa destas, não faz sentido. Eu não consigo acreditar que ela me tenha enganado todo este tempo, se assim foi porquê que me afastou tanto nos primeiros dias? Porquê que não se aproximou logo de mim como todas as outras fizeram? Não entendo, simplesmente não faz sentido.
Olhei para a carpete branca do meu quarto, estava completamente machada com o sangue do meu primo, ele mereceu o que lhe fiz. Assim que entrei no meu quarto e o vi agarrado à minha Alice descontrolei-me, tudo o que via era negro e quando me aproximei dele a necessidade de o ver sofrer foi maior. Bati-lhe com toda a força que tinha, sabia perfeitamente que estava em vantagem, tendo a conta a minha altura e o meu físico, mas não me importei nem um segundo com isso.
Ouvi a Alice chamar-me, pedia-me incessantemente para parar, mas eu não conseguia, tinha a cara do meu primo colada à minha mão, parecia impossível acabar com aquilo.
- Henrique para! - gritou ela. Olhei para trás e encarei-a, vi que não conseguia parar de chorar, os seus olhos estavam completamente vermelhos e estava quase sem fôlego.
O que aconteceu depois destruiu-me por dentro, nunca pensei ouvir aquilo vindo dela, não é possível que tudo o que ela me disse seja verdade. Não acredito nela.
TIAGO
- Inês, podes-me levar até ao quarto de teu pai, estou todo partido, preciso de descansar!
- Mas não vais almoçar? Está quase na hora!
- Se não te importas eu preferia mesmo ir descansar, não consigo comer por causa do lábio.
- Pois, já reparei que não, se quiseres eu posso levar-te uma sopa ao quarto ou assim.
- Deixa estar, eu só quero dormir mesmo! - pedi-lhe eu.
A minha amiga levou-me até ao quarto do doutor Daniel, todos foram muito simpáticos e gostaram da minha vinda, menos a Alice, a razão pela qual eu estou aqui deixou-me completamente na mão.
Depois de me deitar na cama, a Inês ligou a televisão e saiu do quarto. Sei que o da Alice é colado a este, mas não consigo ouvir nada para além de música. Aposto que está a ouvir alguma da Lana del Rey, ela sempre foi a sua cantora favorita.
Sinto necessidade de ir até lá falar com ela, preciso de entender porquê que ela reagiu assim, depois de tantas conversas depois de tantos "amo-te". Levantei-me novamente da cama, com muito custo, e fui até à sua porta.
"truz truz"
- Alice posso entrar? - perguntei eu.
Não obtive qualquer resposta da sua parte, talvez não tenha ouvido, por isso, voltei a bater.
- Quem é? - respondeu ela. A sua voz era de choro, consigo perceber pelo facto de estar anasalada.
- Sou eu Alice, posso entrar?
- É melhor não, devias estar a descansar.
- Eu queria mesmo falar contigo, acho que precisamos de resolver umas coisas...
Ouvi passos vindos de dentro do quarto e a maçaneta da porta a rodar.
- Entra...
A cara da Alice estava vermelha, assim como os seus olhos. Não entendo porque chora, a única vez que a vi assim foi quando a sua mãe faleceu. Quando isso aconteceu ela ficou completamente irreconhecível, não comeu por dias, não saía do quarto e a única pessoa que lá entrava era eu e a irmã. Já a Inês foi diferente, depois do que aconteceu, ela tornou-se bastante independente e as suas atitudes começaram a mudar um pouco. Como o doutor Daniel estava poucas vezes em casa, ela começou a sair cada vez mais e a menina que antes era calminha e carinhosa tornou-se mais vingativa, despreocupada e só queria saber de rapazes.
O meu irmão gostava dela, gostava mesmo muito dela, mas desde a morte da sua mãe, a sua mudança fez com que tudo aquilo que ele sentia mudasse, porém nunca deixou de gostar da irmã da Alice a cem porcento. No último dia em que elas estiveram em Odeceixe ele sabia que provavelmente seria a última vez que a ia ver, por isso é que aquele beijo aconteceu.
- O que querias falar comigo? - perguntou a Alice enquanto se sentava na secretária e desligava a música do gira discos.
- Porquê que reagiste daquela maneira quando viste o meu primo? - preferi ser direto, tenho mesmo de obter respostas.
- De que maneira?
- Nem me abraçaste quando me viste, ficaste sempre a olhar para ele!
- É que eu estava em choque, não esperava ver-te ali...
HENRIQUE
Tenho de ir a casa dela, tenho de falar com ela, não consigo continuar aqui parado, sentado no chão e saber que ele está com ela.
Saí do meu quarto depois de lavar a cara, calcei umas sapatilhas brancas da Nike e corri para casa dela. Bati à porta mal cheguei, mas ainda demoraram para me abrir.
- Henrique? O que estás aqui a fazer!? - perguntou-me a Inês depois de me abrir a porta.
- Preciso de falar com a Alice!
- Ela agora está ocupada, está a falar com o Tiago no quarto dela.
Mas aquele imbecil não acha que já apanhou o suficiente? Eu não posso deixar que ele a beije outra vez. Entrei de rompante em casa delas, acho que até empurrei a Inês, o que não me incomodou nem um pouco. Corri pelas escadas acima e abri a porta do seu quarto, é a primeira vez que aqui entro. É incrível, nunca pensei que fosse assim tão bonito, mesmo que não soubesse que era dela eu adivinharia logo à primeira.
- De que maneira?
- Nem me abraçaste quando me viste, ficaste sempre a olhar para ele! - exclamou o meu primo.
- Henrique!? - disse a Alice assim que me viu.
- Já lhe contaste!? - perguntei eu.
- Contou-me o quê!? - disse ele aproximando-se de mim. Ele que não se atreva a dar mais um passo, ou vai arrepender-se profundamente.
- Nada! Não há nada para dizer! - exclamou a Alice.
- Como não há nada para dizer? Não lhe contaste que nós namoramos!? - perguntei eu. Mal acabei de dizer isto o Tiago olhou para a Alice, o seu semblante mudou automaticamente de menino autoritário para um namorado traído.
- Isto não é verdade, pois não Alice!? - perguntou ele.