Capítulo 11
HENRIQUE
A Alice foi-se embora depois do beijo, que por incrível que pareça fui eu que parei. Não percebi o que aconteceu, aquela rapariga não parecia a Alice, ela atirou-se para cima de mim, literalmente, sentou-se no meu colo e tudo. O que se passa na cabeça daquela rapariga? Será que devo falar com ela? Talvez não! Ela não reagiu bem quando parei o beijo e disse que algo não estava certo, que ela não se parecia nada com a Alice que eu conheci. Após ter dito isso ela saiu a correr do meu quarto, vi-a a correr para casa, mas a luz do seu quarto não se acendeu, assim como a do terraço, talvez tenha ficado na sala, não sei.
Decidi ver uma serie, talvez "Orange is the new black", pode ser que um pouco de comédia me faça acalmar. Os meus pensamentos não paravam e rondavam sempre a mesma pessoa. Aquele beijo, aquele toque, toda aquela situação, parecia ser tão normal para mim. Quando imaginei o momento em que beijava a Alice foi tão perfeito, mas isto hoje foi só estranho, normal, banal, como se estivesse a beijar uma outra rapariga. Acho que tenho mesmo de falar com ela, não sei bem o que lhe vou dizer, mas é necessário!
ALICE
Já são oito da manhã, não dei pela chegada de ninguém a noite passada, será que o meu pai voltou a trazer aquela mulher cá para casa? Talvez ele já tenha saído, não faço ideia. Como é que será que a Inês acordou hoje? Será que ainda está de mau humor? Oiço loiça a partir-se no andar de baixo, talvez seja a minha irmã que deixou cair a tigela do pequeno almoço. Levanto-me e preparo-me para tomar um duche, decido vestir um vestido florido amarelo que comprei na Zara, hoje o dia parece estar quente, o sol rompe as precianas do meu quarto e eu sinto o quão quentes são os seus raios. Vou para a casa de banho e demoro mais ou menos uns dez minutos no banho, contabilizo o meu tempo pela quantidade de músicas que oiço e como só foram três, as contas não são propriamente difíceis de serem feitas tendo em conta que cada música deve ter por volta de três minutos e alguma coisa.
Visto-me e penteio o cabelo, decido não o secar hoje, gosto quando ele fica encaracolado ao secar naturalmente. Desço até à cozinha para tomar o pequeno almoço, como não comi quase nada ontem, sinto-me faminta, talvez prepare uns ovos mexidos.
- Bom dia Inês! - digo assim que passo pela sala de estar. A minha irmã está com o meu vestido branco, tem a maquilhagem toda borratada, esteve a noite toda a chorar.
- Inês está tudo bem!?
- Parece-te que estou bem? Sinceramente Alice, parece? O quê que tu queres? Já não te chega ver-me assim, ainda vens com um ar de santinha para cima de mim como se não me tivesses feito nada!?
- Mas o que fiz eu? - eu não entendo a minha irmã! Não faço ideia do motivo para ela estar a chorar, não lhe fiz nada de mal, não entendo!
- Já ligaste para o Tiago, Alice?
O Tiago! Oh meu Deus, como é que me pude esquecer dele, coitado, deve ter ficado à espera de uma chamada minha ontem. Esqueci-me completamente! Corri para o meu quarto e peguei no telemóvel, espero que ele não tenha ficado chateado comigo. A chamada não demora muito para ser atendida.
- Bom dia Alice, como estás!? - disse ele do outro lado.
- Bom dia! Estou bem e tu como estás?
- Também estou bem, vejo que estás melhor da constipação!
- Constipação!? - o que será que ele quer dizer com constipação.
- Então, ontem estavas com a voz diferente, disseste que tinhas apanhado frio durante a noite e ficaste assim, gripada. - Mas o quê que ele está para ali a dizer? Eu não fiquei gripada coisa nenhuma, para além disso, eu ontem nem falei com ele!
- Tiago, desculpa, mas tens a certeza de que eu ontem estava com a voz diferente?
- Ahm, sim Alice, ontem de manhã, quando falamos! - Retirei o telemóvel do ouvido por uns segundos e fui ao registo de chamadas, é verdade, ele ligou-me e supostamente falamos, mas eu não falei com ele. Espera lá, eu tinha deixado o telemóvel no terraço e depois da discussão com o Henrique eu corri para o meu quarto o que quer dizer que... Não, ela não faria isso!
- Desculpa, tens razão, é que eu estava a confundir-me!
- Tens estado estranha ultimamente Alice!
- Porquê que dizes isso?
- Por nada, bem eu tenho uma surpresa para ti!
- Surpresa!? - o seu tom parecia de entusiasmo, o que será?
- Sim! Mas vais ter de esperar para ver!
- Não me podes dar uma pista?
- Não! E nem comeces a tentar adivinhar, não vais chegar lá!
A chamada perdurou por mais ou menos vinte minutos, perguntei-lhe o que ele tem estado a fazer e ele retribuiu a pergunta, e recordamos alguns momentos.
O que me estava a incomodar naquele momento era o facto da Inês ter atendido ontem a chamada. Qual seria o interesse dela? Será que esteve a contar mentiras para o Tiago? Não, caso isso acontecesse ele não falaria comigo hoje. Não entendo, ela é minha irmã, o que se passa na cabeça dela?
Decido não a confrontar para já, quero descobrir por mim mesma o que ela andou a tramar.
Voltei para a cozinha e preparei o meu pequeno almoço, seguidamente fui dar uma volta pelo condomínio, apercebi-me, enquanto estava sentada no balcão da cozinha, a olhar pela janela, de que ainda não conhecia o lugar onde vivia. Os dias estão a passar muito rápido, vários problemas têm acontecido e todos eles me fazem ficar trancada dentro das quatro paredes que formam o meu quarto.
Saio de casa, vejo que toda a vizinhança é composta por pessoas com posses, e vou passeando pela estrada larga que divide o condomínio em dois. Cruzei-me com uma senhora de cabelos pretos ao fundo da rua, mas ela não me pareceu ser lá muito simpática. Até que ao longe, vi que mais à frente havia um pequeno jardim, com dois bancos e uma fonte. Penso que encontrei um esconderijo perfeito.
Fui até lá, este sítio não parece ser frequentado por muitas pessoas, as ervas estão bastante altas, exceto perto de um banco, porém, a fonte continua deslumbrante, tem um cisne no centro e a água sai por vários nenúfares à sua volta.
Decido sentar-me no banco que não está coberto por ervas daninhas e fico a olhar para o jardim. De repente, oiço uns passos vindo na minha direção, olho para o chão e vejo umas adidas brancas a aproximarem-se.
- Alice, tu por aqui?
- Isso pergunto eu, tu por aqui!?