Capítulo 18
Fiquei a conversar com o Enzo até acabar a minha taça, ele é um rapaz muito simpático, soube que ele tinha dezoito anos e andava na escola para onde eu entrei, trabalha nesta cafetaria em part-time, durante as férias de verão, pois os seus tios são os donos.
Não lhe falei muito sobre mim, não há muita coisa para contar tirando a minha idade e o facto de que anteriormente vivia no Algarve. O Enzo é uma pessoa bastante interessante, disse-me que adorava viajar e ouvir música, assim como eu e que já foi à cidade onde eu morava, passar férias.
- Bem, tenho de ir embora, a minha irmã está a dar uma festa em casa e é melhor eu lá estar.
- Tens uma irmã!? Mais nova ou mais velha? - perguntou-me ele.
- Somos gémeas na verdade. - sorri.
- Uou, eu adorava ter um irmão gémeo, deve ser mesmo giro!
- Tem dias, mas eu agora tenho mesmo de ir, quanto é!?
- Deixa, esta é por conta da casa! - ele sorriu e ajudou-me a levantar da cadeira.
- Porquê!? - perguntei. Não há necessidade de ser por conta da casa, não faz sentido.
- Porque eu gostei de te ter como companhia e quero que voltes cá mais vezes...
- Ahm Enzo, eu já fazia tenções de cá voltar, não é necessário pagares-me o lanche!
- Eu insisto Alice, quero mesmo voltar a ver-te! - repetiu ele enquanto olhava para mim.
Mas o que se passa com toda a gente ultimamente? Primeiro o Henrique, agora o Enzo, mas está tudo doido. Quando eu pensava que as coisas não poderiam mudar mais, lá vem a vida e faz-me ver o contrário. Talvez sejam os ares de Lisboa.
- Bem, obrigada então! Até um dia destes!
- O mais rápido possível, espero eu!
Saí da pastelaria e tentei recorrer ao meu telemóvel para ver que horas eram, mas só aí me apercebi de que não o tinha trazido comigo. Bolas, tenho de voltar para casa, se não, já estou a imaginar o colapso nervoso que a Inês vai ter.
Acelerei o passo, a cafetaria não ficava muito longe do condomínio, apenas dois quarteirões à frente, até que, assim que entrei no portão, lá estava ele a aproximar-se dentro do carro.
- Alice, Alice precisamos de falar! - gritava enquanto parava o carro e corria atrás de mim.
Desatei a correr à sua frente, não estou preparada, acho que nunca vou estar, não sei o que lhe dizer agora.
- Alice para, deixa-me falar contigo caramba!
- Deixa-me em paz, eu... - senti que ele me agarrou o braço, agora não tenho escapatória possível.
- Alice nós precisamos de falar e vai ser agora!
- Vais levar-me à força é? - perguntei eu olhando fixamente para os seus olhos castanhos caramelo.
- Se for preciso...
- Tu não estás a falar a sério, pois não!?
- Nós temos mesmo de falar e não vai passar de hoje!
- Okay, diz então...
- Mas não aqui! Noutro lugar.
- Onde?
- Deixa de ser curiosa, entra no carro e já vês!
- Só entro se me disseres onde vamos. - tento fazer com que ele perceba que só vou se eu quiser, não quero que pense que tem total poder sobre mim e sobre as minhas escolhas.
- Alice, por favor, é uma surpresa...
- Okay, eu vou, mas porque estou curiosa com o local, não por ti!
- Sim, sim eu já sei, vá entra lá no carro!
A viagem ainda demorou um pouco, mantivemo-nos em silêncio o tempo todo, o único barulho que se ouvia era o som das músicas que passavam na rádio.
- Acho que já descobri quem é a tua cantora favorita... - disse ele quebrando o silêncio.
- Ai sim, e quem é ela!?
- Miley Cyrus!
- Ups, quase que acertavas!
- A sério? Estou perto!?
- Não, nem por isso... - ri.
Começamos a aproximarmo-nos cada vez mais do rio Tejo, que por sinal é bastante bonito. Não faço a mínima ideia do local para onde vamos, ainda não conheço Lisboa, não sei onde estou.
- Ainda falta muito? - perguntei.
- Não, estamos mesmo quase a chegar!
Passados alguns minutos, o Henrique estacionou o carro, pediu-me para que tapasse os olhos e levou-me às cegas até ao tal sítio.
Ouvi-o falar com alguém, mas obviamente não reconheci a voz e apercebi-me de que estávamos em cima de uma ponte. Barulho de passarinhos era possível escutar do local onde estávamos, será que me trouxe a um parte ou um jardim, onde estamos?
Senti que entramos em algum lado, deixei de ver luz pelas pálpebras, ficou frio aqui dentro, mas ainda não consegui descobrir onde estamos.
- Alice, quando eu disser três podes abrir os olhos!
- Okay!
- 1...2...3!
Assim que os meus olhos se abriram, deram de caras com um aquário gigante, raias, tubarões, peixes de várias espécies, tudo aquilo estava agora à minha frente.
