Capítulo 5
- Estás bem, magoaste-te? - perguntava ele enquanto eu tentava sair de cima do seu corpo. Ele não me ajudou, simplesmente ficou ali deitado no chão a olhar para mim.
- Porquê que pegaste no meu telemóvel, nunca te ensinaram que isso é falta de educação? - estou seriamente irritada com este homem, será que todos os lisboetas são assim, bisbilhoteiros.
- Desculpa, não pensei que te fosses importar tanto. E esse Tiago, é o teu namorado?
- Ex namorado! - disse a Inês sentando-se novamente no sofá. Porquê que ela não se podia ter mantido calada, era pedir muito, de certeza. Obrigado universo!
- Como assim "ex"? Então tu não me tinhas dito que namoravas. Espera deixa-me adivinhar, esse é um rapaz com quem tu namoraste, acabaste com ele, mas ele continua a perseguir-te e a ligar-te todas as noites, tipo um psicopata. - dizia ele enquanto se ria.
- Lamento informar-te Henrique, porém, desta vez estás totalmente errado! - eu juro que se ela abre a boca para dizer mais alguma coisa eu ... - O Tiago acabou com a Alice quando viemos para cá...
- Cala a boca Inês! - peguei no meu telemóvel e desatei a correr para o meu quarto, não entendo porquê, mas as lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto. Não percebo o motivo de a minha irmã ser assim, tudo aquilo que pensa é dito, não contém, não entende que os outros podem não querer ter as suas vidas totalmente reveladas numa questão de segundos. Que estupida! Aiiii!
Ouvi a porta da entrada bater, o Henrique acabou de sair. O que será que ele ficou a pensar de mim, a esta hora deve achar que eu sou uma mentirosa, uma rapariguinha do Algarve que precisa de atenção só porque mudou de cidade, uma tonta que precisa de mentir sobre ter um namorado só para que um parvo desconhecido não lhe caísse em cima, ou pelo menos é isso que ela pensa que ele estava a tentar fazer.
O grande problema aqui é que, se ele pensar isso, ele está certo!
Depois de atirar algumas almofadas pelo ar, decidi que talvez fosse melhor começar a arrumar as minhas coisas, caso contrário, dormiria numa cama com apenas um colchão desnudo. Arrumar acalma-me, peguei no meu gira discos portátil, que recebi como prenda de anos do Tiago, no ano passado e coloquei a tocar o álbum Born to Die da Lana del Rey, assim que a música começou a soar, a melodia da canção "Summertime sadness" ecoou pelo meu quarto, esta é sem dúvida alguma a minha música favorita de todo o sempre.
O disco foi tocando pela noite fora enquanto eu ia arrumando o meu quarto, as paredes brancas iam ficando cobertas pelas estantes com livros, os armários cada vez mais cheios, porém, uma coisa ainda não estava igual, faltava o meu mar naquele quarto. Peguei nas minhas tintas e pincéis, não conseguia dormir uma noite que fosse num quarto nu, num quarto que eu não sentia como meu. Pintar acalma-me, liberta-me, faz-me sentir como se estivesse num universo paralelo onde todos os problemas são transformados em arte. Esta sensação é incrível, todos deviam passar por ela, atravessá-la e tirar dela tudo aquilo que ela tem de bom.
Adormeci enquanto desenhava um molde de umas conchas para pintar no guarda roupa e tocava a música "Blue jeans".
- Bom dia artista! - acorda-me o meu pai. Quando levanto a cabeça da secretária, vejo que em cima da minha cama está um pequeno almoço enorme, croissants, sumo de laranja, doce de abóbora, que é sem dúvida alguma a melhor compota de sempre, e torradas.
- Bom dia pai, a que devo a honra deste magnifico pequeno almoço?
- Não faço ideia filha, foi a tua irmã que preparou, pediu-me para te vir entregar e disse que pedia desculpas.
Só podia ter sido ideia da Inês, mas sinceramente o que vai na cabeça daquela rapariga, pensa que só porque me recompensa com um pequeno almoço incrível na cama eu a vou desculpar pela humilhação de ontem, nem sequer teve coragem de ser ela a vir trazer-me o pequeno almoço.
- Inês eu sei que estás na porta, entra! - gritei para que ela me pudesse ouvir do outro lado.
- Então maninha? Tréguas?
- Tréguas, mas ai de ti que...
- Sim, ai de mim que volte a falar de ti ao Henrique, já sei?
- Quem é o Henrique!? - perguntou o meu pai. Por momentos esqueci-me completamente de que o meu pai ali estava. Como é que lhe vou explicar que menti relativamente a namorar com o Tiago só para despachar o parvo do nosso vizinho?
- Pai, o Henrique é o nosso vizinho aqui do lado, ele ontem veio cá conhecer-nos e a Alice não lhe achou muita piada.
- Ah bom, sendo assim menos mal, mas filha deverias começar a pensar em fazer novos amigos!
- Sim pai, eu já sei, agora saiam os dois para eu puder tomar o meu pequeno almoço em paz, por favor!
Os dois olharam um para o outro e encolheram os braços, já deviam saber que eu detesto fazer novos amigos, gosto de estabilidade, segurança, não de andar para aí a falar com estranhos pelas ruas. Mas a Inês salvou-me a vida, talvez nem tivesse reparado nisso, no entanto eu não queria nada ter de contar ao meu pai o que aconteceu na noite anterior. Ainda nem um dia se passou e eu já morro de saudades do Algarve.
Depois do pequeno almoço decidi continuar com as minhas pinturas. O dia está quente hoje, não corre vento quase nenhum e o sol brilha lá no alto. Já é quase meio dia, a Inês saiu à mais ou menos uma hora atrás, disse que ia almoçar fora e passear por Lisboa, o meu pai está no hospital, saiu de casa logo depois que me acordou e só volta à noite, parece que tenho a casa por minha conta hoje.
