Capítulo 17

ALICE

Precisava mesmo de vir apanhar ar, a minha irmã está lá em casa a preparar a porcaria de uma festa para as novas amigas, só eu, continuo aqui sem um único amigo, bem talvez ele conte como meu amigo. Não tive coragem de falar com o Henrique depois do que aconteceu.

Depois do beijo e de toda aquela conversa que tivemos, eu comecei a ficar com frio, tinha as roupas todas molhadas e o vento do fim de tarde não ajudou muito. O Henrique levou-me para dentro de casa, subimos até ao seu quarto e ele dispensou-me uns calções pretos, de fato de treino, da Nike e uma T-shirt branca da mesma marca. As suas roupas ficaram-me enormes, mas senti-me confortável. Não me troquei na sua frente, preferi ir até à casa de banho para o fazer, quando saí, lá estava ele sentado na cama a olhar para o telemóvel.

- Uau! - suspirou ele.

- São muito grandes para mim. - ri.

- É, pareces um minimeu dentro delas, mas não te ficam nada mal!

- Pareço um o quê!?

- Um minimeu...

- O que é isso!? - eu não faço ideia do que ele me está a chamar, mas pelo seu ar de engraçadinho deve ser algo de mau, aposto.

- Tu nunca viste o filme "Artur e os Minimeus"!? - sinto que ele ficou espantado com a minha ignorância, mas a verdade é que não sei mesmo que filme é esse, nunca ouvi falar.

- Não, é sobre o quê?

- É um filme de animação em que o Freddie Highmore participa...

- Eu conheço o ator, eu já vi "The good doctor"!

- Esse mesmo, basicamente ele quer ajudar a avó a não perder a casa onde vivem e vai para o mundo dos minimeus, nesse mundo, todos os habitantes têm apenas dois milímetros de altura e ele apaixona-se pela princesa e blá blá blá... é mesmo giro o filme! Queres ver!?

- Ahm... aqui, contigo?

- Sim, porque não?

O Henrique não para de me surpreender, ele está aqui, sentado comigo, na sua cama, depois de eu lhe ter dado uma tampa. Será que ele gosta mesmo de mim, ou será que sou apenas mais uma que cai na sua teia?

- Okay, posso ver o filme, parece-me ser interessante!

Sentamo-nos na cama dele com o computador aos nossos pés, e ele abriu a Netflix para procurar o filme.

- Preparada!? - perguntou ele enquanto se ria.

- É só um filme...

- Yah, é só um filme que vais ver comigo, sentada na minha cama juntinha a mim...

- Henrique, podes por o filme a dar! - a maneira como ele fala, como ele diz que quer estar comigo, como ele se aproxima de mim, tudo me deixa sem saber como reagir, tenho tanto medo de ser apenas mais uma, de ser usada, eu não sei o que isso é e não quero saber. Ele é mais velho do que eu, já teve várias raparigas, já passou por experiências que eu nem devo fazer ideia de que existem. Somos tão diferentes, viemos de mundos diferentes, temos maneiras de pensar diferentes. Isto nunca vai resultar!

O filme começou e ele tinha razão, a história é realmente linda e o facto de terem misturado atores com animações criou algo incrível. A minha personagem favorita é sem dúvida o Betamech, ele é muito engraçado e por acaso também é a personagem preferida do Henrique.

O telemóvel dele tocou na parte em que o Artur encontrou o avô.

- Estou!? ... Eish pois é, perdi-me completamente nas horas! ... Não, não, avisa o treinador que eu não vou! ... Não posso, estou ocupado! ... Não, não estou a comer nenhuma gaja, agora tenho de desligar, tchau fica bem!

"Não estou a comer nenhuma gaja". Será que ele falta aos treinos para andar aí a namoriscar com raparigas? Só pode ser isso, caso contrário o amigo dele nem tinha dito nada. Eu já sabia, ele mentiu-me, era óbvio que ele não está pronto para uma relação, principalmente comigo, eu não entendo essa coisa de relações abertas, para mim não dá e com o Henrique de certeza que iria ser desse jeito, para que ele conseguisse ter todas as raparigas que quisesse, mesmo estando comigo.

- Desculpa Alice, era o António, eu esqueci-me completamente de que tinha treino de futebol hoje e então ele ligou.

