Capítulo 6

Sorri para ele de volta, esta tarde foi muito interessante, fiz o meu primeiro amigo aqui em Lisboa, não por vontade própria, mas porque as circunstâncias assim o exigiram.

O Henrique não me falou muito sobre dele, disse-me apenas que andava na mesma escola para onde eu irei ser transferida, falou um pouco da sua família e contou-me que também tinha família no Algarve, mas não falava muito com eles. A tarde foi passada mais a falar sobre mim, enquanto passeávamos no jardim ia-lhe contando sobre a minha mãe, sobre a sua doença e a forma como faleceu, contei-lhe a verdade sobre o Tiago e por incrível que pareça, ele revoltou-se com ele, disse que não fazia sentido ele me ter deixado, tendo em conta que a distância do Algarve a Lisboa não era assim tanta e podíamos ver-nos muitas vezes.

O Henrique deixou-me em casa, despedimo-nos com dois beijos na cara e eu desapareci por detrás da porta. Agora no meu quarto estou sentada na cama a olhar para a janela, não entendo muito bem porquê, mas daqui vejo a casa dele. Neste momento está a sair de casa, deve ir para o treino de futebol, vai com um saco enorme de desporto. Quando penso que não podia ficar mais surpreendida, ele olha para a janela do meu quarto e sorri para mim. Ele tem um sorriso enorme, uns dentes brancos e uns lábios carnudos, foi fácil de reparar porque é das partes mais bonitas do seu rosto. Que vergonha, sem saber como reagir escondi-me por detrás da cortina até o carro dele desaparecer na estrada.

- Alice!? - grita a minha irmã do quarto.

- Diz!? - respondo de volta.

- Anca cá!

Assim que entrei no quarto da Inês, ela estava em frente ao roupeiro a escolher roupa, olhava-se se cima a baixo pelo espelho e depois atirava as peças para a cama.

- O que se passa? - perguntei. Será que ela me vai perguntar com quem estive hoje? Eu acho que ela engraçou com o Henrique e sinceramente não lhe quero dizer que ele me foi mostrar Lisboa, quando ela passou a tarde toda sozinha a fazer o mesmo que nós.

- Vou sair com o Henrique hoje à noite e preciso que me ajudes porque eu não sei o que vestir, já experimentei quase o roupeiro inteiro e não gosto de me ver com nada, preciso urgentemente de comprar roupa mana, tens mesmo de me ajudar!

Como assim ela vai sair com o Henrique? Ainda há pouco estivemos juntos e ele não me disse nada sobre ir sair com a minha irmã. Não estou enciumada, mas sei lá, podia pelo menos ter-me dito alguma coisa, agora entendo o facto de estar algum tempo no telemóvel enquanto estávamos sentados à beira Tejo.

- Alice vais ajudar-me ou não?

- Sim, espera, eu acho que tenho uma coisa que tu vais gostar no meu quarto.

- Foste às compras hoje?

- Fui dar uma volta e passei por uma loja que tinha roupa mesmo gira então decidi comprar. - menti obviamente, comprei um vestido lindo, branco, numa loja em Belém. O Henrique entrou comigo e viu-me a prová-lo, foi ele quem me disse que me ficava bem, portanto se gostou de me ver com ele também vai gostar de ver a pessoa mais parecida comigo usá-lo.

Fui ao meu quarto, peguei no vestido e mostrei-o à minha irmã.

- Que lindo Alice, onde compraste?

- Foi por aí, depois eu levo-te lá.

- Tens a certeza de que o posso levar?

- Claro, ele vai gostar, de certeza!

- Espero bem que sim! Ele é mesmo lindo, não é?

- O quê? O vestido?

- Não parva, o Henrique!

- Ah sim, é bonito.

- Bonito? Ele é um deus grego Alice! - Todos os rapazes altos e morenos para a minha irmã são deuses gregos, portanto, desta vez não poderia ser diferente.

- Onde vão? Tu sabes que ainda não temos idade para sair à noite certo? - essa é a grande verdade, nós vamos fazer dezasseis anos daqui a uns dias, mas ainda não os temos feito. O grande problema é que o meu pai nunca está em casa, passa a vida inteira dentro de um hospital e nós acabamos por passar o tempo todo uma com a outra, ou pelo menos passávamos.

- Primeiro, ter idade ou não, não importa nada. Segundo ele disse que me ia mostrar Lisboa, não vamos a nenhum bar ou algo assim!

Mostrar Lisboa! Parece que tem o mesmo plano para as duas irmãs, talvez pense que por sermos gémeas gostamos do mesmo tipo de coisas, pobre coitado nem sabe o quão enganado está. Que rapaz mais estupido, primeiro é todo querido comigo, paga-me o lanche, vem passear comigo, comprar roupa, elogia-me e depois vai fazer tudo isso com minha irmã. Eu juro que não entendo os rapazes, mas que descaramento!

- Estás bem Alice?

Apercebi-me de que estava a amarrotar a camisola da minha irmã com força, não entendo porquê que estou assim, o que é que eu podia esperar de um rapaz tão convencido como ele? É obvio que ele é assim, deve ser aquele tipo de rapazes que namora com várias raparigas ao mesmo tempo e de certeza que nos viu como alvos fáceis, mas de mim não vai levar nada!