Decido fazer uma salada para o almoço, estou com pouca fome e este calor também não dá grande vontade de almoçar uma feijoada, portanto acho que uma salada é perfeita. Depois de a preparar vou para o terraço, o sol está forte, mas se me sentar naqueles bancos sob o enorme guarda sol azul, não tem qualquer problema. Fiquei lá por uns minutos a apreciar a bela vista enquanto almoçava até que a campainha toca.
- Já vai! - grito, não sei se quem está lá fora me ouviu, mas pelo menos tentei. Desci a escadaria a correr e abri a porta.
- Hey! Bom dia!
- Henrique desculpa, mas a Inês saiu.
- Bom dia Alice! Por acaso estava em dúvida quem era esta rapariga gira que me abriu a porta, mas deu logo para entender que eras tu!
- Desculpa, bom dia. - expressei um sorriso verdadeiramente tímido.
- Posso entrar ou vais deixar-me a esturricar aqui à porta? - o que está ele aqui a fazer, depois de tudo o que aconteceu ontem como é que ele ainda pode estar aqui? Eu menti-lhe...
- Entra.
- Desculpa te ter incomodado é que estava no meu quarto e...
- E...
- E pensei que talvez quisesses ir dar uma volta, está um dia mesmo bonito e talvez quisesses ir conhecer a cidade.
- Henrique, não me interpretes mal, mas depois do que aconteceu ontem como é que...
- Alice calma okay, eu compreendo, foi uma separação difícil, ainda não a aceitas-te bem, isso não me dá o direito de pensar seja o que for a teu respeito, para além disso, eu nem sei o que realmente aconteceu porque tu não me contaste nada, portanto não posso fazer juízos de valor a teu respeito quando não tenho nenhum tipo de informação! - quem é este rapaz, ele não pode ser a mesma pessoa convencida que eu conheci ontem. Ele foi tão querido comigo, tão sensível, tão, eu nem sei, ele não parece o mesmo Henrique chato e convencido que eu conheci há horas atrás.
- Ahm, eu não sei o que dizer.
- Acaba de almoçar e vem dar uma volta comigo!
- Como é que sabes que eu estava a almoçar?
- Ahm, sei lá, é meio dia e pensei que pudesses estar a almoçar, foi uma suposição, mas parece que acertei!
Subimos para o terraço, o Henrique sentou-se ao meu lado no sofá e começou a falar-me um pouco mais sobre Lisboa, disse-me que era uma cidade agitada, mas que dentro do condomínio as coisas eram mais calmas, disse-me também que as pessoas não eram tão antipáticas como são pintadas no norte do país, coisa que eu pessoalmente não acredito.
Assim que saímos de casa ele dirigiu-me até ao seu carro, um mercedes branco muito bonito, eu não entendo muito de carros, mas pelo que li na matrícula, este é de 2018. Fiquei sem reação quando ele me disse para entrar e os meus pensamentos começaram a aniquilar o meu cérebro. "E se ele for um psicopata" "ou se ele se quiser aproveitar de ti" "e se ele te raptar". Como que por instinto comecei a apagar as nuvens imaginárias que criei na minha cabeça o que fez com que o Henrique olhasse para mim como se eu fosse um extraterrestre.
- Está tudo bem? - perguntou ele enquanto se ria.
- Sim, sim desculpa! - eu não podia estar mais envergonhada, de certeza que a minha cara parece um tomate neste momento. Eu coro muito facilmente e como não sou muito morena as pessoas notam facilmente que estou embaraçada.
Entramos no caro, o Henrique cheira bem, não sei qual é o perfume que usa, mas cheira bem, quando arrancamos, ele colocou música no rádio, era uma canção familiar, porém não conseguia descobrir quem a cantava.
- Post Malone conheces?
- Sim conheço, não conheço muitas músicas dele, mas esta em específico conheço!
- "I think your love would be too much ... You´r the sunflower" - cantava ele enquanto conduzia para fora do condomínio.
O Henrique é intrigante, num momento é um convencido do pior, mas no outro é um rapaz decente que se preocupada com os sentimentos dos outros.
Passei a viagem quase toda a olhar pela janela, quando não o fazia olhava para o Henrique que parecia olhar para mim em certos momentos. Afinal Lisboa não é tão má como eu pensava, excluindo a parte do trânsito. Ele levou-me até Belém, já tinha ouvido falar dos famosos pasteis de Belém, mas nunca os tinha provado, entramos na pastelaria e ele escolheu uma mesa para dois ao lado da janela. A menina veio atender-nos e ele pediu para os dois, se fosse numa situação diferente, eu provavelmente ficaria chateada por ele não me ter deixado escolher o que eu queria comer, porém, ele deve ser a pessoa mais indicada para tomar essa decisão por mim, tendo em conta o local onde estamos e o facto de um nunca ter provado um pastel de Belém.
A tarde passou a correr, fomos visitar o padrão dos descobrimentos, a torre de Belém, os jardins lá perto, foi um bom passeio numa inesperada boa companhia.
Assim que olhei para o relógio já eram seis da tarde, de certeza que a Inês já está em casa.
- Henrique já é tarde, eu preciso de ir embora.
- Eish, tens razão, eu tenho treino de futebol às sete e ainda estamos aqui.
- Futebol, mas tu jogas?
- Sim minorca, há muitas coisas sobre mim que tu não sabes, mas só descobrimos realmente uma pessoa passando tempo com ela! - disse ele piscando-me o olho e sorrindo.