- Tu, tu trouxeste-me ao oceanário!?
- Sabia que nunca tinhas cá vindo e pensei que fosse um bom sítio para falarmos, tendo em conta que adoras o mar!
- Eu, eu nem sei o que dizer Henrique!
- Gostaste da surpresa? - perguntou-me ele enquanto olhava para mim e me via a comtemplar o incrível aquário.
- Óbvio que sim, não se nota!? - saltei para os seus braços sem pensar duas vezes e abracei-o com força.
- Calma Alice, é só um oceanário... - disse-me ele enquanto afagava o meu cabelo.
- Não, tu não estás a entender, eu sempre quis vir cá, mas nunca tive essa oportunidade e agora que estou aqui, a ver tudo isto, eu nem sei como reagir! - olhei para ele e ele para mim, foi instantânea a forma como os nossos olhos se cruzaram e criaram um elo. Senti o seu rosto a aproximar-se, mas desviei-me e saí do seu abraço.
- Então, o que me querias dizer!? - perguntei enquanto me aproximava do aquário para poder tocar no vidro.
- Eu não sei, tens-me evitado durante duas semanas, o que é que isso quer dizer?
- Tenho-te dado espaço para que possas comer algumas gajas... - tinha de lhe dizer, não consegui guardar mais isto dentro de mim.
- O quê!? Mas tu estás parva!? De onde foste tirar essa ideia!?
- Não te lembras? Parece que os teus amigos te conhecem bem e já sabem o que tu andas a fazer...
- Tu estás a falar do quê Alice!? Eu não estou a perceber nada!
- Naquele dia, no dia em que nos beijamos e vimos o filme, nesse dia quando o teu amigo te ligou e disse "estás a comer alguma gaja?" ...
- Eu não entendo, o que tem isso de mal? Eu não estava a fazer nada com ninguém, eu estava contigo...
- Mas os teus amigos conhecem-te melhor do que eu e já sabem o que tu fazes quando faltas aos treinos de futebol!
- Anh? Alice, para por favor! Quantas vezes é que te tenho de explicar que sim, é verdade que eu era assim, é verdade que eu andava sempre com uma ou duas raparigas ao mesmo tempo, sim é verdade que eu faltava aos treinos para estar com elas, mas caramba Alice, ainda não entendeste? Eu já não sou assim! Não depois de ti...
- Eu não acredito em ti Henrique, ninguém muda assim tão rapidamente, é impossível, nós somos quem somos e nada vai mudar isso... e nós somos pessoas muito diferentes, eu não estou pronta para aceitar o tipo de relação que tu queres que eu aceite!
- O tipo de relação? Alice por amor de Deus, eu não estou a entender nada!
- O tipo de relação aberta que faz com que tu possas andar com quantas quiseres, esse tipo de relação!
- Relação aberta!? Ouve, tu não estás a perceber, eu só te quero a ti Alice, só a ti, eu não quero nenhuma relação aberta, eu quero namorar contigo, namorar a sério, eu sei que é difícil fazer-te acreditar em mim, mas essa é a verdade! Eu não quero mais nenhuma rapariga e acredita que se eu tivesse como te provar que estou a ser o mais sincero que consigo eu provava.
- Eu não consigo acreditar em ti!
- Alice, ouve-me! Eu amo-te, eu amo-te mesmo, não tenho outra maneira de te dizer tudo o que sinto por ti, nem este aquário seria suficiente para colocar tudo isso. Alice eu quero ficar contigo porra, só contigo! Quero conhecer-te, quero saber tudo sobre ti, quero passar os meus dias contigo, a ver-te pintar... quantas vezes tenho de te dizer isto para que acredites em mim!?
- Mas aquilo que ele disse não me sai da cabeça...
- Caramba Alice, eu não posso esconder o meu passado, essa é a verdade, eu não te vou mentir e esconder tudo aquilo que eu já fiz, mas lá está, é passado... preferes que te minta e que te esconda como sou, ou neste caso, como era!?
- Não...
- Então por favor, dá-me uma oportunidade, deixa-me mostrar-te que te posso fazer feliz, deixa-me ter a minha primeira relação a sério com uma rapariga verdadeiramente espetacular, deixa-me amar-te como tu mereces!
Todo este momento parece uma cena de um filme, eu e o Henrique de mãos dadas em frente a um aquário gigante por onde os peixes conseguem assistir à declaração de amor mais linda que já me fizeram em toda a minha vida.
Olhei para ele novamente e vi que estava desesperado por uma reposta, mas eu não sabia como havia de lhe dizer que acreditava nele e que aceitava namorar com ele. Por isso, aproximei os meus lábios aos dele e beijei-o. Já sentia saudades da sua boca quente, daquele toque que me transportava para outro lugar completamente diferente. Senti as suas mãos agarrarem a minha cintura e levantarem-me no ar, eu acho que estou completamente apaixonada por ele, essa também é a verdade.
- Henrique, eu amo-te!