- Não tem problema, eu também preciso de ir embora, já é tarde!

- Mas não queres acabar de ver o filme, está quase no fim!?

- Eu tenho mesmo de ir embora, o meu pai está quase a chegar a casa e eu tenho de fazer o jantar! - é mentira, o meu pai hoje vai ficar a fazer o turno da noite, tem uma cirurgia marcada que parece ser bastante importante vou passar o serão com a Inês.

- Porquê que não jantas cá? Eu podia preparar...

- Eu tenho mesmo de ir Henrique! - levantei-me da cama onde estava sentada junto a ele, peguei na minha roupa ainda molhada e ele acompanhou-me à porta depois de me emprestar uns ténis da sua mãe, que por incrível que pareça calça o mesmo número que eu, trinta e sete.

- Obrigada pela roupa, eu amanhã devolvo-ta!

- Deixa estar, podes ficar com ela, pode ser que te ajude a pensar no que te disse esta tarde, eu estou mesmo a falar a sério Alice!

Baixei a cabeça, não consigo acreditar nele, não depois daquilo que o amigo dele disse.

- Até amanhã! - disse eu.

- Até amanhã! - respondeu-me ele deixando um beijo na minha testa.

Após estas duas semanas, continuo sem saber o que pensar relativamente a toda esta situação, decidi não sair de casa, conversei apenas com o meu pai e com a minha irmã, sem mencionar o facto de ela se ter feito passar por mim, já estou farta de problemas. Tenho sentido a falta do Tiago, mas não da mesma maneira, já não falo com ele desde o dia em que eu e o Henrique nos beijamos.

À medida que o tempo passa, tenho-me apercebido de que aquilo que eu sinto pelo Tiago não passa de uma amizade, uma amizade verdadeira e muito forte, mas mais nada para além disso. O Henrique liga-me todos os dias, mas não tenho coragem para atender, nunca sei o que lhe dizer, sempre que vejo o nome dele estampado no ecrã do meu telemóvel, lembro-me das palavras do tal António. Não tenho saído de casa, para não ter de me cruzar com ele, tenho evitado ir ao terraço, algo que me tem deixado mesmo triste, só vou quando sei que ele está no treino de futebol, para não correr o risco de ser observada. Vou para a cama o mais cedo que posso e tento dormir logo, mas infelizmente ele aparece nos meus sonhos para me lembrar que me ama e que faz tudo por mim, mas nem assim eu consigo acreditar nele, pois, no sonho a seguir, já o vejo no seu mercedes branco rodeado por raparigas.

Quando saí de casa, hoje no fim do almoço, liguei o piloto automático do meu cérebro que me levou até aos bancos que encontrei naquele dia, mas decidi não ficar lá. Saí do condomínio e o porteiro até olhou para mim com cara de desconfiado, talvez por não me conhecer, mais uma das consequências de não sair de casa. Percorri o meu quarteirão até que me lembrei de que ainda não tinha visitado o oceanário, mas não foi esse o meu destino de hoje, pois enquanto estava a dirigir-me à central de táxis, passei numa cafetaria linda e decidi entrar para lanchar.

- Boa tarde, és nova por cá certo? - perguntou-me o empregado enquanto um instrumental de jazz ecoava pelo espaço.

- Sim, vim há pouco tempo para Lisboa, ainda me estou a tentar habituar à capital.

- Bem me parecia que nunca tinha visto a tua cara por aqui, se visse não me iria esquecer. - o rapaz era alto e moreno e tinha olhos azuis, vestia a farda da pastelaria, uma camisa de manga curta preta e uns jeans de ganga. Sorri com o comentário dele e fiz o meu pedido, uma taça de açaí com fruta, granola e mel. Nunca provei, mas quando vi a imagem achei que era muito bom, então decidi experimentar.

O pedido veio dois minutos depois, tinha um aspeto maravilhoso e certamente mereceu a fotografia que tirei.

- Ainda não sei o teu nome! - disse-me o rapaz depois de me colocar a taça na mesa.

- Chamo-me Alice! - sorri.

- Olá Alice, eu sou o Enzo! - respondeu ele apertando a minha mão.

Todos os direitos reservados 2019
Desenvolvido por Webnode
Crie o seu site grátis! Este site foi criado com a Webnode. Crie o seu gratuitamente agora! Comece agora