Capítulo 3

Foi difícil adormecer, novamente, tinha pesadelos com as pessoas de Lisboa, "será que me iriam aceitar?", "será que eu ia gostar da casa?", "será que a escola em setembro ia correr bem?". As perguntas só penetravam os meus pensamentos sem autorização nenhuma, uma atrás da outra e mais e mais pesadelos chegavam para me afastar o sono.

- Alice acorda, são seis da manhã e nós temos de ir embora. - acorda-me o meu pai enquanto me abana as pernas deitadas num colchão insuflável na sala de estar.

- Já está tudo pronto?

- Sim filha, a tua irmã está na cozinha a tomar o pequeno almoço, junta-te a ela e depois venham vestir-se, temos de sair daqui a pouco para conseguirmos chegar a Lisboa às dez da manhã. A carrinha das mudanças saiu daqui há pouquíssimo tempo, portanto, temos de nos despachar para não ficarmos sem móveis.

- Sim pai, tens razão, eu vou agora vestir-me e já vou tomar o pequeno almoço. - disse eu ao levantar-me daquele maldito colchão.

- Alice?

- Sim pai?

- Obrigada!

Apenas sorri, aquele obrigada tocou-me bastante, senti que o meu pai falou imenso comigo em apenas uma palavra tão simples como "Obrigada", depois de tudo o que aconteceu com a minha mãe, as coisas ficaram estranhas aqui em casa, o meu pai passava os dias no hospital como sempre, mas quando chegava a casa vinha mais frio, distante, parecia que a morte dela se repetia todos os dias na sua vida, quando ele conseguiu a proposta para nos mudar-mos para Lisboa parece que tudo mudou, ele andava mais animado, passava mais tempo connosco, jantava connosco. Era estranho ver o meu pai assim após tanto tempo, no início pensei que ele tinha encontrado outra mulher, mas não foi esse o caso, sinceramente nem eu sei o que aconteceu, ele simplesmente mudou, de um dia para o outro.

Já no meu quarto decido vestir uns jeans brancos e um cropped azul escuro, comprei-o na Zara há pouco tempo e planeava vesti-lo quando fosse para a festa de aniversário da Raquel, uma amiga minha que faz anos depois de amanhã. Já que não poderá ser como eu planeei novamente, então, que seja agora.

Desci as escadas à pressa porque me perdi outra vez a olhar pela janela do meu quarto, é a última vez que eu vou ver aquele mar, é a última vez que vou sentir o cheiro a maresia bater-me na cara, é a primeira vez em muito tempo que vou sair do meu pequeno paraíso. Foi como uma despedida de mim mesma, talvez deixe tudo aquilo que eu sou aqui, nesta casa, nesta cidade, ou talvez não, pode ser que algo em Lisboa me prenda tanto a atenção como o mar, o meu mar.

- Bom dia bela adormecida, estava difícil descer!

- Ai Inês, não me chateies!

- Já sei, aposto que ficaste lá em cima sentadinha no sofá junto à janela a ver o teu amor!

- Sim talvez tenha ficado e então? - ela quando quer consegue tirar-me do sério. Porquê que por fora somos tão parecidas, mas por dentro tão diferentes? A Inês é muito mais divertida do que eu, gosta de estar sempre em festas com as amigas, gosta de sair à noite, gosta de viajar, correr, dançar, cantar, o verdadeiro sonho dela era entrar para uma escola de artes performativas, onde pode aprender canto, dança e representação. Já eu não, eu não gosto de sítios com muita confusão, prefiro ficar em casa, sentada no meu sofá junto à janela a ouvir música e a escrever, ou a pintar. Todas as pinturas do meu quarto fui eu quem as fez, cada onda do mar do teto, as estrelas e conchas que descem a parede junto à secretária, tudo, eu adoro pintar, principalmente aquilo que gosto.

- Vá meninas já chega, não vão começar a discutir logo de manhã! - pedia o meu pai enquanto juntava as mãos como se suplicasse.

- Desculpa pai! - dissemos em coro.

Despedimo-nos da casa uma última vez e também dos Pereira que, por incrível que pareça, nos vieram dar um último adeus tão cedo e partimos.

O carro não vai cheio, apenas vou eu, a Inês e o meu pai, assim como os três portáteis e os nossos telemóveis, nada mais.

Adormeci durante as três horas que se seguiram, estava exausta da noite passada e da anterior a essa, nestes últimos dias tem sido tudo a correr, parece que ando numa montanha russa e tenho que me apressar para chegar ao fim, só que não sou eu que me quero apressar é a vida que me apressa e isso deixa-me tonta, assim como o looping deixa toda a gente depois que o atravessam.