- Estou, desculpa é que eu estou cansada e vou aproveitar para tomar um banho e me deitar, não tenho dormido muito bem ultimamente, por causa da mudança.

- Vai lá, o Henrique daqui a pouco vai passar por cá para me vir buscar, mas eu prometo que não vimos tarde!

- Boa noite Inês e por favor não faças nada de mal!

- Sim chefe!

Voltei para o meu quarto para pegar no meu pijama, decidi vestir um que comprei antes de me mudar para cá, é composto por um top e uns calções, quando o comprei não sabia que a parte de baixo era assim tão curta, mas é para dormir, portanto nem me importo muito. Depois de pegar no pijama e no telemóvel fui para a casa de banho, estava mesmo a precisar de um bom banho para relaxar, o dia de hoje foi cansativo e nos últimos minutos acumulei demasiada tensão que preciso de retirar do meu corpo. Abri a torneira e mudei para a água quente, demorou menos de cinco minutos para que eu tirasse a roupa que tinha vestida, umas calças brancas e um top cor de rosa claro e me enfiasse na banheira. A casa de banho do meu quarto é enorme, fui congratulada com uma banheira de hidromassagem e com sistema de som por toda a casa, peguei no meu telemóvel e coloquei a primeira música em que o meu dedo tocou "Love" da Lana del Rey, obviamente. Os meus gostos para música são um pouco reduzidos, sempre fui uma grande fã da Lana e sempre ouvi a sua música, conheço muitos outros cantores, claro, mas para mim ela é sem dúvida alguma a melhor de todos e neste momentos a playlist do meu telemóvel contém apenas músicas dela.

Entrei na banheira, deitei-me e ativei a hidromassagem, a cada minuto que passava eu sentia a tenção a evacuar o meu corpo, tudo aquilo que tinha acontecido nos últimos tempos tinha-me consumido totalmente e este banho está a fazer maravilhas.

Quase duas horas depois decidi sair do pequeno paraíso que criei, a Inês já deve ter saído de casa, mas com a música a tocar nem ouvi. Coloquei o meu roupão, não me apeteceu vestir o pijama, subi as escadas para o terraço e sentei-me no sofá a admirar as estrelas. Enquanto o fazia apercebi-me de que ainda não jantei, estou esfomeada, já devem ser quase onze da noite e a única coisa que eu comi durante a tarde foi um pastel de nata e um frappuccino de chocolate do Starbucks, a melhor cafetaria de sempre. Porém, o céu está demasiado lindo para não ser contemplado, as estrelas são como cristais, parecem simples por fora, mas têm um tesouro no interior, tesouro esse que eu vou pintar agora mesmo. Peguei em algumas telas que trouxe para cá no dia da mudança, fui ao meu quarto buscar as tintas e o cavalete e comecei a pintar. Perdi-me durante algum tempo, até que um carro branco com a música nas alturas me trouxe de novo para a realidade.

- Obrigada pela saída Henrique, gostei muito! - disse a Inês ao sair do mercedes classe A. Sim sou capaz de ter pesquisado a marca do carro, mas simplesmente por curiosidade, pois aquele carro fala com os passageiros e isso intrigou-me bastante.

- De nada, sempre às ordens! - respondeu ele. Claro, ele estará sempre pronto para levar qualquer rapariga que lhe apareça à frente a conhecer Lisboa, principalmente se essa rapariga não for de Lisboa. O pior é que todas caiem na sua armadilha. Pobres coitadas!

Depois de ouvir a porta da entrada bater, vi o carro do Henrique a arrancar, não andou quase nada, tendo em conta que a casa dele é quase colada à minha, estão apenas separadas por um jardim.

- Alice cheguei! - gritou a minha irmã.

Não respondi, prefiro que pense que estou a dormir, não quero saber qualquer tipo de pormenores relativos à saída dos dois. Não por ciúmes obviamente, apenas porque não gosto de rapazes como o Henrique, que pensam que podem ter todas na mão onde e quando querem e a minha irmã vai com ele como se fosse a sua ingénua e vendada submissa. Parece que estou perante uma cena de "Fifty shades of Grey", o problema é que a Inês não tem a alma da Anastasia, mas sim de uma das antigas submissas do Mr. Grey, excluindo obviamente a parte sexual da situação, refiro-me apenas às emoções.

Decidi continuar a pintar o céu, a noite estava calma, quente, como uma verdadeira noite de verão, algo que já não acontecia há algum tempo.

De repente o meu telemóvel toca.

-Tiago?

- Olá Alice, desculpa ligar tão tarde, mas como desde que estás aí ainda não me fizeste um único telefonema, decidi tentar a minha sorte. - apercebi-me de que já é quase meia noite assim que olhei para a tela bloqueada do meu telemóvel.

- Tiago peço imensa desculpa, tens toda a razão, eu devia ter ligado, mas tenho andado ocupada com a mudança, isto é tudo tão diferente de Odeceixe.

- Não tem mal, eu entendo!

- Desculpa a sério!

- Mas e então e já fizeste amigos novos?

- Não, nenhum!

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