Capítulo 23

INÊS

Ouvi barulho no andar de baixo, sei que o meu pai entrou, mas, depois disso, mais duas pessoas chegaram, ouvi perfeitamente a voz da Alice, porém, não sei quem está com ela. Depois de algum tempo, sei que a minha irmã subiu as escadas e foi para o quarto, mas a porta da entrada não abriu nem fechou, o que quer dizer que a pessoa continua cá dentro, tenho de saber quem é.

Saí do meu quarto e fiz questão de fazer barulho, não quero saber se a incomodo ou não, desci as escadas e segui em direção à sala, lentamente.

- Au, isso dói! - ouvi alguém a dizer. Esta voz não me é estranha, mas não consigo decifrar quem será a pessoa. Parece que se magoou.

- Vá, tem paciência, é só mais um bocado, aquele homem deixou-te mesmo em mau estado! - dizia o meu pai.

- Au!!

Entrei na sala silenciosamente, não queria estar a intrometer-me, mas, assim que reparei na pessoa que estava sentada ao lado do meu pai, no enorme sofá de pele branco, fiquei boquiaberta e gritei:

- Tiago! Tiago o que te aconteceu!? Quem te fez isto? - corri na sua direção e sentei-me a seu lado.

- Olá Inês! Au... estou bem, foram só uns arranhões.

- Uns arranhões!? Tiago tens a cara cheia de sangue! Quem te bateu!?

- Foi o Hen... foi o motorista do uber!

Apercebi-me de que me tinha mentido, foi o Henrique que lhe bateu, de certeza, caso contrário ele não teria começado a dizer o seu nome. Mas porque será que o Henrique bateria no Tiago, não faz sentido.

- Pai, deixa estar, eu acabo o curativo, vai para o hospital, já se está a fazer tarde!

- Tens razão filha, tenho de ir! - disse ele olhando para o relógio de pulso. - Adeus Tiago e vê se não te metes em mais confusões. Ah, Inês o Tiago vai dormir cá esta noite, vai dormir no meu quarto, por isso, se ele precisar de alguma coisa ajuda-o.

- Okay pai, bom trabalho!

- Obrigada senhor Daniel! - exclamou o meu amigo.

O meu pai pegou na pasta e saiu para o hospital segundos depois. Assim que ouvi a porta fechar, virei-me para o Tiago e enquanto lhe fazia o curativo perguntava:

- Porquê que o Henrique te bateu!?

- Anh? Não, não foi o Henrique, foi o motorista do uber, já te tinha dito!

- Ai sim, então como é que sabes de que Henrique é que eu estou a falar!? - caiu perfeitamente na minha ratoeira, foi demasiado fácil. Sempre consegui que ele me dissesse tudo, mesmo quando não queria. Eu e o Tiago éramos como irmãos, apesar de eu ser apaixonada por ele, desde que ele entrou para a minha turma, mas tornamo-nos grandes amigos, ele é o meu melhor amigo.

- Ahm, eu não sei quem é, simplesmente estava a dizer que não foi esse tal Henrique...

- Tiago, por amor de Deus, tu não me consegues mentir, nunca conseguiste! Eu apercebi-me de que ias dizer Henrique e depois mudas-te...

Ele não me respondeu, apenas abanou a cabeça em forma de derrota. A sua cara estava completamente desfigurada, o seu nariz escorria sangue e os seus olhos estavam pisados, parecia que tinha saído de um dos filmes do Rocky Balboa.

- Tira a camisa! - mandei eu.

- Anh!?

- Tira a camisa por favor, preciso de ver se tens mais alguma nódoa negra.

- Inês eu estou bem, isto não foi nada...

- Se não me vais contar porquê que ele te bateu, pelo menos deixa-me tratar de ti!

Ele assentiu com a cabeça, e iniciou o movimento para retirar a camisa do corpo, porém, sem sucesso. Ele não conseguia erguer os braços, caso o fizesse, perderia a respiração.

- Tiago espera, eu ajudo-te!

Cheguei-me perto dele e tirei-lhe a camisa, nunca pensei que estaria em tão mau estado. Os seus abdominais estavam cobertos por hematomas gigantes, pobre coitado, ele não conseguia mexer-se.

- Não me vais mesmo dizer o que aconteceu!?

- Porquê que insistes tanto Inês, não foi nada de mais!

- Eu conheço o Henrique e ele não é violento, por isso, para ele ter feito uma brutalidade destas alguma coisa deve ter acontecido e aposto que sei de quem foi a culpa...

- Eu também não entendi o que aconteceu...

- Vais contar-me, ou vou ter de te obrigar? - perguntei eu apontando-lhe um pedaço de algodão coberto de álcool etílico.

- Eu conto! - exclamou ele. - Tenho falado com a Alice todas as noites, fico à espera da sua chamada de madrugada, costuma ligar-me por volta das duas da manhã, mas continuando, temos falado muito, sobre todas as coisas, mas há uns dias atrás, ela começou a dizer que me amava e que queria voltar a estar comigo, era óbvio que eu tinha de vir para cá. Por isso, falei com a minha mãe e com a minha tia, a mãe do Henrique, e vim...

- Então tu e ele são primos!? - estou completamente estupefacta com toda a situação.

- Sim, somos primos. Tudo estava a correr bem, cheguei a sua casa, conheci-o, ele mostrou-me o quarto onde eu ia dormir e perguntou-me porquê que eu tinha vindo passar cá uns dias, ao que eu respondi que vinha ter com a minha namorada.

- Mas então tu e a minha irmã já voltaram!? - perguntei eu. Sei perfeitamente que não, mas não quero que ele entenda que em todas aquelas chamadas noturnas não era a minha irmã que fala com ele, mas sim eu.

Eu não podia deixar que a Alice ficasse com o Henrique, não seria justo, então pensei que se falasse com o Tiago, fingindo ser ela e que se ele viesse mesmo para cá, tudo ficaria resolvido, ela voltaria para o ex-namorado e eu poderia finalmente ficar com o meu Henrique.

- Não sei, eu achava que sim, até esta manhã.

- Como assim!? - estou curiosa.

- A Alice foi lá, a casa do Henrique, não entendi porquê. Quando a vi o meu coração disparou, estava com tantas saudades dela, precisava tanto de ...

- Passa à frente...

- Desculpa! Bom, fui ter com ela mal a vi e ela pareceu-me diferente, não retribuiu o abraço que lhe dei, e ficou o tempo todo a olhar para o meu primo. Passado algum tempo ela pediu para falar comigo e fomos até ao quarto dele para conversar mais à vontade, mal tive oportunidade beijei-a, mas assim que ele entrou no quarto passou-se e atacou-me! Não percebo porquê, não faz sentido na minha cabeça! Sabes de alguma coisa?

- Eu, eu não sei de nada! Tens de perguntar à tua namorada o que aconteceu!

Não gosto de lhe mentir, mas a Alice merece, não é justo tudo aquilo que eu tenho passado por culpa dela, eu mereço ser feliz e se posso utilizar o Tiago para o conseguir, então é isso que eu vou fazer. Para além do mais, eu só os tentei juntar, não é propriamente algo de errado, ninguém sabe quais eram as minhas verdadeiras intenções.

A única certeza que tenho é que a minha querida irmã vai pagar bem caro por tudo aquilo que me fez!

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