Quando acordei, parecia que me tinha mudado de país, só via carros e pessoas que atravessavam a tua a correr, há muito barulho aqui, muito movimento, o cheiro não é igual ao da minha cidade, aqui cheira a combustível queimado, fumo, não me cheira mais a mar, mas sim a rio, não me parece mais um paraíso, mas sim uma prisão. Estou rodeada por blocos de apartamento, na cidade onde eu vivia era tudo muito mais calmo, vivíamos em Odeceixe e tirando as casas junto ao mar, como a minha e a dos Pereira, o resto era tudo pacato, calmo, simples. Em Lisboa não, as pessoas andam sempre atarefadas, sempre a correr e a gritar. Só espero que o condomínio fechado para onde vamos viver não seja assim. O meu pai já nos mostrou algumas fotografias, tem um portão grande na entrada com um segurança, e depois de entrarmos as casas começam a aparecer, cada casa tem um jardim à frente e são separadas umas das outras, quando vi, lembrei-me logo de uma serie britânica que vi à pouco tempo chamada "Safe", não é igual, mas é parecido e a ideia é a mesma.

- Meninas estamos mesmo a chegar, por aquilo que o GPS diz, faltam cinco minutos. - disse o meu pai. Notasse que ele está bastante entusiasmado por vir viver para cá.

- Alice, olha ali! - a Inês é incrível, já estava a apontar para um rapaz que andava de skate pelo passeio. Até era bonito, loiro, alto, mas não deu para ver a cor dos olhos.

- Pai, ainda falta muito? É que eu preciso de ir à casa de banho!

- Não Alice, olha já cá estamos, vou só lá fora falar com o segurança e pedir-lhe o comando do portão. - disse ele enquanto saída do carro.

- Eu acho que viver aqui vai ser altamente!

- Claro que vai, para ti tudo o que seja diferente é altamente...

- Será que vamos ter vizinhos giros?

- Inês, mas será possível que tu só te importes com isso! Que melga!

- Tu é que devias ser mais assim, passar o dia em casa a olhar para o nada é uma perda de tempo, pode ser que aqui faças novos amigos, as pessoas do condomínio podem ser simpáticas.

- Sim, talvez, eu não sei, agora só quero mesmo ir à casa de banho!

O meu pai chegou finalmente, a minha irmã quando quer consegue mesmo irritar-me, eu não sou como ela, detesto andar por aí atrás de rapazes, para além disso, eu ainda gosto do Tiago, acho que nunca vou deixar de gostar.

A nossa casa é a segunda, quando chegamos à porta, a carrinha das mudanças já lá estava à nossa espera. Pedi ao meu pai as chaves de casa, precisava mesmo de ir à casa de banho, caso contrário as minhas calças iriam transformar-se numa piscina.

- Alice, a casa de banho social fica no andar de baixo junto à sala de estar!

- Okay pai, obrigada!

Assim que abro a porta do carro, vejo passar do outro lado do passeio um rapaz alto e moreno, novamente não consigo ver qual é a cor dos seus olhos, mas consigo vê-lo a aproximar-se de mim, usa umas calças de ganga claras, uma T-shirt da Levis branca, o seu cabelo é encaracolado, mas não muito grande. Olhando-me nos olhos disse:

- Olá, sou o Henrique e tu és?

- Alice, Alice Ribeiro.

- Olá Alice Alice Ribeiro!

- Olá! Eu sou a Inês, prazer em conhecer-te! - lá está ela a fazer das suas, aposto que já se vai atirar ao pobre rapaz.

- Uau, vocês são gémeas, nunca tinha conhecido umas gémeas até hoje, pelo menos umas tão bonitas como vocês! - E pronto, porquê que os rapazes não podem ver uma rapariga que se fazem logo a ela, esse tipo de rapaz enerva-me profundamente.

- Obrigada! - continuava a minha irmã enquanto enrolava cabelo nos dedos, fazia sempre isto quando algum rapaz vinha falar com ela.

- Desculpem, mas eu preciso mesmo de ir à casa de banho, a viagem foi longa e eu estou prestes a rebentar!

- Okay! Bem parece que vamos ser vizinhos, eu moro mesmo aqui na casa ao lado!

- Boa, mas eu agora preciso mesmo de ir, adeus ...

- Henrique!

- Isso, adeus Henrique!

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